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Sexualidade e gênero: 13 razões para falar sobre

            Adriana e Bruno são irmãos gêmeos que cresceram presenciando cenas da mãe sendo agredida pelo pai: gritos, murros e chutes são parte de muitas lembranças, principalmente dos finais de semana e feriados, quando o pai costuma beber mais.

            Quando Camila tinha quatro anos, seu padrasto entrou em seu quarto no meio da noite pela primeira vez e começou a acariciá-la, dizendo que tratava-se de uma brincadeira, de um segredo entre os dois.

            Danilo, aos três anos, dormia com Dido, seu ursinho de pelúcia. Quando o pai foi visitá-lo em sua cidade e o viu abraçado ao ursinho, atirou o brinquedo longe, gritando com o filho e sacudindo-o: “Filho meu tem que ser homem!”.

            Eli lembra-se até hoje da alegria que sentiu quando arrumou-se para ir para a escola pela primeira vez. A alegria durou pouco tempo: desde os primeiros dias de aula, algumas crianças da sala começaram a fazer piadas sobre seu cabelo comprido, rindo, atirando lacinhos e fivelas, chamando-o de “Eliana” depreciativamente. Eli chegava da escola e chorava, com medo de precisar voltar no dia seguinte.

            Na semana passada, Fernanda foi a uma festa com a prima. Lá, conheceu um garoto por quem se interessou. O garoto lhe deu uma carona para casa e, no caminho, começou a acariciá-la e tentar tirar suas roupas. Quando Fernanda disse que não queria, o garoto respondeu: “quem você pensa que é para dizer não para mim, sua vadia!?” e estuprou-a. Ao chegar em casa, Fernanda não contou nada para ninguém, ficou em silêncio e foi tomar banho sentindo-se suja. Trancada no banheiro, ouviu o pai gritar com a mãe na sala, dizendo que ela não devia ter permitido que a filha saísse, que sair com “aquelas roupas” não é coisa de “moça direita”.

            Gabriela não aguenta mais ir para a escola. Tudo começa na hora da chamada, quando, além de o seu nome não ser respeitado, sente-se péssima com os olhares de estranhamento e condenação tanto dos professores e professoras, quanto de colegas de sala. Fica pior nos dias em que não consegue evitar e precisa ir ao banheiro: depois de ter sido espancada no banheiro masculino e das reclamações das outras meninas por terem visto-a no banheiro feminino, foi solicitado pela diretora que Gabriela passasse a usar o banheiro da secretaria. Cada vez que precisa ir até a sala da direção pedir a chave, sente-se como se fosse uma aberração.

            Quando a mãe de Heloísa encontrou camisinha na bolsa da filha, começou a chorar, disse que estava muito decepcionada. Falou que estava preocupada, que meninas que andam com camisinha não se dão valor. Que ela precisa entender que os garotos dividem as garotas entre “fáceis” e “difíceis”, entre “mulheres pra transar” e “mulheres para casar”. Deu exemplo de mulheres do bairro que considera que “não prestam” e disse que seria um grande desgosto para a família se Heloísa se tornasse uma delas.

Inaiá e Júlia começaram a namorar há seis meses, mas se esforçaram para que ninguém ficasse sabendo, com medo de serem discriminadas e agredidas. Uma carta anônima com fotos das duas juntas foi enviada à direção. A diretora decidiu entrar em contato com a família das duas alunas, para informar sobre a carta recebida. A avó de Inaiá tirou-a da escola, proibiu-a de falar com Heloísa e insiste que ela não pode mais sair de casa nem usar a internet para “protegê-la do mal”.

            Luciana e Matias namoravam. Quando Luciana decidiu terminar, Matias sentiu muita raiva e ciúmes. Decidiu publicar uma foto de Luciana nua na internet. Diante das reações de condenação e as muitas ofensas recebidas por Luciana, sua mãe decidiu que seria melhor que ela mudasse para outra cidade, com receio de que ainda assim a foto fosse descoberta e mais uma vez Luciana sofresse humilhações.

            O irmão de Nelson está internado há dez dias no hospital. O quadro é grave: fraturas decorrentes de um espancamento que ele sofreu em um bar, por um grupo que o agrediu por estar abraçado com o namorado.

            Adriana, Bruno, Camila, Danilo, Eli, Fernanda, Gabriela, Heloísa, Inaiá, Júlia, Luciana, Matias, Nelson: os treze nomes são fictícios, assim como os exemplos, mas as situações narradas referem-se a ocorrências de discriminações e violência relacionadas à sexualidade e ao gênero que são muito similares as que ocorrem com frequência no contexto escolar.

São experiências associadas a muitos sofrimentos, sofrimentos que tornam-se ainda maiores quando as pessoas que os vivem não encontram espaço em que possam falar sobre o que sentem. Sem a possibilidade de diálogo, de escuta, de reconhecimento, torna-se difícil a elaboração, torna-se difícil pensar como as relações podem ser diferentes. Há inclusive situações em que, sem a possibilidade de diálogo, a própria violência não é reconhecida enquanto tal, há pessoas que se condenam, que sentem vergonha e remorso, que acreditam serem culpadas pelo que sofreram. 

            Diante do frequente silenciamento, é importante colocarmos em questão a ideia de que evitar determinados assuntos é uma medida de proteção, que impedir a discussão sobre determinados temas seria uma forma de prevenção. O equívoco de considerar que silenciar é proteger, que evitar é prevenir, pode ser exemplificado com as resistências comuns em torno de abordagens educativas sobre sexualidade: há a ideia de que falar sobre seria uma forma de incitar o que precisa ser contido, de expor o que precisa ser recoberto por cerceamentos e restrições. A demanda de que profissionais da psicologia e outros profissionais da saúde e da educação atuem com adolescentes com o propósito de “apagar o fogo” é alimentada pela expectativa de que questões consideradas como “tentações”, como “perigos”, como “armadilhas” sejam afastadas e fiquem bem. Sexualidade e gênero são temas considerados “espinhosos”, entre outros como os usos de bebidas alcoólicas e outras substâncias psicoativas; as ocorrências de discriminação e violência no contexto escolar e em outros contextos; as experiências de sofrimento psíquico, as tentativas e ocorrências de suicídio, que têm sido abordadas com maior frequência nas últimas semanas.

            Silenciar para proteger, cercear para prevenir, são estratégias que impedem ao invés de favorecer o que é mais necessário para promover saúde e direitos: a construção de espaços de diálogo, de reflexão, de esclarecimento de dúvidas, de compartilhamento de ideias e de experiências. A preocupação de evitar que se fale sobre assuntos que são significativos para os(as) adolescentes dificulta que eles(as) possam se reconhecer como sujeitos ativos, para que possa acontecer a ampliação da compreensão e da autonomia para as muitas escolhas que são feitas nas experiências que vivem.

            O que os exemplos de Adriana, Bruno, Camila, Danilo, Fernanda, Gabriela, Heloísa, Inaiá, Júlia, Luciana, Matias e Nelson têm em comum é como os aprendizados sobre sexualidade e gênero são atravessados por padrões que, embora influenciem tantas situações de agressão, discriminação, estigmatização e exclusão, são predominantemente silenciados, o que faz com que muitas vezes sejam vistos como inevitáveis, como “naturais”. São treze adolescentes que poderiam estudar na mesma escola, inclusive na mesma sala de aula. Por isso as abordagens educativas sobre sexualidade e gênero são tão fundamentais: para uma perspectiva de promoção de direitos, é necessário que o silenciamento e a naturalização sejam rompidos.

            Escrevi os exemplos para a discussão realizada no capítulo “Por que precisamos do debate sobre gênero nas escolas?”, publicado no livro “Diversidade, acessibilidade e direitos: diálogos com a comunicação”, organizado por Larissa Pelúcio e Clodoaldo Cardoso. Pensei novamente sobre eles nas últimas semanas por duas razões:

Antes de falar sobre a série, que se passa predominantemente em uma escola de ensino médio nos Estados Unidos, gostaria de lembrar de uma campanha sobre as escolas brasileiras realizada no ano passado, no contexto das reivindicações para a manutenção dos termos gênero e orientação sexual nos Planos de Educação. As treze imagens apresentadas a seguir são do site da campanha, “Nós precisamos do debate sobre gênero nas escolas”, organizada pelo Coletivo LGBT Cores, de Campinas. Cada cartaz refere-se a frases ouvidas pelas pessoas em contextos de preconceito, discriminação e violência.

 

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“Mulher é que nem carne: quanto mais bate, mais macia fica” (frase dita por um professor”); “Mas se ele passou a mão em você, é porque você deve ter provocado”; “Existe mulher para casar e mulher para trepar”; “Mulher tem que se dar o respeito”; “Bêbada não tem dono”; “Sua perna é muito grossa para você vir de shorts, assim os meninos não focam nas aulas”; “Ele te chamou de gostosa porque você se veste como uma vagabunda”; “Não quer que passem a mão? Coloque um short maior”; “Só é assim porque nenhum homem te pegou de jeito!”; “Quero ver agir como macho quando eu te descer o cacete, lésbica nojenta!”; “Essa raça tem que ser exterminada”; “Se fosse meu filho, eu matava”; “Você deveria apanhar muito para virar homem!” (dito para uma mulher trans), são as frases apresentadas nas treze imagens apresentadas na página da campanha

Naturalização da violência física contra as mulheres; naturalização da violência sexual contra as mulheres; culpabilização das mulheres por violências sofridas; objetificação do corpo das mulheres, como se elas não tivessem desejos próprios; negação da importância do consentimento para que haja sexo; preconceitos e ameaças contra homens gays; preconceitos e ameaças contra mulheres lésbicas; preconceitos e ameaças contra pessoas trans: os cartazes ilustram como o silenciamento pode ser algo muito prejudicial diante da urgência de que as relações sejam transformadas.

A partir dos treze exemplos apresentados no início do texto, dos treze cartazes da campanha promovida pelo Coletivo LGBT Cores e dos treze episódios da série “Thirteen reasons why”, serão apresentadas, a seguir, treze razões para o diálogo sobre sexualidade e gênero nas escolas, acompanhadas pela recomendação de treze artigos ou livros que podem contribuir para quem desejar promover a discussão.

1. A sexualidade é aprendida

            Há um mito que, com as transformações corporais da puberdade, haveria uma espécie de ebulição hormonal que faria com que adolescentes experimentassem de forma abrupta e instável a força impulsiva dos desejos sexuais. Há verdades por trás desse mito: as transformações corporais de fato acontecem, os hormônios têm influência nas experiências, alguns desejos experimentados podem surpreender. Mas o que é vivido no corpo é indissociável dos significados da cultura, ao que é aprendido nas relações sociais sobre o que é a sexualidade, o que é desejar sexualmente, o que é expressar-se sexualmente. O diálogo sobre as representações culturais sobre os corpos e os desejos pode ser muito proveitoso para que adolescentes reflitam sobre as experiências que estão passando, sobre os processos de construção de si e das relações que estão vivendo. É também necessária a problematização sobre como o mito inicial é acompanhado por mitos relacionados aos padrões de gênero: o desejo impulsivo e instintivo seria mais forte nos garotos, a ponto de ser incontrolável; para as garotas, sonhar com o amor ideal é que seria algo mais “natural”. Torna-se importante também o diálogo sobre os padrões de gênero, que nos leva à segunda razão.

è Artigo relacionado: Sexualidade: isso é mesmo matéria escolar?, de Fernando Seffner.

2. Os padrões de gênero são aprendidos

            Mulheres são “naturalmente” sensíveis, “naturalmente” românticas, “naturalmente” submissas. Homens são “naturalmente” impulsivos, “naturalmente” dominadores, “naturalmente” agressivos: o aprendizado sobre os padrões de gênero faz com que determinados modelos que são continuamente transmitidos e reforçados sejam tão repetidos que pareçam “naturais”. Tal naturalização pode ser muito prejudicial, como em relações assimétricas em que mulheres sofrem agressões e pensam que os parceiros seriam “naturalmente” violentos e que elas “naturalmente” deveriam compreendê-los e buscar ajudá-los a mudarem. A problematização sobre a naturalização de padrões de feminilidade e masculinidade que são aprendidos contribui para que garotas e garotas aprendam a reconhecer situações de desigualdade e de violência e para que possam refletir sobre como é possível preveni-las e transformá-las.

è Livro relacionado: O machismo invisível de Marina Castañeda.

3. O aprendizado sobre sexualidade é atravessado por padrões de gênero.

            São poucos os espaços educativos em que os(as) adolescentes podem conversar sobre o que sentem, esclarecer dúvidas, expressar ansiedades, inseguranças e curiosidades em relação às primeiras experiências. Embora as oportunidades de diálogo sejam poucas, a transmissão de modelos sobre como as primeiras experiências devem ser ocorre de forma muito intensa e muito marcada pelos padrões de gênero. Enquanto para as garotas há a transmissão de um ideal em que as primeiras experiências sexuais devem ocorrer no momento “certo”, com a pessoa “certa”, pelos motivos “certos”, com a construção de um imaginário de que deve ser algo muito significativo e especial; para os garotos há a pressão de que ocorra logo, o mais cedo possível e, de preferência, sem envolvimento emocional e com o maior número de parceiras possíveis. Ambos os aprendizados são marcados pela heteronormatividade: a expectativa de que, “naturalmente”, as experiências serão necessariamente heterossexuais. Desejos que não sejam desejos heterossexuais são transmitidos como não legítimos; desejos das mulheres que não sejam românticos são desconsiderados; desejos dos homens relacionados ao envolvimento emocional são invisibilizados, como se tais desejos pudessem ser fonte de julgamentos negativos, de desqualificações, de discriminações. A problematização de tais padrões é, assim, muito necessária para que as primeiras experiências possam ser reconhecidas e valorizadas em suas múltiplas expressões, não como se devessem adequarem-se a um único modelo.

è Artigo relacionado: Educação sexual e primeira relação sexual: entre expectativas e prescrições, de Helena Altmann.

4. Os preconceitos são aprendidos.

            “Vadia!”, “bicha!”, “baleia!”, “macaco!”, “crente!”, “macumbeira!”, “aleijada!”, “retardado!”, “pé-rapado!”: se observarmos o pátio da escola no momento do intervalo, dificilmente não nos depararemos com interações que envolvem provocações, xingamentos, ofensas. As palavras usadas com frequência demonstram como é necessário nos atentarmos para como a discriminação de classe; a discriminação racial e étnica; a discriminação religiosa; por padrões estéticos; por padrões de gênero e sexualidade e por deficiências físicas e intelectuais indicam como não é possível transformarmos concepções preconceituosas e práticas discriminatórias sem considerarmos como as diferenças são representadas, como algumas características são consideradas como inferiores em um modelo hierárquico que gera muitas estigmatizações e exclusões.

É fundamental considerar também como as próprias pessoas discriminadas muitas vezes assimilam os modelos em que são situadas como desviantes, como inferiores, o que leva a sofrimentos muito intensos, sensações de culpa, cobrança e humilhação. O aprendizado de padrões discriminatórios está presente em quem sofre e em quem pratica a violência, assim como em quem assiste, quem presencia. Por isso, é muito importante o diálogo sobre como as diferenças têm sido convertidas em hierarquias, sobre a necessidade do reconhecimento e da valorização das múltiplas identidades, das múltiplas formas de ser, de agir, de sentir.

Silenciar sobre as práticas de violência como se fossem apenas uma “brincadeira”, como se deixar de falar sobre elas fosse uma estratégia para “esperar passar” apenas contribui para alimentar as situações de discriminação e exclusão que precisamos transformar.  

è Artigo relacionado: “Eles me chamam de feia, macaca, chata e gorda. Eu fico muito triste – Classe, raça e gênero em narrativas de violência na escola”, de Anderson Ferrari (2010).

5. Os preconceitos atravessam as experiências de aprendizado sobre sexualidade e gênero

“Puta”, “vadia”, “viado”, “bicha”: quando notamos as palavras que são com frequência utilizadas como xingamentos, para provocar, para ofender, percebemos como o imbricamento entre os padrões de sexualidade e gênero é intenso nas práticas discriminatórias.

            “Biscate” e “galinha” são exemplos sobre como o modelo de feminilidade em vigor é associado à submissão, ao recato, ao apagamento da dimensão dos desejos e prazeres sexuais; com a transmissão de que as experiências sexuais das mulheres podem ser motivo de julgamentos, de desqualificação. 

            “Mulherzinha e “boiola” são exemplos de como o aprendizado sobre o que ser menino, o que é ser homem, abrange muitas vezes a depreciação de qualquer característica que possa ser considerada como feminina (sensibilidade, delicadeza, carinho) e a transmissão da homossexualidade como algo condenável, que inferioriza.

            Não há como compreender sobre os processos de aprendizado sobre sexualidade sem considerar a construção dos padrões de masculinidade e feminilidade e vice-versa. Por isso, sem o diálogo sobre esses padrões, a tendência à naturalização leva à reprodução de situações de violência, vistas muitas vezes como inevitáveis e mesmo como justificáveis.

è Artigo relacionado: Um bocado de sexo, pouco giz, quase nada de apagador e muitas provas: cenas escolares envolvendo questões de gênero e sexualidade, de Fernando Seffner (2011).

6. O aprendizado sobre sexualidade e gênero é um processo que atravessa a construção das subjetividades.

            As experiências que as pessoas vivem são múltiplas, assim como são plurais os modos de ser, desejar, sentir, se relacionar. Quando as diferenças não são compreendidas como expressões legítimas, mas como motivos de inferiorização, de discriminação, há uma grande influência em como as pessoas se relacionam entre si e consigo mesmas. A atenção para como os preconceitos relacionados à sexualidade e ao gênero participam na construção subjetiva leva ao reconhecimento sobre como a valorização das diferenças é algo necessário. Nas palavras de Richard Miskolci:

“A sexualidade envolve desejo, afeto, autocompreensão e até a imagem que os outros têm de nós. A sexualidade tende a ser vista, por cada um de nós, como nossa própria intimidade, a parte mais reservada, às vezes até secreta, de nosso eu. Assim, não surpreende que a sociedade tenha encontrado nela um meio de normatizar as pessoas. Foi a partir de uma maneira de tornar essa sensação mais íntima, mais preciosa e pessoal em algo que é motivo de chacota, xingamento e humilhação”.

            Quando há o silenciamento sobre os temas sexualidade e gênero, há o impedimento também de que sejam reconhecidas as violências relacionadas a eles, dificultando que possam ser prevenidas e enfrentadas.

è Livro relacionado: Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças, de Richard Misckolci.

7. A importância da compreensão sobre a sexualidade como vinculada à ao prazer e à saúde. 

            Promover o diálogo sobre a sexualidade considerando a importância de que sejam discutidos os padrões culturais que atravessam as relações e as experiências favorece que os múltiplos desejos, os múltiplos afetos, os múltiplos vínculos e as múltiplas formas de buscar e sentir prazer sejam reconhecidos e valorizados, a partir da compreensão de que é fundamental que sejam respeitados as vozes, as escolhas e as vontades de todas as pessoas envolvidas. A valorização da comunicação, de relações de igualdade e da reflexão sobre como essas relações acontecem constrói condições para que a sexualidade seja associada a significados e experiências prazerosas, facilitando também práticas de cuidado, de prevenção e de atenção para a saúde, como no exemplo da importância do diálogo sobre o uso do preservativo.

Se a sexualidade não é considerada como um tabu, como algo proibido e censurado, se os desejos não são vistos como fonte de desqualificação, de depreciação, as experiências e a comunicação sobre elas tornam-se mais abertas. Torna-se infrutífero abordar sobre temas como saúde e prevenção sem contextualizar sobre as relações em que esses temas se inserem.

è Artigo relacionado: Sexualidade, prazeres e vulnerabilidade: implicações educativas, de Dagmar Meyer, Carin Klein e Sandra Andrade.

8. A importância de uma compreensão sobre a sexualidade a partir da perspectiva de promoção de direitos.

Diante da proposta de abordagem sobre sexualidade nas escolas, é comum a impressão de que os temas discutidos seriam aqueles referentes à prevenção da gravidez não planejada e das doenças sexualmente transmissíveis. De fato, a promoção de saúde sexual e reprodutiva está entre os objetivos de abordagens educativas sobre sexualidade. No entanto, não são os únicos objetivos almejados, mas se inserem em uma perspectiva mais ampla de promoção de direitos. Para elencarmos questões importantes a serem dialogadas, podemos começar mencionando a Declaração dos Direitos Sexuais, publicada a partir do XIV Congresso Mundial de Sexologia, em 1999, com a afirmação dos direitos sexuais enquanto direitos humanos: 1) Direito à liberdade sexual; 2) Direito à autonomia sexual, à integridade sexual e à segurança do corpo; 3) Direito à privacidade sexual; 4) Direito à justiça; 5) Direito ao prazer sexual; 6) Direito à expressão emocional; 7) Direito à livre parceria sexual; 8) Direito a fazer escolhas reprodutivas livres e responsáveis; 9) Direito à informação baseada em pesquisas científicas; 10) Direito à educação sexual integral e 11) Direito à atenção e à saúde sexual, que são também acompanhados de direitos reprodutivos, como: 12) Direito à decisão sobre ter ou não ter filhos(as), quantos e em que momentos da vida e 13) Direito que as decisões sobre a reprodução ocorram de forma livre de discriminação, coerção ou violência.

            O que é importante considerar para que os direitos sexuais e reprodutivos sejam respeitados? Que para que possa haver justiça e igualdade, é necessário que relações e atitudes discriminatórias baseadas em questões como gênero, orientação sexual, raça, etnia, classe social, religião ou deficiência sejam combatidas e transformadas.

Para que as pessoas possam ter liberdade para viver e expressar a sexualidade, é necessário o enfrentamento de qualquer forma de discriminação, coerção, exploração e violência.

Para que decisões possam ser tomadas com autonomia, é necessário que a esfera da intimidade e da privacidade seja respeitada.

Para que as parcerias sexuais sejam construídas livremente, é preciso que envolvimentos afetivos e sexuais como beijar, ficar, namorar, transar, casar-se, divorciar-se, entre outros, sejam vistos como escolhas, sem que haja qualquer forma de coerção para que aconteçam.

Para que o prazer sexual possa ser buscado e as emoções relacionadas à sexualidade possam ser expressas, é necessário que todas as pessoas, inclusive crianças e adolescentes, recebam informações que esclareçam sobre a relação entre sexualidade, saúde e direitos e desmistifiquem a força de associações da sexualidade com a culpa, a vergonha, a imoralidade, o que também é fundamental para que as escolhas reprodutivas sejam feitas de forma livre e responsável.

As escolas e outros espaços educativos são contextos de fundamental importância para que os direitos a informações baseadas em pesquisas científicas e o direito à educação sexual integral possam ser promovidos.

è Artigo relacionado: Para um direito democrático da sexualidade, de Roger Raupp Rios.

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A partir daqui o texto trará exemplos da série “13 reasons why”. Por isso, recomendamos que a leitura seja interrompida para quem preferir não ter informações sobre os conteúdos dos episódios.

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9. A importância da identificação de situações de discriminação e violência

            Há situações de discriminação e violência que, embora aconteçam cotidianamente, muitas vezes não são reconhecidas como violações de direito que precisam ser prevenidas e enfrentadas. Algumas delas são consideradas algo pequeno, como se não fossem graves o suficiente para receberem atenção, enquanto outras, explicitamente sérias, são silenciadas muitas vezes pelas dificuldades das pessoas envolvidas em compreenderem e lidarem com o que aconteceu. Ao percebermos como violências implícitas e explícitas estão ligadas e são diretamente relacionadas à naturalização de determinados padrões, as condições para que transformações possam acontecer podem ser ampliadas. Nesse sentido, mencionaremos a seguir algumas formas de discriminação e violência que foram abordadas nos episódios de “Thirteen reasons why”. 

...

“Vadia e  “vagabunda” foram algumas das palavras fotografadas pela mãe de Hannah quando entrou no banheiro da escola e se espantou com o teor depreciativo das mensagens escritas nas paredes e portas.

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            No decorrer dos episódios, Hannah conta sobre como foram muitas as histórias que se espalharam sobre ela desde que entrou na escola. Muitas dessas histórias tinham como elemento principal representá-la como uma garota “vadia”, “fácil”, “promíscua” e outras associações depreciativas relacionadas à sexualidade e ao desejo sexual.

            Um primeiro exemplo é uma foto que foi tirada em um momento que era especial para Hannah, mas que quando o garoto com quem estava, Justin, mostrou para os amigos, um deles enviou para várias pessoas da escola, com a violação do direito à privacidade de Hannah. A foto foi muito comentada, o fato de estar com as pernas abertas em um escorregador foi um disparador para que começassem boatos e julgamentos com a construção de uma imagem de promiscuidade.

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            Um garoto que havia sido amigo de Hannah, Alex, escreveu uma lista como uma tentativa de provocar a ex-namorada e buscar aprovação de outros garotos da escola. A lista tinha os melhores e piores lábios, o melhor e o pior rosto, os melhores e os piores seios, a melhor e a pior bunda. A nome da ex-namorada, Jéssica, estava na coluna de pior bunda, enquanto o de Hannah estava na de pior.

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A lista, que para Hannah inicialmente gerou apenas um incômodo, suscitou inúmeras situações muito negativas. Primeiro, não conseguia mais andar pelos corredores da escola sem sentir que estava sendo observada, que as pessoas cochichavam, ou mesmo que tiravam fotos pelas suas costas. Quanto tentava conversar com alguém, como seu amigo Clay, sobre como estava se sentindo, parecia ser um exagero, afinal, seria como um elogio, uma alegria, estar na “lista das gostosas. Mesmo as garotas da escola reforçavam a objetificação que Hannah estava sofrendo, como quando uma delas recomenda que ela deveria ir ao baile, afinal: “é claro que a melhor bunda do segundo ano conseguirá um par”. Ainda, quando comprava um chocolate em uma loja, um dos garotos, Bryce, se ofereceu para pagar para ela, e, em seguida, apertou sua bunda. Quando ela reagiu com espanto, ironizou: “É bem apertadinha. A loja. Essa loja é bem apertadinha”. Depois, acrescentou: “Se quiser saber, a lista acertou em cheio”.

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            Nomes de garotas escritas nas portas e paredes dos banheiros acompanhadas de ofensas como “puta”, “vadia” e “vagabunda”. Fotos que são espalhadas com o intuito de desvalorizar alguém. Listas, comentários e gestos que representam os corpos das mulheres como objetos, a serem divididos em partes, julgados, avaliados, coisificados, apalpados, desrespeitados. Considerar que qualquer uma dessas ações, que qualquer uma dessas falas, que qualquer um desses comentários é algo pequeno, inofensivo, apenas uma “brincadeira”, é justamente o que naturaliza e faz crescer a violência machista que atravessa as relações.

            A questão de como o movimento de culpabilização pode estar presente nas experiências das próprias mulheres pode ser exemplificado quando, ao pedir que um garoto saísse de perto dela após ter colocado as mãos em suas pernas e tentado agarrá-la com os amigos assistindo, ele se afastou, agressivo, dizendo: “pensei que você fosse fácil”. Quando ele sai, Hannah fica imóvel sem conseguir reagir. Nas gravações, narra: “Qualquer coisa teria sido melhor que sentar lá, pensando que, de algum modo, tinha sido culpa minha”.

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            Ao contar sobre um estupro que foi presenciado por ela, Hannah também fala sobre como é forte a tendência à culpabilização: “Talvez se essa garota não tivesse bebido tanto, o que aconteceu depois nunca teria acontecido. Mas era uma festa. Todos beberam demais. Além disso, como você pode culpar alguém, por algo que aconteceu enquanto estava inconsciente?”.

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            Quando após ser estuprada pelo mesmo garoto Hannah tenta procurar ajuda e contar sobre o que aconteceu, sente-se acuada diante de perguntas que deram a tender que talvez o garoto houvesse interpretado que ela quisesse, que ela não havia sido clara sobre não desejar fazer sexo com ele.

As questões do consentimento, do estupro e da culpabilização serão abordadas nas razões seguintes.

è Livro relacionado: Promiscuidades – a luta secreta para ser mulher, de Naomi Wolf.

10. A importância do consentimento

            O consentimento em relações sexuais refere-se à necessidade de que as pessoas que se envolvem concordem com o envolvimento a partir de uma escolha que ocorra sem pressões, sem coerções, sem nenhuma forma de violência. A escolha em envolver-se precisa ser baseada na expressão dos desejos das pessoas que se envolvem. Ou seja: consentir não é apenas não dizer não, consentir é dizer sim.

            A importância do consentimento está presente desde as primeiras aproximações: se alguém demonstra interesse por alguém, por exemplo, por meio de um comentário, há grandes diferenças entre um comentário recebido por alguém que está à vontade, que demonstra interesse recíproco, e alguém que sente-se desconfortável, que vê o comentário como invasivo, como desrespeito. Se o comentário é algo que constrange, que coage, não é uma cantada, não é uma paquera, não é um elogio: é assédio. O elemento central é o consentimento: o quanto a pessoa de quem alguém se aproxima concorda com essa aproximação. Se é preciso insistir, pressionar, coibir, não é uma relação consentida.  

            O estupro é qualquer prática sexual em que não houve consentimento, seja porque a pessoa estuprada disse não, seja porque não estavam em condições de consentir, de demonstrar o próprio desejo, a própria escolha, de dizer sim.

Por isso a problematização sobre os padrões de masculinidade e feminilidade é tão importante: ensinar as garotas e mulheres que expressar os próprios desejos é correr o risco de julgamentos negativos e ensinar os garotos e homens que impor os próprios desejos é sinal de virilidade faz com que a necessidade de que as relações sejam consentidas seja comprometida, com uma tendência à naturalização de relações violentas.

è Texto relacionado: Consentimento – no carnaval e sempre, da Revista Capitolina.

11. A importância da problematização sobre a culpabilização de mulheres que sofrem violências

            Algo que dificulta a busca por ajuda diante de uma situação de violência é o medo de ser desacreditada, de ser alvo de desconfiança, como se coubesse à pessoa que sofreu a violência ter feito algo para evitar, para impedir a violência sofrida. Em caso de mulheres que foram estupradas, perguntas sobre que roupa estava vestindo, sobre os motivos para estar no lugar, sobre ter ou não bebido, entre outras, deslocam a atenção para o que deve ser o foco principal: a violência cometida. A ameaça de que, se a pessoa contar, ninguém ouvirá, ninguém acreditará, é algo frequente por parte de agressores, tanto de adolescentes e pessoas adultas, quanto de crianças. Silenciar sobre a violência sofrida é algo muito frequente, porque o sofrimento decorrente de ser desacreditada, de ser culpabilizada, é algo que potencializa a vulnerabilidade e torna ainda mais intenso o sofrimento de ter sido agredida. Nesse sentido, escutar com atenção, sensibilidade e cuidado é algo fundamental diante do compromisso de prevenção e enfrentamento às situações de violência.

è Livro relacionado: Referências técnicas para a atuação de psicólogos(as) em programas de atenção à mulher em situação de violência, do Conselho Federal de Psicologia.

12. A influência dos meios de comunicação no aprendizado sobre sexualidade e gênero

            Na realização de projetos sobre sexualidade e gênero, conhecer sobre os materiais que os(as) participantes têm contato, como programas de televisão, revistas, jornais, sites, filmes, músicas e seriados é uma oportunidade de identificar sobre representações sobre sexualidade e gênero que podem ser discutidas e refletidas em conjunto. Partir da análise de materiais midiáticos para a problematização sobre determinados temas, como a associação entre masculinidade e violência e a associação entre feminilidade e submissão, a naturalização de relações violentas, a objetificação dos corpos das mulheres, a difusão de estereótipos e preconceitos, entre outras, é uma forma de discutir elementos que estão presentes não só nos meios de comunicação, mas também nas relações cotidianas como um todo. 

Além dos exercícios de problematização, os materiais podem ser uma fonte interessante para o reconhecimento sobre quais temas são significativos para um determinado grupo, considerando como a mídia tem influências na construção da compreensão sobre as mais variadas questões. A própria série “Thirteen reasons why” é um exemplo de como uma material midiático pode indicar questões que podem ser melhor elaboradas se forem promovidos diálogos sobre os conteúdos assistidos.

è Artigo relacionado: Gênero e sexualidade: pedagogias contemporâneas, de Guacira Lopes Louro.

13. A importância de falar sobre

            Sexualidade e gênero são temas presentes na vida de todas as pessoas, relacionados a como se sentem, a como pensam, sentam, desejam, a como agem e escolhem, aos vínculos, às construções subjetivas. Sexualidade e gênero são também temas presentes em diferentes formas de preconceitos, discriminações e violência. Quando as questões sobre sexualidade e gênero são silenciadas, com argumentos de que é necessário “proteger” crianças e adolescentes do assunto, ou que a discussão aberta seria uma forma de “incitar”, torna-se importante reconhecermos a possibilidade de dialogar como um direito, um direito a receber informações e esclarecimentos, um direito à desmistificar concepções e crenças distorcidas, um direito a conhecer sobre os próprios direitos para que as escolhas possam acontecer a partir de uma compreensão mais ampla, com condições de maior autonomia. Calar, conter, evitar, não são formas de proteção, mas aumentam a vulnerabilidade e dificultam que pessoas que precisam possam buscar ajuda.  

è Livro relacionado: Gênero, sexualidade e educação, de Guacira Lopes Louro. 

Foi a importância do diálogo que motivou a escrita dessas treze razões, assim como a compreensão sobre a escola e outros espaços educativos como contextos propícios para que o diálogo possa acontecer. Gostaria de finalizar agradecendo ao grupo de estágio em Educação Sexual (Amanda, Ana Elisa, Bárbara, Bino, Lauren, Luísa, Maria Carolina, Marina, Natália e Paloma) por terem trazido a questão da grande repercussão do seriado entre adolescentes e da importância do diálogo sobre os temas presentes nos episódios.