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“Ninguém pode ouvir você!” – Sobre a importância da escuta em situações de violência

Amarrada a um carro pelo ex-marido, L. foi arrastada pelo asfalto. Com as feridas abertas, não conseguia responder nada às pessoas que lhe faziam tantas perguntas sobre o que tinha acontecido. “Como foi?”, “Está doendo?”, “Por que ele fez isso?”, “Como ele foi capaz de fazer algo tão horrível?” – questionavam, enquanto L. apenas olhava, praticamente imóvel.

Com os principais curativos feitos, foi pedido a uma psicóloga que conversasse com L. e a convencesse a ir até a delegacia fazer um boletim de ocorrência. As duas foram deixadas a sós, a pedido da psicóloga, que ao vê-la sentada com o corpo todo encolhido, retraindo-se como quem busca desaparecer, disse: “Você pode conversar comigo sobre o que quiser. O que você quiser dizer, eu estarei aqui para te escutar. O que você desejar contar, estarei aqui. Se não quiser dizer nada, você não precisa dizer. Se não quiser dizer nada, também estarei aqui”. Ficaram juntas por horas, em silêncio.

Se não fossem as marcas do esfolamento explícitas pelo corpo, L. teria escolhido não dizer nada a ninguém. Gostaria de ter ido deitar-se, como se nada tivesse acontecido. Gostaria de fechar os olhos, ainda que não conseguisse dormir, ainda que não conseguisse esquecer o quanto doeu. Preferiria imaginar que, quando os abrisse, quando sentisse forças para olhar ao redor e levantar, tudo estaria como antes. Ninguém havia presenciado, foi de madrugada. Se não fossem as marcas do esfolamento explícitas pelo corpo, ela poderia esquecer. Ou agir como quem esqueceu.

Nada lhe parecia mais assustador do que falar sobre aquelas feridas. Nada lhe parecia mais angustiante do que ver-se na delegacia precisando narrar em detalhes, ouvindo o barulho das teclas pressionadas pela escrivã, ouvindo barulhos de flashes enquanto assistia várias partes de seu corpo sendo fotografadas para serem registradas como evidências. Nada lhe apavorava mais do que a ideia de “evidências”. Tudo o que ela desejava era que não houvesse “evidências”.

Seguia tentando agarrar-se à ideia de que, com o tempo, poderia apagar as marcas da pele, as marcas da memória, as marcas do desejo de que nada tivesse acontecido, as marcas do sonho de viver com tranquilidade, sonho que foi aniquilado. Mais do que seu corpo, que parecia não lhe pertencer mais, ela sentia que era a sua vida que não mais lhe pertencia.

Não havia o que dizer, não havia o que denunciar: se não havia mais corpo e não havia mais vida, não havia mais voz. Foi preciso muito tempo para que L. conseguisse pronunciar, entre soluços, essa sensação de aniquilamento. Será preciso ainda muito mais tempo para a busca por construir, com cuidado, alguma confiança de que um dia essa sensação poderá mudar. Construir a confiança de que sua voz pode ser retomada sim, assim como o corpo, assim como a vida. Para isso, a força da voz, que foi tão abafada, precisa ser ouvida.


Quando ouço ou leio relatos sobre quão difícil foi para alguém submeter-se a exames e interrogatórios para comprovar uma agressão sofrida, sinto uma forte angústia com o despreparo de muitos(as) profissionais que, conscientes ou não dos efeitos devastadores que determinados comentários e posturas podem ter, acabam por tornar a busca por ajuda diante de situações de violência marcada pelo temor da possibilidade de mais sofrimentos, de mais violências.

Desde aspectos que podem parecer superficialmente apenas detalhes, como a pressa por cumprir procedimentos. Para alguém que foi agredida, não é nada automático encontrar palavras breves, coerentes e objetivas, por mais que sejam essas as exigências (incompatíveis e negligentes à dor) para o preenchimento dos boletins de ocorrência. Não são raros comentários e perguntas que sugerem que a pessoa agredida poderia ou deveria ter evitado a agressão: “Por que você foi até lá?”, “Por que você não foi embora?”, “Você não pensou em gritar, em se defender”. Há inclusive acusações explícitas, posturas de condenação, de culpabilização das vítimas, que de tão frequentes tornam-se um dos principais motivos para que quem pensa em buscar ajuda desista, imaginando que, ao invés de proteção, encontrará mais descrédito e desqualificação.

Como trabalho com a formação de profissionais em Psicologia, busco sempre transmitir a importância da escuta atenta, sensível, confidencial.

Escutar pode parecer pouco. Pode parecer que o certo seria oferecer consolos, que o certo seria apresentar conselhos, que o certo seria construir explicações, que o certo seria propor soluções para que o sofrimento não se repita. Pode parecer que o que nós, profissionais da Psicologia, deveríamos fazer, seria entregar uma fórmula mágica que impeça a violência de acontecer. Não, não há fórmulas mágicas. Não há fórmulas mágicas e agir como se houvesse é uma forma de silenciar quem sofre, de passar por cima de um sofrimento que já é em si tão esmagador. Repito: não há consolos, conselhos, explicações, soluções, fórmulas mágicas a serem distribuídas. Escutar não é pouco.

Diante da singularidade de cada dor vivida, é urgente o reconhecimento de que quem vive aquela dor é sujeito da própria história, é sujeito da própria voz. A escuta atenta, sensível e confidencial não é apenas nosso principal recurso de trabalho, mas também nosso importante compromisso ético.


O trecho a seguir é parte do relato de Danielle Campoamor sobre como foi o processo de denunciar a violência sexual que sofreu. O texto foi traduzido pelo site Blogueiras Feministas com o título Como a polícia e os hospitais silenciam as vítimas de estupro.

Quando o policial estava de pé na minha frente, com um bloco de papel em uma das mãos e uma caneta gasta na outra, e me perguntou se eu queria prestar queixa, fiz uma pausa. As lágrimas escorriam pelo meu rosto, minhas pernas não paravam de tremer (...). O policial já havia me perguntado quantas bebidas eu tinha consumido. Na verdade, ele me fez essa mesma pergunta em três ocasiões distintas. Ele já havia me perguntado o que eu poderia ter dito ou demonstrado erroneamente, antes de ser violentada em uma cama. (....). Eu só queria que tudo aquilo acabasse.

No Brasil, a cada 11 minutos um estupro é notificado. A estimativa é de que apenas 10% das ocorrências chegam até as delegacias, de forma que o número geral seria de aproximadamente um estupro por minuto. Nos casos de violência sexual, assim como nos casos de violência física contra mulheres, os principais agressores, em cerca de 70% dos casos, não são desconhecidos, mas principalmente familiares (como pais e padrastos, em 24,1% dos casos) ou outras pessoas conhecidas pela vítima, como amigos. O fator de serem predominantemente pessoas próximas é agravante para o silenciamento. 50% das mulheres que sofreram violência entrevistadas na pesquisa “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado” relataram que não buscaram ajuda nem contaram para ninguém sobre as agressões sofridas.

- Quando você chegou na sua casa, você não pensou em contar para ninguém?

- Não.

- Não?

- Não.

- Por quê?

- Por vergonha.

- Você não ia nem denunciar?

- Não.

O diálogo apresentado é parte de uma entrevista com a adolescente que foi vítima de um estupro coletivo no Rio de Janeiro. A denúncia foi feita por mulheres de todo o país quando viram o vídeo que circulou nas redes sociais com as cenas do estupro. Na entrevista ela conta como não pensava em denunciar, não pensava em contar para ninguém. Conta que como desde a denúncia tem recebido ataques, julgamentos, humilhações, ofensas, tem sofrido ameaças e vivido em cárcere privado, com medo de sair de casa. Relata também sobre como se sentiu desrespeitada na delegacia, como quando o delegado perguntou se ela tinha o costume de fazer sexo em grupo, se gostava. O delegado foi afastado do caso à pedido da advogada da vítima.

“Eu pedi para ele parar, no depoimento. Tinham três homens dentro da sala. A sala era de vidro, todo mundo que passava via. Ele botou assim na mesa as fotos, assim, e o vídeo, assim, expôs e falou ‘ah, me conta aí’. Só falou isso. Não perguntou se eu tava bem, se eu tinha proteção, como é que eu tava, como é que eu tava me sentindo, só falou ‘me conta aí’.”

“Me conta aí” é um exemplo sobre a ausência de reconhecimento diante da dor sofrida, sobre o desrespeito frequente em investigações de situações de violência. São muitos os relatos sobre reações de desqualificação, de descrédito e de culpabilização quando alguém reúne forças para denunciar uma violência que viveu. É algo que precisa ser mudado, urgentemente.


As marcas da violência não são todas explícitas. Mesmo quando as feridas estão em carne viva, o que dói e pode ser visto e fotografado é apenas uma parte: há muito que dói e não pode ser visto, há muito que dói e é muito difícil de ser dito.

Culpa, vergonha, impotência, medo e mesmo ódio de si mesma(o) podem ser sensações fortes para quem sofreu violência. Não é simples elaborar o que aconteceu, não é simples falar sobre o que aconteceu, não é nada simples o processo de compreensão de que quem foi agredida(o) não se reduz nem se define à violência sofrida.

A escuta requer tempo, a escuta requer cuidado. É necessário insistirmos na importância da escuta. É necessário insistirmos na força que cada voz pode ter.

A importância da voz, a importância de expressar-se, a importância de ser reconhecida e respeitada na expressão da dor vivida para que essa dor possa ser elaborada e superada são elementos centrais em uma cultura na qual o silenciamento é tão frequente e a violência é tão naturalizada.

A força de cada voz, a força de expressar-se e a força de reunir vozes para a conscientização e o enfrentamento às violências são as motivações para a realização do Projeto Unbreakable, projeto que teve início em 2011 com a proposta da fotógrafa Grace Brown de registrar em imagens o sofrimento a ser elaborado, superado e combatido. Ao carregarem cartazes com frases que ouviram de seus agressores, as mulheres tornam visível o que é tão ocultado, dão voz o que é tão silenciado, evidenciam o quanto as marcas não explícitas da violência precisam ser reconhecidas para serem enfrentadas. As traduções serão apresentadas na mesma sequência das imagens, nos parágrafos abaixo.

ninguem pode 1

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“Ninguém pode ouvir você”. “Cale a boca, você não é nada”. “Os seus nãos não significam nada para mim”. “Ninguém vai acreditar em você”.

“Pare de mentir. Eu sei que é isso o que você quer”. “Vamos, você sabe que você quer. Eu consigo perceber”. “É uma graça como você resiste assim, agindo como se você não quisesse”. “Eu sei que você quer isso”.

“Você sabe que você quer isso, então pare de lutar”. “Por que você ainda está lutando?”. “Por que você está chorando? Vai acabar logo...”. “Não vai doer se você apenas relaxar”.

“Apenas relaxe”. “Você quer fazer sexo. Não, você quer fazer sexo”. “Nós podemos fazer isso do jeito fácil ou do jeito difícil”. “Não me faça fazer isso doer”.

“Eu não queria parar. Eu pensei que, se eu continuasse, você mudaria de ideia”. “Você parou de lutar contra mim e você não estava sangrando. Acho que você gosta disso”. “Eu pensei que você estava gritando porque você gostou”. “Eu pensei que você estava tentando ser sexy”.

“Você disse não, mas seu corpo me disse que sim”. “Não é minha culpa você não ter gostado”. “Você estava pedindo por isso”. “Você não pode beber com alguém e esperar que isso não aconteça”.

“Cale a boca e aproveita como a vadia estúpida e bêbada que você é. Você tem sorte de estar aqui comigo”. “Você é muito bonita para ser lésbica”. “Eu não me casei para aprender a me masturbar”. “Obrigado por me fazer me sentir como um homem”.

As frases da última sequência foram ditas por policiais e por um segurança do campus: “O que você estava vestindo? Por que você não lutou para ele se afastar ou gritou? Você geralmente traz garotos para casa?”. “Você não precisa beber para se divertir”. “Você realmente quer arruinar a vida dele por causa disso?”.


“Mas você o convidou para entrar, como isso pode ser culpa dele?”. A frase do último cartaz foi dita por um(a) terapeuta, quando a mulher que segura o cartaz contou para alguém pela primeira vez. Pensei na proposta deste texto quando vi essa imagem, desejando ser possível que ela nunca se repita.

Sim, você pode ser ouvida. Sim, irão acreditar em você. Sim, ser ouvida e reconhecida é um direito!

Com a força das vozes das mulheres do projeto e a importância da proposta de unir forças contra a violência que ele representa, escolho, como psicóloga, concluir repetindo o trecho que escrevi anteriormente:

Diante da singularidade de cada dor vivida, é urgente o reconhecimento de que quem vive aquela dor é sujeito da própria história, é sujeito da própria voz. A escuta atenta, sensível e confidencial não é apenas nosso principal recurso de trabalho, mas também nosso importante compromisso ético.

 


marcela pastanaMarcela Pastana é psicóloga e mestre em Educação Escolar pela UNESP. Professora do curso de psicologia do IMES-São Manuel. Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisa em Sexualidade, Educação e Cultura- GEPESEC e coordenadora do Grupo de Discussões sobre Sexualidade e Mídia. Coordenadora do Núcleo de Sexualidade e Gênero do CRP/SP - subsede Bauru.
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