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Que educação queremos?

Quando nos envolvemos na busca por transformação, um dos grandes desafios é a construção de espaços. Espaços de diálogo, espaços de reflexão, espaços de questionamento, espaços de encontro. Trabalhando com os temas sexualidade e gênero, aprendi a pensar a escola como um espaço fértil: é lá que crianças, adolescentes, professores(as), funcionários(as) passam grande parte do tempo, convivem, formam vínculos e constroem aprendizados significativos. Falar sobre sexualidade e gênero no espaço da escola é buscar quebrar silenciamentos e tabus em torno de temas que, apesar de sempre presentes, nas relações e nas construções das subjetividades, são muito evitados e recobertos por preconceitos, repressões, padrões normativos e concepções distorcidas.

Apostar no espaço da escola implica também perceber suas limitações: em primeiro lugar, reconhecer como muitas experiências de violência e discriminação acontecem no próprio contexto escolar. Assim, para que a escola possa contribuir para romper com opressões e desigualdades é preciso, antes, compreender como as relações dentro da escola são atravessadas por essas opressões e desigualdades fora dela.

Em segundo lugar, como ainda predomina um modelo de que haveria conhecimentos e verdades prontas, a serem transmitidos de forma cristalizada, a busca por construir um espaço de diálogo esbarra na sensação que muitas pessoas têm de que sua voz não importa, de que o que vivem e como significam o que vivem não faz diferença. Haveria o “certo” e o “errado”, a serem verificados em avaliações, sem que a construção da compreensão sobre o mundo (sempre em movimento e mudança) seja vista como um processo ativo, que ganha vida quando todos(as) participam e compartilham diferentes olhares. Essa ideia do “correto” a ser transmitido unilateralmente é bastante restritiva quando a proposta é falar sobre gênero e sexualidade.

Como terceiro ponto, bastante relacionado aos dois primeiros, entra a sensação de fatalismo, a naturalização tão forte em concepções muito frequentes como: “é assim que as coisas são”; “sempre foi assim e sempre vai ser”; “de que adianta tentar mudar, o que fazemos e o que queremos não faz diferença”. Diante de desigualdades e violências, a afirmação de que “não há nada a fazer” muitas vezes se sobressai, como se nos conformarmos e nos adaptarmos fosse a saída mais viável, ou mesmo a única possível.

Pensando sobre como, para quem trabalha com educação de uma forma geral, a desvalorização da voz, da expressividade e também o fatalismo, a sensação persistente de que “não há nada a fazer” são grandes desafios, imagino como o processo que vivemos nos últimos dias em nossas escolas em São Paulo significa muito mais do que somos capazes de compreender agora. A força com que tantos(as) estudantes e apoiadores(as) se mobilizaram em ocupações e outros movimentos de protesto para defender o espaço da escola e a possibilidade de transformar as relações desiguais que o atravessam é de uma vitalidade e uma intensidade emocionantes.

Absurdos imensos como a grave violação de direitos com a violenta repressão policial das manifestações e a postura de descaso e mesmo ironia com que as reivindicações foram recebidas, como na frase do governador de que “ninguém é de ferro” para duvidar que as ocupações durariam mais do que o fim de semana, ao invés de reforçarem o fatalismo, aumentaram a convicção sobre quanto essas e muito mais mobilizações são necessárias: precisamos unir nossas forças, já que, mais do que a importante conquista da suspensão do fechamento das escolas que eufemisticamente foi chamado de “reorganização”, o que se explicita é a possibilidade de nos perguntarmos: “Que educação queremos?”, apostando na possibilidade de transformação. Nas palavras de Eliane Brum:

“É uma enormidade o que os estudantes paulistas deram ao país neste mês de resistência (...). Organizaram-se, ocuparam 196 escolas, responsabilizaram-se por elas –consertando, limpando e cuidando– e impediram que, num país e num estado em que a péssima educação pública escava um abismo, mais de 90 escolas fossem fechadas por decreto. Foram reprimidos violentamente por isso. Muitos apanharam, dezenas foram detidos, centenas sofreram as consequências das bombas de gás. Mas resistiram. E venceram. E, como o que venceu foi a política contra o autoritarismo da verdade única e da força bruta da PM, vencemos todos”.

Em uma breve digressão, lembro da sensação de fatalismo que nós, do Núcleo de Sexualidade e Gênero do Conselho Regional de Psicologia de Bauru, sentimos quando nos vimos, pela primeira vez, diante dos discursos que alegavam que nosso trabalho seria a difusão de uma “Ideologia de gênero”, para destruir identidades, famílias e a sociedade. A sensação de que não havia muito a ser feito só aumentava, a cada vez que a pressão dos(as) defensores(as) da existência dessa ideologia conseguia coisas como retirar a palavra gênero dos Planos de Educação. Reconhecendo a importância de dialogarmos, propomos um curso sobre Enfrentamento aos Preconceitos na Escola, que teve como participantes professoras e gestoras da rede municipal. Ontem, no último encontro do curso, foi marcante na fala das participantes a aposta nas possibilidades de transformação. O professor Afonso Mesquita, um dos meus amigos responsáveis pelo curso disse: “Quantas vezes temos a sensação de que nosso trabalho é de formiguinha, que não conseguiremos fazer muito, que não conseguiremos chegar muito longe... Até que unimos nossos trabalhos de formiguinha e conhecemos a força de um formigueiro”.

Pois é, pensando na potência de um formigueiro, fazendo uma retrospectiva sobre 2015, pensando nas ocupações e protestos contra o fechamento das escolas em São Paulo, pensando no quanto os debates sobre gênero ganharam força em resposta às acusações de supostamente seriam uma “ideologia”, pensando, feliz, que gênero inclusive foi um dos temas que vi com frequência nos cartazes das programações nas ocupações das escolas, lado a lado com temas como política, cultura, diversidade, entre outros relacionados à busca por refletir sobre as relações e potencializá-las... Pensando em tudo isso sinto a força de apostarmos na pergunta “Que educação queremos?”, apostando, também, na criatividade para que as relações que desejamos possam ser construídas e sempre revitalizadas.

 


marcela pastanaMarcela Pastana é psicóloga e mestre em Educação Escolar pela UNESP. Professora do curso de psicologia do IMES-São Manuel. Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisa em Sexualidade, Educação e Cultura- GEPESEC e coordenadora do Grupo de Discussões sobre Sexualidade e Mídia. Coordenadora do Núcleo de Sexualidade e Gênero do CRP/SP - subsede Bauru.
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