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"Ideologia?!" — Materiais para o diálogo sobre gênero

Nos últimos meses, o tema gênero recebeu muita atenção. Infelizmente, grande parte dessa atenção não foi voltada ao combate às desigualdades, objetivo historicamente relacionado ao uso do conceito de gênero. A inserção das questões de gênero no contexto escolar, tão necessária para a promoção de direitos e para a compreensão de que as expressões das feminilidades, das masculinidades e das relações são múltiplas e culturalmente construídas, tem sido tema de uma série de embates políticos. O elemento disparador desses embates é a exigência da retirada do conceito de gênero dos Planos de Educação de diferentes estados e municípios. A nota publicada pelo Ministério da Educação e o ofício enviado pelo Conselho Regional de Psicologia de São Paulo à Câmara dos Vereadores são dois materiais que recomendo para quem deseja conhecer melhor sobre as questões presentes no debate atual e sobre a importância do conceito de gênero para as práticas educativas.

ideologia 1Fonte: https://www.facebook.com/crpsp

O principal argumento dos grupos contrários é que dialogar sobre gênero representaria a imposição de uma “ideologia” destinada à destruição das identidades “naturais” de crianças e adolescentes e ao fim da chamada “família natural”. Por atuar, hoje, na área da educação, buscando promover o diálogo sobre sexualidade e gênero, minha reação inicial diante das mobilizações contra o que passou a ser chamado, distorcidamente, de “ideologia de gênero”, foi de intenso desânimo e preocupação. Cotidianamente, na minha atuação como psicóloga, me deparo com o sofrimento provocado por inúmeras formas violências, discriminações e exclusões que são praticadas justamente em nome de uma suposta “naturalidade”. É por me confrontar continuamente com a importância de problematizar essa ideia de “naturalidade”, ou seja, de desestabilizar ideologias, que aposto tanto no desafio de buscar construir relações diferentes, pautadas no respeito, no reconhecimento e na valorização das diferenças.

Com o tempo, o desânimo inicial passou a dar lugar para uma grande disposição: percebi que, ao invés de silenciar as vozes que lutam contra o preconceito e a violência, esses embates políticos contribuíram para que muitas pessoas interessadas na valorização da multiplicidade de expressões se organizassem buscando pensar em ações de maior alcance. Um exemplo é o projeto Nós Precisamos do Debate de Gênero nas Escolas, que reúne imagens em que cada pessoa apresenta uma frase referente a uma discriminação sofrida, com o objetivo de evidenciar o quando dialogar sobre gênero é fundamental. O projeto é uma iniciativa do Coletivo LGBT Cores, de Campinas.

Diferentes pessoas que trabalham com educação têm me procurado, pedindo sugestões de atividades que possam contribuir para o reconhecimento das diferenças como positivas e para a desconstrução de preconceitos e desigualdades. Com base nessas conversas tive a ideia de organizar a lista a seguir, com algumas questões que podem ser abordadas e alguns materiais que podem ser utilizados, principalmente com adolescentes e educadores(as), nesta estimulante busca por um diálogo aberto e construtivo sobre sexualidade e gênero:

  • ideologia 2Com o que sonhamos? Quem desejamos ser, quem desejamos nos tornar? O que acreditamos sermos capazes de conseguir? Que possibilidades imaginamos para nossos futuros? Falar sobre gênero significa também falar sobre sonhos, sobre desejos, sobre planos, significa problematizar a concepção de que a divisão culturalmente estabelecida entre feminilidade e masculinidade que delimitaria até onde podemos ir, como podemos ou não podemos agir, quem podemos ou não podemos ser. No vídeo “Era uma vez outra Maria”, produzido pelo Instituo Promundo, pela ong ECOS (Comunicação em Sexualidade) e pelo Instituto Papai, essas questões são abordadas de forma abrangente, em uma animação que ilustra como os padrões de feminilidade e masculinidade estão presentes nos mais diversos aspectos de nossas vidas: nas brincadeiras infantis; na divisão das tarefas domésticas; nos comportamentos tidos como socialmente aceitos e esperados; no aprendizado sobre a sexualidade e sobre o prazer; no aprendizado sobre o amor e os relacionamentos; na maior responsabilização feminina pela gravidez e pelo cuidado com filhos e filhas; nas incidências de violência física, psicológica e sexual contra meninas e mulheres que ainda acontecem com tanta frequência. O guia de discussão sobre o vídeo também está disponível para quem desejar utilizar o vídeo em contextos educativos.

  • É natural que homens sejam agressivos? É natural que mulheres sejam submissas? É natural que as relações entre homens e mulheres envolvam violência? Com o lema: “o machismo é um mal que se aprende” a campanha promovida pelo governo federal equatoriano “Reacciona Ecuador” busca problematizar naturalizações, em uma série de vídeos que abordam como, para enfrentarmos a violência de gênero, um passo muito importante é refletirmos sobre como relações de dominação e submissão são aceitas e mesmo incentivadas culturalmente. Por exemplo, neste vídeo o foco é o aprendizado sobre a feminilidade e a masculinidade que acontece deste a infância, enquanto, neste, que apresenta uma visita escolar a um museu no futuro, a principal mensagem transmitida é que os padrões que geram violência não são naturais, por isso podem e precisam ser transformados.

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  • É possível transformar? Como buscar superar relações com tantas formas de violência, preconceito e discriminação? A campanha internacional “It gets better” promove a divulgação de relatos sobre o intenso sofrimento provocado pela humilhações, ofensas, agressões e exclusões contra aqueles e aquelas que não correspondem aos padrões de feminilidade, masculinidade e heterossexualidade vigentes. Muitos exemplos sobre violências sofridas referem-se ao contexto escolar, o que evidencia a importância do combate aos preconceitos nas escolas. Uma das questões abordadas é como, com frequência, as pesideologia 4soas agredidas desde a infância acabam acreditando que merecem ser infelizes, culpabilizam-se por não corresponderem ao que é socialmente aceito e valorizado e cobram-se para se aproximarem dos modelos normativos impostos. As experiências narradas, como neste vídeo, produzido pela Pixar, referem-se ao processo de descoberta de que pode ser muito melhor (“it gets better”), que as diferenças, ao invés de gerarem desigualdades, podem ser reconhecidas, valorizadas, compreendidas como fontes de inspiração para a construção de formas de vida mais abertas, mais sensíveis, mais criativas, relacionadas ao prazer de vivermos de acordo com quem somos e com o que desejamos, com o fortalecimento de vínculos que potencializem a busca por vidas mais inventivas contra os engessamentos gerados pelas discriminações.
  • Como abordar as diferenças a partir do enfrentamento às desigualdades e da valorização da multiplicidade? Um caminho interessante é partir de experiências vividas e do diálogo sobre como, ao invés de discriminações, as diferenças podem ser fonte de reconhecimento, de aprendizados e de fortalecimento das relações. As ilustrações de Carol Rosseti são um excelente ponto de partida para a promoção desse diálogo. As formas de discriminação relacionadas aos padrões de gênero, à orientação sexual, à classe social, ao racismo, aos padrões estéticos, às deficiências, entre outros marcadores, são combatidas com a valorização da voz e da singularidade das mulheres retratadas e do incentivo ao processo de ressignificação.

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  • A questão da valorização das múltiplas experiências e do combate aos preconceitos também está presente no filme nacional dirigido por Daniel Ribeiro “Hoje eu quero voltar sozinho”, que, a partir da história de Leonardo, um adolescente com deficiência visual, aborda questões como as experimentações e descobertas da adolescência, a busca por independência, a construção de projetos de vida, as amizades, as paixões, os encontros e desencontros amorosos, o reconhecimento e a experiência do desejo entre garotos, a homofobia, as práticas constantes de discriminação no contexto escolar e a busca pelo enfrentamento aos preconceitos. O curta “Eu não quero voltar sozinho” é também muito interessante para o diálogo sobre sexualidade e gênero.

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Para concluir, gostaria de destacar que o que buscamos, nas atividades que desenvolvemos, é justamente desconstruir concepções que transmitem determinados padrões que geram discriminação e violência como naturais e impossíveis de serem mudados, ou seja, concepções ideológicas. Buscar promover a igualdade de direitos e a valorização das múltiplas expressões de sexualidade e gênero não é um movimento ideológico, mas sim, uma tarefa importante para o questionamento e a problematização das ideologias. Dialogar sobre gênero e sexualidade em contextos educativos significa uma aposta na promoção de espaços nos quais diferentes experiências possam ser expressas, perspectivas diversas possam ser compartilhadas, ideias possam ser trocadas e desenvolvidas, dúvidas possam ser esclarecidas e formas criativas de abordar temas tão presentes em nossas vidas possam ser construídas, potencializando nosso desejo de transformação e de fortalecimento de relações pautadas no reconhecimento e na reciprocidade. Por isso, retomo o lema da campanha que motivou a escrita deste texto: Nós precisamos do debate de gênero nas escolas!

 


marcela pastanaMarcela Pastana é psicóloga e mestre em Educação Escolar pela UNESP. Professora do curso de psicologia do IMES-São Manuel. Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisa em Sexualidade, Educação e Cultura- GEPESEC e coordenadora do Grupo de Discussões sobre Sexualidade e Mídia. Coordenadora do Núcleo de Sexualidade e Gênero do CRP/SP - subsede Bauru.
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