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"Liberdade sexual!?" — Materiais para diálogo sobre sexualidade e gênero

Sexo, nudez, excitação, prazer: temas que historicamente foram cercados por muitas proibições e tabus, são hoje muito expostos e acessíveis. Basta uma rápida troca de canais, digitar algumas palavras em um site de busca ou mesmo caminhar nas ruas e notar o que está estampado nas capas em uma banca de revistas ou exibido em um outdoor. O corpo e a sexualidade recebem bastante visibilidade, o que é constantemente associado a uma maior liberdade. Será?

Assim como no texto “Ideologia!?”, da coluna do mês passado, o objetivo deste texto é recomendar temas e materiais que possam ser abordados em contextos educativos. Escolhi a questão da “liberdade sexual!?” por perceber que, diante dos muitos estímulos e conteúdos sobre sexualidade que chegam às crianças e jovens atualmente, é muito comum a impressão de que não haveria mais dúvidas, inibições, proibições, tabus... “Hoje tudo é explícito, escancarado!”, ouço com frequência. “As crianças e adolescentes já chegam à escola sabendo de tudo! Sabendo até demais!”, é uma concepção também difundida. Entretanto, é preciso considerarmos como a maior exposição não corresponde, diretamente, ao diálogo mais aberto e a uma compreensão mais abrangente sobre sexualidade. Ao contrário, o constrangimento, as resistências e o silenciamento são ainda predominantes em diferentes contextos, como nas relações familiares e escolares. Desde cedo as crianças aprendem que perguntas sobre o corpo e sobre sexo geram mais embaraço e repreensão do que respostas. Na adolescência, os desconfortos e esquivas também são constantes. Mesmo com a difundida imagem de que “sabem tudo”, garotos e garotas pouco encontram espaços nos quais possam falar com quem confiam e se sentem à vontade, sem medo de julgamentos sobre suas curiosidades, ansiedades, inseguranças e descobertas.

Um movimento importante é reconhecermos como a ausência de diálogo reflete aspectos bastante repressivos do modo como a sexualidade é compreendida e experienciada hoje. Apesar de algumas proibições e interdições terem diminuído, ou mesmo sido invertidas (por exemplo, ao invés do impedimento de viver as primeiras experiências sexuais, garotos e garotas na adolescência relatam sentirem-se pressionados a iniciar o mais cedo possível e com uma intensa variedade de descobertas e prazeres), o modo como a sexualidade é predominante representada atualmente não corresponde, necessariamente, a uma maior “liberdade”. Podemos chamar esse movimento de “repressão às avessas!”: ao invés do “não faça!”, a sexualidade é enunciada muitas vezes pelo “faça!”, com uma série de incitações e prescrições que, pouco refletidas, pesam como imposições: “Seduza!”; “Tenha um corpo perfeito!”; “Viva uma primeira vez inesquecível!”, “Saiba como enlouquecer alguém na cama!”; “Vibre de tesão!”; “Aproveite intensamente!”, “Sinta prazer!”. Tais injunções, expressas como imperativos, não deixam espaço para que os desejos e experiências possam ser compreendidos como múltiplos, singulares e complexos. Ao contrário, é como se os modelos idealizados e padronizados de prazer fossem os únicos a serem seguidos, e, quando não se consegue alcançá-los, seria por alguma inibição ou falha individual. Afinal, o sexo hoje é livre!

O diálogo sobre os padrões presentes na forma como aprendemos sobre sexualidade e gênero pode contribuir para que os aspectos repressivos sejam identificados e problematizados, em busca de uma compreensão mais ampla e reflexiva sobre os desejos, os relacionamentos, os prazeres.  Os materiais indicados a seguir abordam de formas muito interessantes alguns desses padrões:

A maior exposição de conteúdos sobre sexo e sobre o corpo é atravessada pela centralidade dada a imagens do corpo feminino. Para além da aparente liberdade difundida com a associação entre beleza, sensualidade e prazer, é preciso problematizarmos sobre como muitos padrões rígidos e inalcançáveis são alimentados, constantemente acompanhados de mensagens sobre como o mais importante, para as mulheres, é receber atenção, aprovação, admiração e desejo exclusivamente pela aparência: “é preciso ser linda para ser notada!”; “é preciso ser linda para ser amada!”; “é preciso ser linda para ter sucesso!”; “é preciso ser linda para ser feliz!”.

Muitas inseguranças, ansiedades e sensações de insuficiência são geradas por essa associação tão continuamente repetida entre beleza e feminilidade. A importância de problematizarmos essa associação é abordada no documentário americano Miss Representation, cujo título é um trocadilho, em inglês, a partir de como as representações midiáticas sobre as mulheres serem centradas na beleza (“Miss”) acaba por gerar distorções sobre como as mulheres são vistas e se veem (“misrepresentation”).

São apresentadas análises sobre a influência da mídia em questões como a saúde (por exemplo com o aumento dos distúrbios alimentares); sobre a vida profissional (com a discussão sobre a disparidade nos salários e o menor número de mulheres em cargos de poder); sobre projetos de vida (com a problematização sobre como “felicidade”, para meninas e mulheres, é continuamente vinculada a encontrar um parceiro amoroso e não a muitos outros planos possíveis) e sobre política (com o debate sobre a falta de representatividade e sobre as dificuldades das mulheres para encontrarem espaço e voz).

 

lib1Cenas do documentário 'Miss Representation'


 

O aprendizado sobre o corpo é ainda muito cercado por tabus, constrangimentos e proibições. Podemos imaginar um exemplo: se em uma escola de educação infantil uma criança for vista com o dedo no nariz, ouvirá: “tire o dedo do nariz!”. Se estiver cutucando a orelha com um objeto, ouvirá: “pare de cutucar a orelha!”. Mas, se estiver com a mão dentro da calcinha ou da cueca, há grandes chances de que a reação abrupta seja: “tire a mão daí!”, em um tom de alarde, sem haver nem mesmo a possibilidade de palavras como “pênis”, “vulva”, “vagina” ou “ânus” serem ditas.

Ansiedade, vergonha, desprezo, nojo: foi a partir da inquietação sobre a frequente associação entre esses sentimentos e o aprendizado sobre o corpo, mais especificamente sobre a vagina, que a poeta, dramaturga e ativista Eve Ensler construiu a peça de teatro Monólogos da Vagina. A peça teve como base entrevistas com mais de duzentas mulheres com diferentes histórias de vida, a partir de questões como: “Me fale sobre a sua vagina” e “Se sua vagina pudesse falar, o que diria?”. Experiências múltiplas foram relatadas pelas entrevistadas que, muitas vezes, nunca tinham tido a chance de conversar sobre o próprio corpo, a própria sexualidade, o próprio desejo, a própria intimidade. Algumas delas, inclusive, relataram ter sido a primeira vez que pronunciaram a palavra “vagina”. Muitos temas puderam ser abordados: tesão; curiosidade; orgasmos; cheiros; pêlos; escolha por depilar-se ou não; masturbação; virgindade; primeiras experiências sexuais; ansiedades; inseguranças; dúvidas; aprendizados; gravidez; parto; narrativas sobre descobertas e prazeres e também relatos sobre estupros e outras formas de violência. Um material muito interessante para pensarmos a sexualidade em suas múltiplas expressões, assim como para dialogarmos sobre como o aprendizado sobre a sexualidade é atravessada por padrões de gênero.

 

lib2Cenas da peça 'Monólogos da Vagina'


 

Frequentemente, nas discussões sobre as diferenças culturais entre os gêneros, são evocados argumentos sobre as diferenças biológicas: “Homens nascem com pênis, mulheres nascem com vagina, por isso são diferentes!”, muitas vezes naturalizando desigualdades: “é a natureza!”. Entretanto, a mesma ênfase nos conhecimentos sobre a anatomia e a fisiologia não está presente quando a questão é o aprendizado de meninas e mulheres sobre o próprio corpo, sobre a possibilidade de experimentarem e conhecerem o que lhes dá prazer. No geral, quando o tema sexo é abordado, não é mencionada a influência (ou mesmo a presença!) do clitóris como um órgão no qual a estimulação pode ser excitante e prazerosa.

No documentário Clitóris, o prazer proibido são apresentados dados históricos sobre o silenciamento em torno do desejo e do prazer sexual das mulheres, a partir de exemplos sobre a ausência de explicações sobre o clitóris em livros científicos e manuais de cursos de medicina, assim como em materiais destinados à educação sexual, com a problematização sobre como o silenciamento sobre a sexualidade feminina alcança a dimensão de como os conhecimentos sobre os corpos são produzidos e transmitidos.

Outro tema muito importante abordado pelo documentário é a invisibilização da questão da intersexualidade. Enquanto muito se diz sobre homens que nascem com pênis e mulheres que nascem com vagina para alegar que haveria uma justificativa “natural” para como a multiplicidade das identidades é reduzida a uma oposição binária, pouco é divulgado sobre os conhecimentos científicos que demonstram como os corpos não podem ser classificados apenas em machos ou fêmeas, já que há muitas variações biológicas possíveis, nos genitais, nos cromossomos, nos hormônios e em órgãos como testículos e ovários. O esforço para manter a concepção distorcida de que as pessoas, desde que nascem, seriam OU meninos OU meninas chega a tal ponto que são realizadas cirurgias em bebês e crianças sem que haja um motivo relacionado à saúde, apenas à preocupações como a de que os genitais não seriam “suficientemente” femininos OU masculinos. No documentário é trazido o depoimento de Melissa Cull, fundadora de uma rede de apoio para pessoas intersexuais e seus familiares, que passou pela cirurgia aos quatro anos:

“Foi difícil crescer sem saber o que estava acontecendo, sabendo que algo não estava certo, que eu tinha algo diferente, e eu não sabia o que era, não tinha uma resposta. Quando eu nasci, eu tinha uma genitália ambígua (...). Eles decidiram fazer a cirurgia, também para que minha família aceitasse que eu era uma menina (...). Foi algo totalmente estético. Não foi por motivos funcionais nem por necessidade médica. Antes da cirurgia, eu não sentia dor. (...) Depois, passei a sentir uma dor horrível e fiquei com muitas cicatrizes (...). Não escolhi ter meu clitóris removido. (...) Escrevemos para a comissão dos Direitos Humanos descrevendo o que consideramos uma violação: realizar uma cirurgia estética em uma criança, sem o consentimento dela, que prejudicará todos os seus relacionamentos futuros e sua visão da vida”.

 

lib3Cenas do documentário 'Clitóris, o Prazer Proibido'


 

No aprendizado sobre sexualidade e gênero que ocorre desde a infância, uma questão bem presente é a naturalização da heterossexualidade como a forma “normal”, “correta”, “saudável” e mesmo a “única” de viver a sexualidade, com a consequente estigmatização de outras possibilidades como “anormais” e “desviantes”.

O curta Love is all you need? (Amor é tudo o que você precisa?), que foi legendado em português com o título Mundo ao contrário, conta a história de Ashley, que desde pequena sofre por sentir-se diferente, por passar por contínuas situações de discriminação em ambientes como a escola e por ser pressionada pelas pessoas no geral e também por sua família por não corresponder aos padrões do que é considerado “normal” para uma garota. Ashley se culpa e se cobra muito para tentar ser como foi ensinada que deveria ser, já que se sente atraída por garotos e se apaixona por um amigo em um mundo que repete continuamente que garotas devem gostar de garotas, garotos devem gostar de garotos e destoar desse padrão é errado, nojento, imoral e deve ser mudado.

Um material muito ilustrativo para a discussão e a problematização sobre como há violência e repressão no que aprendemos a compreender como “natural”.

 

lib4Cena e cartaz de divulgação do curta 'Love is all you need'


 

  • É a sua culpa! e o aprendizado sobre a culpabilização feminina pela violência.

Assim como a naturalização da heterossexualidade, transmitida no decorrer da educação, há também o aprendizado contínuo sobre quais seriam as formas “naturais” de viver a feminilidade e a masculinidade. Segundo os padrões predominantes em nossa cultura,  os homens seriam “naturalmente” dotados de um impulso sexual sempre forte e presente, difícil de ser contido. As mulheres, “naturalmente” menos interessadas em sexo, seriam por isso as responsáveis por não “provocá-los”, controlando as próprias atitudes e inibindo as manifestações dos próprios interesses e desejos. Com a naturalização também da agressividade masculina, é construído um quadro em que, cotidianamente, meninas e mulheres sofrem muitas formas de violência sexual, como o estupro. Com frequência, ao invés de serem protegidas, acolhidas e terem seus direitos reconhecidos e defendidos, as meninas e mulheres são responsabilizadas pelas agressões sofridas, por não terem “impedido” os agressores de as atacarem ou mesmo porque teriam, de alguma forma, “provocado” a violência que sofreram. 

“Estudos científicos provam que mulheres que usam saia são a causa principal do estupro. Afinal, os homens têm olhos!”, afirma o vídeo indiano It’s your fault! (É a sua culpa!), com a utilização da ironia como recurso para problematizar a naturalização da violência. O vídeo foi produzido como reação a como uma série de estupros que aconteceram na Índia foi interpretada como consequência por como as mulheres se vestem, por não tomarem cuidado com horários e locais para onde saem, por consumirem álcool, entre outros motivos que ignoram que as mulheres são também sujeitos de direitos com desejos próprios e não objetos que existem apenas para os desejos e para a satisfação masculina.

Poderíamos falar sobre “liberdade sexual” enquanto a violência é ainda tão naturalizada e legitimada? Há muito ainda a ser desconstruído e refletido em relação aos padrões de sexualidade e gênero.

 

lib5Cenas do vídeo 'It’s your fault'

Na busca por construirmos novos significados para “liberdade sexual”, podemos começar reconhecendo como visibilidade, apenas, é muito pouco. É necessária a indagação contínua sobre que padrões são transmitidos no que é tornado visível, assim como a problematização sobre o que é ainda invisibilizado e silenciado. Preconceitos, estigmatizações e violências precisam ser discutidos e enfrentados, com o reconhecimento de que as experiências são múltiplas, não podendo ser reduzidas a padrões. Para isso, a promoção de espaços de diálogo é muito importante.

Para concluir, gostaria de indicar o vídeo “A Vovozinha e o Feminismo”, que, a partir do relato de feministas brasileiras, conta sobre a força das mobilizações, reivindicações e conquistas feministas. Os relatos podem ser inspiradores por ilustrarem como, com construções coletivas, as transformações que buscamos, tão necessárias, podem ser possíveis.

 


marcela pastanaMarcela Pastana é psicóloga e mestre em Educação Escolar pela UNESP. Professora do curso de psicologia do IMES-São Manuel. Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisa em Sexualidade, Educação e Cultura- GEPESEC e coordenadora do Grupo de Discussões sobre Sexualidade e Mídia. Coordenadora do Núcleo de Sexualidade e Gênero do CRP/SP - subsede Bauru.
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