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Enquanto uma tese se tece...

Enquanto uma tese se tece, muito acontece e muito nos mobiliza, nos indigna, nos entristece, processos que podem ser explicitados ou não no que se escreve, mas de qualquer modo permeiam como nossas escolhas se constróem e como o texto se forma, se transforma e nos transforma.

Em quatro anos, foram muitos os momentos em que escrever parecia tão pouco, mas mesmo que parecesse tão pouco, ainda era algo que se abria em termos de alcance, em termos de buscar registrar em palavras o que parece inassimilável, considerando como o silenciamento em torno de questões de imensa violência precisa ser rompido para que a tão desafiante ruptura das condições que levam à violência torne-se possível.

Gostaria de mencionar alguns momentos, começando por um que ocorreu nos primeiros meses e concluindo com outro que acaba de acontecer, enquanto as linhas finais da introdução são escritas.

            No primeiro dia de agosto de 2014, primeiro mês da realização desta pesquisa, uma adolescente de 17 anos estava em uma festa do aniversário de Bauru, cidade em que moro. Após o show de comemoração promovido pela prefeitura, a adolescente encontrou um vizinho, que lhe ofereceu carona. Quando chegou ao espaço onde o carro estaria estacionado, outros dez homens estavam esperando. Ela foi estuprada. Não foram poucas as abordagens que questionavam: não era tarde para estar na festa? por que ela estava sozinha? havia bebido? havia usado outras substâncias? por que aceitou a carona? Diante da informação de que ela havia trocado mensagens com alguns dos rapazes, foram muitas as acusações: por que ela diz que foi estuprada, se provocou? como alguém que não quer sexo com dez homens troca mensagens com mais de um? Como se paquerar, demonstrar interesse, desejar envolver-se fosse o mesmo que desejar sofrer uma violência, algo absurdo, como o termo que tantas pessoas usam, o de merecer ter sido estuprada. Enquanto o estupro é descrito como merecido, a voz das mulheres que sofrem cotidianamente com violências sexuais e outras formas de violência é desmerecida, deslegitimada, silenciada. Destaco, como exemplo, os trechos a seguir de uma matéria do jornal Estadão, em que já no anúncio do tema há um teor de descredibilidade: V. de versões: no suposto estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos, cada lado tem sua narrativa (ESTADÃO, agosto de 2014, s/p, grifos nossos)[1]:

Ela diz não dormir direito há dias. Diz que vira pra lá e pra cá na cama, acorda assustada de madrugada por causa dos sonhos – pesadelos, na verdade. Diz não comer direito, pois logo de manhã o coquetel de remédio lhe embrulha o estômago. Diz não sair mais de casa. Diz só querer esquecer.

Quem diz é V.E.S.S., uma estudante de 17 anos que diz ter sido estuprada (...).

Por que a palavra “diz” foi repetida tantas vezes na construção do relato da adolescente? Por que palavras sobre experiências de dor, de susto, de desejo de esquecer uma violência sofrida são anunciadas como uma versão, como um lado da narrativa? Sim, quando uma denúncia ocorre, precisa ser investigada. Mas ao noticiar sobre uma denúncia um veículo de comunicação já transmite a necessidade de investigação com a própria palavra “denúncia”, sem que sejam necessários tantos recursos discursivos para enfatizar que seria a versão de quem denuncia. Trata-se de um mecanismo que desencoraja muitas das pessoas que sofreram violência a buscarem seus direitos, considerando como ser alvo de descrédito, de desconfiança e de deslegitimação corresponde a novas violências que se adicionam ao movimento que já é tão difícil e doloroso de falar em voz alta sobre uma violência sofrida[2].

Não há uma repetição tão incisiva de verbos que aludem ao fato de tratar-se de uma entre as versões possíveis quando as falas em questão são da delegada responsável e do advogado que defende alguns dos acusados, como é possível notar nos trechos a seguir, em que as aspas são o principal recurso utilizado:

(...) “O sexo aconteceu, mas os suspeitos alegam que foi consentido. Há evidências que contradizem a tese da vítima, como a versão das testemunhas e do laudo médico, que não constatou lesão e hematomas na adolescente. A polícia concluiu a investigação, mas ainda é preciso incluir o laudo psicológico, o laudo médico e a análise de um celular, em que estariam fotografias da vítima nua. Segundo os meninos, a menina enviou fotografia para seduzi-los. Se foi estupro ou não, é o Judiciário que decidirá”, considera a delegada. “(...) Talvez ela quis o sexo, depois se arrependeu, ficou com medo de brigar com os pais. Há várias hipóteses. A história narrada pela menina não foi provada, mas até agora ela não mudou a versão”, pondera Priscila [nome da delegada responsável].

“(...) a imputação dessa menina é gravíssima e leviana, provocando a prisão de um rapaz inocente por 11 dias”, critica o advogado (...).

Enquanto as informações dadas pela adolescente em entrevista são apresentadas no início da matéria, as falas da delegada e do advogado são apresentadas em uma segunda sessão, com o subtítulo “Outros lados”. É lamentável, no texto, tanto quanto a pretensa neutralidade é utilizada para justificar que o que diz a adolescente não seja expresso com cuidado e seriedade, quanto como as falas mencionadas podem levar a interpretações culpabilizantes, reforçando padrões assimétricos e violentos. Tirar fotos nua, enviar fotos e ter atitudes que podem ser interpretadas como sedução não são crimes. Estuprar, sim. Ainda que as fotos tenham existido, ainda que as interações de sedução tenham acontecido, sexo sem consentimento é estupro, mesmo quando não há hematomas nem lesões na pessoa estuprada. A afirmação de que “(...) até agora ela não mudou a versão”, ilustrativa da expectativa de que mude, demonstra como precisamos avançar, e muito, como são muitas as mobilizações e discussões necessárias para que a ausência de consentimento seja reconhecida como o que ela de fato é: uma violência. A construção de espaços em que violências sejam reconhecidas como violências requer, como demonstra o teor culpabilizante da matéria, o enfrentamento à desvalorização e do silenciamento de desejos que não correspondem aos padrões.

Ir a festas, dançar, beber, paquerar, desejar sexo, fazer sexo são experiências que podem ser prazerosas para muitas pessoas, inclusive mulheres. Para que sejam prazerosas, é preciso que sejam escolhas, não imposições. Enquanto o estupro for ponderado como uma violência para algumas pessoas mas como uma forma de sexo em que houve um mal-entendido para outras, em “outras versões”, precisamos nos posicionar, nas oportunidades que encontrarmos é naquelas que possamos criar, na afirmação de que a voz das mulheres, os desejos das mulheres, os prazeres das mulheres e os direitos das mulheres e de todas as pessoas não são só algo sobre o que “ouvimos dizer”, mas são legítimos, são potentes, são vitais e precisam ser respeitados e reconhecidos, não como questões menores, íntimas e relegadas à esfera individual, mas como fundamentais, como expressa o lema feminista que persiste importante e precisa ser repetido: “O pessoal é político!”.

“O pessoal é político” é uma frase norteadora em meio às tantas formas com que a violência sexual, a violência de gênero e outras formas de violência têm sido naturalizadas e gerado tantos sofrimentos e opressões.

“Não te estupro porque você não merece” [3], foi uma frase dita pelo deputado Jair Bolosonaro para a deputada Maria do Rosário, ao reagir ao discurso feito por ela contra a ditadura militar e em defesa da Comissão da Verdade. A frase foi repetida em dezembro de 2014, após ter sido falada pela primeira vez em uma discussão no corredor da Câmara em 2003. Torna-se ainda mais importante destacarmos quanta violência há nesta frase ao considerarmos como hoje, em 2018, ano em que estão previstas eleições presidenciais, Jair Bolsonaro tem ganhado espaço entre as intenções de voto, indicando como os embates que viveremos requerem força redobrada para a reflexão sobre a crise de valores que temos enfrentados e sobre quais valores desejamos que sejam defendidos. Como afirma Afonso Mancuso de Mesquita (2018, p. 5-6):

(...) Quando um deputado federal brasileiro (o mais votado de seu estado em 2016) sugere que não estupraria uma colega, também deputada federal, porque ela “não merece”, movito pelo qual ele é hoje réu no STF, ele rompe uma fronteira. Quando o mesmo senhos elogia tortura em rede nacional, ele rompe outra fronteira. Ao incitar o estupro e à tortura, ele finalmente abre a voz despudorada da defesa aberta à violência. Se o problema fosse ele como indivíduo, não seria necessária tanta preocupação, mas não é essa a questão. Ele representa um grupo lamentavelmente cada vez mais amplo, como queremos enfatizar (...). Hoje, defender direitos iguais a todas as pessoas é algo difícil, pois há um crescente grupo social que esnoba dessa defesa como algo desprezível. Se isso não tem tom de absurdo aos nossos ouvidos, é porque nossas sensibilidade está calcificada e não podemos seguir ignorando essas questões do ponto de vista da psicologia e da educação (...).

No capítulo A atualidade da educação dos valores na escola: educação para a liberdade, Mesquita (2017) aborda como a valoração faz parte de todos os âmbitos da vida, embora nem sempre as pessoas encontrem condições para a reflexão sobre como são realizadas escolhas individuais e coletivas e sobre quais as relações entre os valores e as escolhas que são tomadas. A promoção de educação de valores no contexto escolar torna-se, assim, um movimento propício para o exercício de reflexão sobre os valores, sobre como tanto a formação de valores quanto as derivações das escolhas mediadas por esses valores se dão nos relacionamentos que vivemos e em como as construímos, nas formas de sociabilidade que se estabelecem, que predominam, reconhecendo como: “(...) A importância de educarmos valores é que reflitamos sobre o desejável e o evitável para mudar as escolhas que têm dado rumo perigoso à nossa vida social (...)” (MESQUITA, 2017, p. 371). O autor indica que as discussões sobre sexualidade e gênero no âmbito escolar requerem, assim, a defesa da igualdade e da liberdade como valores centrais:

(...) o tratamento igualitário e equitativo entre seres humanos e sua liberdade de expressão sexual são valorados positivamente e devem ser objetivo de nossas lutas e conquistas. (...) o curioso é que a defesa da igualdade só pode se dar pelo pleno direito à diferença. Seres humanos são diversos e quase inclassificáveis. (...) a igualdade se realiza pela via da diferença. Todas as pessoas têm direito a serem o que são e desejam ser, têm direito ao amor e ao prazer. Desde que não envolva violência contra outrem, tudo é válido e digno (...) (MESQUITA, 2007, p. 380).

Durante os quatro anos em que a tese foi construída, o tema gênero recebeu muita atenção. Infelizmente, grande parte dessa atenção não foi voltada ao combate às desigualdades, objetivo historicamente relacionado às discussões sobre gênero. A inserção das questões de gênero no contexto escolar, tão necessária para a promoção de direitos e para a compreensão de que as expressões das feminilidades, das masculinidades e das relações são múltiplas e culturalmente construídas, tem sido tema de inúmeros embates políticos. O elemento disparador de muitos desses embates foi a exigência da retirada do conceito de gênero dos Planos de Educação em âmbito nacional, nos estados e nos municípios. Essa exigência tem como base a ideia de que haveria uma forma de família natural[4], que sustenta a sociedade e seria sustentada pela divisão entre meninos e meninas, entre homens e mulheres como uma divisão natural. Tal modelo de família supostamente natural estaria ameaçado por uma forma de doutrinação chamada pelos grupos contrários de ideologia de gênero[5].

Outro elemento disparador, aliado ao primeiro, é o alarde de pessoas que se nomeiam adeptas de um movimento chamado Escola Sem Partido, que, entre as propostas formuladas para projetos de lei federais, estaduais e municipais, afirma que o respeito às convicções de alunos(as), familiares e responsáveis corresponderia ao veto de discussões sobre sexualidade, sobre gênero e outras questões relacionadas à transformação de desigualdades com base em afirmações como a de que: “(...) os valores de ordem familiar [têm] precedência sobre a educação escolar nos aspectos relacionados à educação moral, sexual e religiosa (...)”[6]. Com o veto, o que se pretende é implementar uma série de medidas de fiscalização, denúncia e punição de professores(as) que discutam em sala de aula questões que não correspondam aos valores morais dos grupos que elaboraram à proposta, medidas que já têm acontecido em algumas escolas[7].

Que famílias estão em questão? Que valores estão em questão? Que compreensão sobre a educação está em questão?

O que está sendo reivindicado é o silenciamento. Silenciamento de professores(as). Silenciamento de crianças, adolescentes, jovens, de todas as pessoas que frequentam a escola. Silenciamento de quem vive cotidianamente as marcas de sofrimento e exclusão que são suscitadas por relações tão desiguais, tão discriminatórias. Silenciamento de como convicções religiosas e morais são múltiplas, de como as configurações e as relações familiares são múltiplas, de como o diálogo e o aprendizado sobre as multiplicidades não é uma forma de confrontar valores, mas sim, de promover espaços em que os valores possam ser vividos de forma mais consciente, ativa, refletida. Silenciamento, defendido com o superifical argumento de uma pretensa neutralidade, do quanto a educação é, sim, uma questão política.

Não é por acaso que as reivindicações por silenciamento ganharam força justamente em um contexto em que têm se fortalecido a organização de estudantes por transformações na educação, como nos movimentos de ocupação das escolas. É sobre a afirmação da educação como política que Eliane Brum (2015, s/p)[8] discute:

É pelo exercício da política que se alcançou o que de melhor existe na experiência humana. E não pela força, pela imposição, pelo extermínio do diálogo e das ideias e, vezes demais, das pessoas que discordam. (...) Os estudantes ocuparam o espaço público para reafirmarem a necessidade de dialogar, para dizer que imposição não era possível num regime democrático. (...) Os estudantes que ocuparam as escolas e ruas estavam até então na posição de restos. Eram os estudantes que o Estado fingia educar, em escolas abandonadas, caindo aos pedaços, em aulas com professores muito mal pagos, desmotivados e despreparados. Eram os alunos que nunca teriam muita chance na vida porque receberam uma péssica educação. (...) Aqueles que muito acreditavam “sem futuro”, porque sem presente, ensinaram aos adultos que a política é o exercício de estar com o outro no espaço público (...).

Os(as) mesmos(as) adolescentes que se organizaram na luta por educação são os(as) adolescentes para quem se dirigem as expectativas de contenção, como problematizamos anterioremente, em muitas propostas educativas. Mais uma vez, as explicações reducionistas proliferam: haveria uma suposta explosão hormonal que tornaria adolescentes naturalmente imediatistas, impulsivos(as), irresponsáveis, inconsequentes e descontrolados(as), o que justificariam as demandas por controle dirigidas a profissionais da educação e da psicologia, demanda que repercute em como se espera uma ênfase nas consequências negativas quando os temas são as experiências sexuais e as experiências de consumo de álcool e de outras substâncias.

Sobre a preocupação suscitada pela associação direta entre adolescentes e descontroles, podemos mencionar como exemplo as reações aos chamados “rolezinhos”, momentos em que adolescentes e jovens se organizam para irem, em grupos, para shoppings e outros espaços de lazer. No texto Os novos “vândalos” do Brasil, Eliane Brum (2013) aborda como foram as reações:

O Natal de 2013 ficará marcado como aquele em que o Brasil tratou garotos pobres, a maioria deles negros, como bandidos, por terem ousado se divertir nos shoppings onde a classe média faz as compras de fim de ano. Pelas redes sociais, centenas, às vezes milhares de jovens, combinavam o que chamam de “rolezinho”, em shopping próximos de suas comunidades, para “zoar, dar uns beijos, rolar umas paqueras” (...). A polícia reprimiu, os lojistas fecharam as lojas, a clientela correu.

Na cidade de Bauru, foram organizadas comissões diante da preocupação “(...) com os rumos do movimento, que ganha cada vez mais força em frente aos shoppings da cidade (...)”, segundo matéria publicada no Jornal da Cidade[9]. A tentativa de criar aqueles que foram chamados de “rolezinhos do bem”, justificada inicialmente pela intenção de que os(as) adolescentes tivessem espaços seguros e saudáveis para seus momentos de lazer, facilmente deixa revelar o propósito de que não haja adolescentes e jovens mais pobres nos arredores dos shopping e outras lucrativas zonas comerciais, como no título da matéria publicada no G1: ‘Rolezinho do Bem’ tenta levar jovens para longe de shopping em Bauru[10].

Ao nos depararmos com como a priorização dos lucros é disfarçada em medidas supostamente voltadas à promoção de segurança e saúde, é importante destacarmos como um de nossos objetos de estudo nesta tese, as bebidas alcoólicas, é hoje uma mercadoria de grande importância e influência[11]. Como exemplo podemos mencionar o fato de que a empresa com maior valor de mercado da América Latina é a Companhia de Bebidas das Américas (Ambev), fabricante de cervejas como Brahma, Skol e Antártica, empresa que a partir de fusões que aconteceram desde 2008, passou a fazer parte da multinacional Anheuser-Busch Inbev, que é hoje a líder do mercado mundial, com mais de 200 marcas de cerveja. Jorge Paulo Lemann, sócio da multinacional, que é hoje classificado como a pessoa mais rica do Brasil, é também o criador da Fundação Estudar, uma das fundações mais influentes nas políticas educacionais, como no exemplo da participação no Movimento pela Base Nacional Comum.

Ainda sobre as medidas nomeadas de medidas de segurança e saúde, em uma tese que abordaremos sobre os usos de álcool, hoje substância psicoativa lícita que movimenta lucrativos mercados, é importante trazermos como a divisão entre substâncias lícitas e ilícitas[12] é muitas vezes tomada como base para políticas que são bastante excludentes e violentas, políticas que alcançam principalmente pessoas jovens e, de forma significativamente mais incisiva, pessoas jovens pobres e negras. Como analisa Eliane Brum (2017, s/p) no texto A lei não é para todos:

A lei de drogas de 2006 aumentou as penas para o tráfico de drogas, mas manteve a ambiguidade entre “usuário” e “traficante”. Ao mantê-la, entre outros problemas, multiplicou as prisões por “tráfico”, um dos principais fatores do aumento do encarceramento e da superlotação das prisões. Na prática, o que se vê e as pesquisas comprovam é que o “usuário” é o branco de classe média e alta, escolarizado – e o “traficante” é o negro e pobre com pouca escolaridade. Os grandes traficantes de drogas raramente são alcançados, como o noticiário recente já demonstrou.

Brum (2017) reúne dados apresentados no Mapa da Violência[13] para discutir como é alto o número de assassinatos de crianças e adolescentes no Brasil, principalmente crianças e adolescentes mais pobres e negros(as). Ainda que os assassinatos e outras formas de violência sejam tão frequentes, a urgência de políticas públicas voltadas para a proteção, para a segurança, tem recebido pouca atenção, enquanto têm sido intensas as reivindicações de posturas punitivas contra a juventude que seria supostamente perigosa    

e descontrolada, como nas reivindicações pela redução da maioridade penal[14].

Ao selecionarmos os materiais educativos para análise, o critério inicial de inclusão referia-se a materiais voltados à prevenção aos usos de bebidas alcoólicas entre adolescentes produzidos e utilizados no âmbito das políticas públicas em educação e saúde. No entanto, com a realização de revisão de estudos sobre as abordagens preventivas, nos deparamos com a informação de que o maior programa desenvolvido no Brasil hoje, presente em escolas de todos os estados, não é uma política pública e inclusive está em dissonância com os princípios da Política Nacional de Álcool e da Política Nacional sobre Drogas, que estabelece que as abordagens devem ter como base informações fundamentas cientificamente e devem valorizar as diferenças, a autonomia, com a adoção de uma perspectiva de redução de danos e a busca por enfrentar estigmas e preconceitos. Já o principal programa tem a abstinência como meta, a ordem “diga não!” como principal estratégia, utilizando um teor amedrontador para situar as drogas e as pessoas que fazem uso de drogas como um perigoso mal a ser evitado e combatido. Trata-se do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência - PROERD, desenvolvido nas escolas pela Polícia Militar[15].

Quando as reações ao estupro que aconteceram em agosto de 2014 foram de desqualificação e culpabilização da adolescente que fez a denúncia; quando um deputado federal dirigiu-se a uma deputada também em 2014 afirmando que só não a estupraria porque ela não merece; quando grupos religiosos e outros grupos conservadores exigiram que fossem vetadas as discussões sobre gênero e sobre orientação sexual nas escolas em nome de suposta neutralidade de valores que na verdade está a serviço de perpetuar valores desiguais e excludentes; quando encontros entre adolescentes que desejam se divertir são condenados como perigosos, chamados de vandalismo e tratados como algo criminoso, estamos diante de alguns desafios significativamente intensos para quem atua com educação, para quem atua com adolescentes, para quem deseja atuar com adolescentes valorizando-os(as) como sujeitos ativos(as), com múltiplas experiências, múltiplas vozes e múltiplos desejos de transformação, desejos de transformação que buscamos potencializar com nossas possibilidades de atuação. Torna-se importante repetirmos: “O pessoal é político!”.

“O pessoal é político!”. Em 2018, no dia 08 de março, Marielle Franco, vereadora pelo Psol do Rio de Janeiro, publica em sua página no Twitter: “Mesmo no Dia Internacional das Mulheres, temos números difíceis de lidar. O número de mulheres assassinadas por serem lésbicas aumenta a cada ano. Em 2017, houve 1 lesbocídio por semana (...)”. No dia 13 de março, denuncia e questiona: “Mais um homicídio de um jovem que pode estar entrando para a conta da PM. Matheus Melo estava saindo da igreja. Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”[16]. No dia seguinte, na volta de um debate que participou com o tema “Jovens negras movendo estruturas”, o carro de Marielle foi parado, nove cápsulas foram disparadas. Marielle foi executada. Anderson Pedro Gomes, motorista que dirigia o carro em que Marielle estava, também foi assassinado[17].

Marielle Franco, nascida na favela da Maré, mulher, negra, casada com Mônica Tereza Benício, mestra em administração pública e ativista pelos direitos humanos: quando dizemos “Marielle, presente!”, desejamos que em nossas lutas se repercuta e persista toda a vida de sua trajetória de denúncia à violência policial, de defesa dos direitos humanos, dos direitos sexuais e reprodutivos e pelo enfrentamento ao racismo, as desigualdades sociais e às muitas formas de violência, inclusive a violência sexual e de gênero.

Pensarmos questões como sexualidade, gênero e prazer como associadas ao campo dos direitos a serem garantidos e promovidos é um movimento que atravessará a realização desta tese. Nesse sentido, gostaríamos de encerrar esta introdução com a discussão apresentada por Marielle Franco (2015) na dissertação UPP – a redução da favela a três letras: uma análise da política de Segurança Pública do estado do Rio de Janeiro, com a pesquisa sobre como o combate ao tráfico de substâncias ilícitas é utilizado como justificativa para políticas estatais que cerceiam a vida cotidiana de muitas pessoas, como as incursões policiais em favelas. Diante da precariedade de condições no que se refere a direitos básicos, a intensificação do policiamento e as ocorrências de violência que o acompanham (com a morte de tantas pessoas pela violência policial, principalmente pessoas pobres e negras, todos os dias, sem que essas mortes sejam devidamente investigadas ou mesmo tratadas com reconhecimento e respeito) está à serviço da incitação do medo, sem que aconteçam alterações efetivas de proteção e promoção de cidadania prometidas pelas medidas que recebem o nome de “pacificação”, em que a permanência militar defendida como uma estratégia de guerra às drogas revela-se, como analisa a autora, como uma “guerra aos pobres” (FRANCO, 2015, p. 74). Marielle defende:

(...) nas favelas e periferias (...) a presença do policiamento ostensivo traz risco permanente e medo para os moradores. Isso, no entanto, é um sentimento de uma realidade que apresenta a questão de segurança apenas pela força e não por meio de políticas públicas que apostem na mobilidade, no encontro dos corpos, na participação e na ocupação das ruas. Essa situação gera desigualdades cada vez mais profundas no tratamento dado aos moradores desses diversos territórios que compõem a cidade.

O fundamental, ao se pensar em uma política de segurança cidadã, está em manter o foco em investimentos em iluminação, pessoas nas ruas, praças ocupadas, esquinas de encontro, atividades públicas de esporte e lazer, como demonstrações de práticas de segurança pública. Políticas públicas nesse campo devem predominar nas ações das várias instâncias do Estado (no caso do Brasil, prefeituras, estados federativos e nível federal) (...) (FRANCO, 2014, p. 24).

É com o reconhecimento da importância política dos encontros que Marielle propõe medidas em segurança que visem a garantia e a promoção de direitos. É com o reconhecimento da importância política dos encontros que desejamos iniciar e desenvolver esta tese.

 


[1] Disponível em: http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,v-de-versoes,1551958. Acesso em: 25 de março de 2018.

[2] No texto “Ninguém pode ouvir você!” – Sobre a importância da escuta em situações de violência, discuto com maior especificidade como são frequentes reações de desqualificação e culpabilização quando mulheres que sofreram violência decidem denunciar e buscar seus direitos. Disponível em: https://psibr.com.br/colunas/sexualidade-e-genero/marcela-pastana/sobre-a-importancia-da-escuta-em-situacoes-de-violencia. Acesso em: 29 de março de 2018.

[3] Mais informações podem ser encontradas no texto Bolsonaro e a violência contra a mulher na política. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/bolsonaro-e-a-violencia-contra-a-mulher. Acesso em: 25 de março de 2018.

[5] Abordo com maior especificidade sobre as reivindicações de retirada dos termos gênero e orientação sexual dos Planos Nacional, Estaduais e Municipais de Educação no capítulo Por que precisamos do debate sobre gênero nas escolas? (PASTANA, 2017).

[6] O projeto de lei federal nº 7.180, apresentado em 2014, é um exemplo dos projetos propostos pelo movimento Escola Sem Partido e está disponível no endereço: http://www.camara.gov.br/ proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1232338&filename=Avulso+-PL+7180/2014. Acesso em: 29 de março de 2018.

[7] Na matéria Ameças, ofensas e sindicâncias, publicada pela Agência Pública, professores(as) relatam sobre experiências de cerceamento e censura por trabalharesm nas aulas questões que contrariam os valores conservadores: sobre o enfrentamento à violência contras as mulheres, à homofobia e à transfobia; sobre como o marxismo compreende a luta de classes e sobre a importância da mobilização política diante da necessidade de transformações na educação. Disponúvel em: https://apublica.org/2016/08/ameacas-ofensas-e-sindicancias/. Acesso em: 29 de março de 2018.

[8] O título É política sim, Geraldo, do texto de Eliane Brum (2015) refere-se à afirmação feita pelo governador do Estado de São Paulo Geraldo Alckmin de que os protestos pela educação seriam uma “ação política”, como se tal descrição os desqualificasse. Os protestos discutidos por Brum (2015) referem-se a como estudantes se mobilizaram contra a imposição da reorganização escolar, que fecharia 90 escolas remanejando mais de 300.000 alunos(as). Com as ocupações das escolas e outras formas de luta, o projeto de reorganização foi interrompido. Em outros estados também aconteceram ocupações em escolas como forma de luta de estudantes pela educação. O texto está diponível no endereço: https://brasil.elpais.com/brasil/2015/12/07/opinion/1449493768_665059.html. Acesso em: 29 de março de 2018. Para mais informações sobre as ocupações, redomendo o documentário Lute como uma menina, que traz também a discussão sobre a intensa e importante participação de mulheres no movimento secundarista. Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=8OCUMGHm2oA. Acesso em: 29 de março de 2018.

[9] O trecho foi extraído da matéria ‘Rolezinho’ tem mutirão contra álcool, publicada em 15 de janeiro de 2014. Disponível em: https://www.jcnet.com.br/Bairros/ 2014/01/rolezinho-tem-mutirao-contra-alcool.html. Acesso em: 26 de março de 2018.

[10] A matéria está disponível na página: http://g1.globo.com/sp/bauru/marilia/noticia/ 2014/01/rolezinho-do-bem-tenta-levar-jovens-para-longe-de-shoppings-em-bauru.html. Acesso em: 26 de março de 2018.

[13] O documento do Mapa da Violência de 2016 está disponível no endereço: https://www.mapadaviolencia.org.br/. Acesso em: 30 de março de 2018.

[16] A página de Marielle Franco no twitter pode ser visitada no endereço: https://twitter.com/

mariellefranco?lang=en. Acesso em: 25 de março de 2018.

[17] Mais informações podem ser encontradas na notícia Mulher, negra, favelada, Marielle Franco foi de ‘cria da Maré’ a símbolo de novas lutas políticas no Rio, publicada pela BBC Brasil. Disponível em: http://agenciapatriciagalvao.org.br/violencia/noticias-violencia/mulher-negra-favelada-marielle-franco-foi-de-cria-da-mare-simbolo-de-novas-lutas-politicas-no-rio/. Acesso em: 17 de março de 2018.

 

Observação: O texto publicado refere-se a um trecho da introdução de minha tese de doutorado, que está em construção.