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Psicologia do desenvolvimento: uma perspectiva histórica

Márcia Elia da Mota

Universidade Federal de Juiz de Fora 

Temas em Psicologia (Volume 13/2 - 2005)


 

Este artigo visa discutir a delimitação conceitual do campo de estudo do desenvolvimento humano levando em consideração perspectivas e tendências atuais nesta área. Na medida em que psicólogos do desenvolvimento enfrentam novos desafios e este campo de conhecimento evolui novos paradigmas surgem, oferecendo subsídios teóricos e metodológicos para prática profissional de psicólogos e profissionais de áreas afins. Pretende-se também apresentar uma atualização da descrição da evolução histórica da psicologia do desenvolvimento desde seu período formativo até os dias atuais. Por fim com base nos Grupos de Trabalho da ANPEPP (X e XI Simpósio) faz-se uma análise das tendências de produção científica nacional nesta área.

 

Psicólogos do desenvolvimento enfrentam novos desafios no século XXI. As novas concepções de atuação profissional que enfatizam a prevenção e a promoção de saúde fazem com que profissionais de várias áreas busquem na psicologia do desenvolvimento subsídios teóricos e metodológicos para sua prática profissional. O que está em questão é o desenvolvimento harmônico do indivíduo, que integra não apenas um aspecto, mas todas as dimensões do desenvolvimento humano sejam elas: biológicas, cognitivas, afetivas ou sociais. Este artigo visa discutir a delimitação conceitual do campo de estudo do desenvolvimento humano levando em consideração novos paradigmas que surgem nesta área.

Pretende-se também apresentar uma atualização da descrição da evolução histórica deste campo de atuação sintetizando informações que hoje se encontram dispersas em diferentes trabalhos que discutem o estudo do desenvolvimento humano. Hartup (2000) aponta que a análise histórica permite que, ao que se ordene o passado, se obtenha modelos de comparação que permitam a análise das contribuições atuais e futuras. No caso da psicologia do desenvolvimento, em particular, é preciso que se entenda como as questões pertinentes ao desenvolvimento humano foram tratadas no passado, como elas evoluíram para que possamos tomar decisões a respeito de perspectivas futuras.

Por fim faz-se uma breve análise do panorama das tendências da produção científica nacional com base na análise dos Grupos de Trabalho (GTs) da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia (ANPEPP) no período de 2004 e 2006.

 

1. A delimitação conceitual do campo da Psicologia do Desenvolvimento

Em um texto clássico sobre a psicologia do desenvolvimento humano, Biaggio (1978) discute a difícil tarefa de conceituá-lo. A controvérsia emana sem dúvida do vasto campo de estudo que envolve esta disciplina.

O desenvolvimento humano envolve o estudo de variáveis afetivas, cognitivas, sociais e biológicas em todo ciclo da vida. Desta forma faz interface com diversas áreas do conhecimento como: a biologia, antropologia, sociologia, educação, medicina entre outras.

Tradicionalmente o estudo do desenvolvimento humano focou o estudo da criança e do adolescente, ainda hoje muitos dos manuais de psicologia do desenvolvimento abordam apenas esta etapa da vida dos indivíduos (Bee, 1984; Cole & Cole, 2004).

O interesse pelos anos iniciais de vida dos indivíduos tem origem na história do estudo científico do desenvolvimento humano, que se inicia com a preocupação com os cuidados e com a educação das crianças, e com o próprio conceito de infância como um período particular do desenvolvimento (Cairns, 1983; Cole & Cole, 2004; Mahoney, 1998).

No entanto, este enfoque vem mudando nas últimas décadas, e hoje há um consenso de que a psicologia do desenvolvimento humano deve focar o desenvolvimento dos indivíduos ao longo de todo o ciclo vital. Ao ampliar o escopo de estudo do desenvolvimento humano, para além da infância e adolescência, a psicologia do desenvolvimento acaba por fazer interface também com outras áreas da psicologia. Só para citar algumas áreas temos: a psicologia social, personalidade, educacional, cognitiva.

Assim surge a necessidade de se delimitar esse campo de atuação, definindo o que há de específico a psicologia do desenvolvimento humano. A necessidade de se integrar ao estudo do desenvolvimento humano uma perspectiva interdisciplinar, que adote uma metodologia de pesquisa própria, faz com que alguns autores sugiram que o estudo desenvolvimento humano constitua um campo de atuação independente da Psicologia, que tem sido chamado de “Ciência do Desenvolvimento Humano” (Aspesi, Dessen & Chagas, 2005; Bronfrenbrenner & Evans, 2000).

Pesquisadores do desenvolvimento humano concordam que um dos objetos de estudo do psicólogo do desenvolvimento é o estudo das mudanças que ocorrem na vida dos indivíduos. Papalia e Olds (2000), por exemplo, definem desenvolvimento como “o estudo científico de como as pessoas mudam ou como elas ficam iguais, desde a concepção até a morte” (Papalia & Olds, 2000, p.25).

A definição destes autores salienta o fato de que psicólogos do desenvolvimento estudam as mudanças, mas não nos oferece nenhuma informação sobre questões fundamentais ao estudo do desenvolvimento humano. O que muda? Como muda? E quando muda? Estas são perguntas freqüentes nas pesquisas sobre o desenvolvimento, e são freqüentemente abordadas de forma distintas pelas diferentes abordagens teóricas que descrevem o desenvolvimento humano.

Dizer que ao longo do tempo mudanças ocorrem na vida dos indivíduos não nos esclarece estas questões. O tempo é apenas uma escala, não é uma variável psicológica. Portanto, é preciso entender como as condições internas e externas ao indivíduo afetam e promovem essas mudanças (Biaggio, 1978). As mudanças no desenvolvimento são adaptativas, sistemáticas e organizadas, e refletem essas situações internas e externas ao indivíduo que tem que se adaptar a um mundo em que as mudanças são constantes (Papalia & Olds, 2000).

Variáveis internas podem ser entendidas como aquelas ligadas à maturação orgânica do indivíduo, as bases genéticas do desenvolvimento. Recentemente, os processos inatos que promovem o desenvolvimento humano voltam a ser discutidos por teóricos do desenvolvimento humano (Cole & Cole, 2004).

As variáveis externas são aquelas ligadas à influência do ambiente no desenvolvimento. As abordagens sistêmicas de investigação do desenvolvimento humano há muito chamam atenção para a importância de se entender as diversas interações que ocorrem nos múltiplos contextos em que o desenvolvimento se dá. Incluindo-se nesta discussão uma análise do momento histórico em que o indivíduo se desenvolve.

Biaggio (1978) argumenta que a especificidade da psicologia do desenvolvimento humano está em estudar as variáveis externas e internas aos indivíduos que levam as mudanças no comportamento em períodos de transição rápida (infância, adolescência e envelhecimento). Teorias contemporâneas do desenvolvimento aceitam que as mudanças são mais marcadas em períodos de transição rápida, mas mudanças ocorrem ao longo de toda a vida do indivíduo, não só nestes períodos. Portanto, é preciso se ampliar o escopo do entendimento do que é o estudo do desenvolvimento humano.

Para que se leve a termo estas considerações, as pesquisas em desenvolvimento humano utilizam metodologia específica, entre elas a mais comumente usada são os estudos longitudinais. A “International Society for the Study of Behavioral Development” lançou em 2005 uma edição especial intitulada “Longitudinal Research on Human Development: Approachs, Issues and New Directions”. Nesta edição se discute as contribuições e limitações dos estudos longitudinais para a produção do conhecimento na psicologia do desenvolvimento.

Cillessen (2005) ressalta que estudos longitudinais se aplicam as várias áreas do conhecimento não apenas a Psicologia do Desenvolvimento. Também não se aplicam apenas a estudos de longo prazo e com muitos indivíduos, mas na psicologia do desenvolvimento adquirem uma importância fundamental, pois permitem que se acompanhe o desenvolvimento dos indivíduos ao longo do tempo, ao mesmo tempo em que, controlam-se as múltiplas variáveis que afetam o desenvolvimento.

Os teóricos que trabalham na abordagem do Curso da Vida, chamam atenção para algumas das limitações deste tipo de abordagem, que estudam apenas uma coorte de cada vez, não permitindo inferências sobre o comportamento entre gerações. Apontam para a necessidade de incluir outras coortes históricas em estudos sobre o desenvolvimento humano, ressaltando a necessidade de estudos longitudinais de coorte, mais amplos que os estudos longitudinais tradicionais (ver Baltes, 1968 para uma discussão).

Além da Teoria do Curso da Vida, teóricos de diversas abordagens chamam a atenção para a necessidade de se considerar as questões metodológicas específicas ao estudo do desenvolvimento e as limitações das metodologias tradicionais (Bronfrenbrenner, 1996; Cole, 2005).

Assim, pelas questões acima citadas, consideramos que uma melhor definição de Psicologia do Desenvolvimento seria “O estudo, através de metodologia específica e levando em consideração o contexto sócio-histórico, das múltiplas variáveis, sejam elas cognitivas, afetivas, biológicas ou sociais, internas ou externas ao indivíduo que afetam o desenvolvimento humano ao longo da vida”.

Através da identificação dos fatores que afetam o desenvolvimento humano podemos pensar sobre trabalhos de intervenção mais eficazes, que levem a um desenvolvimento harmônico do indivíduo. Sendo assim, os conhecimentos gerados por essa área da psicologia trazem grandes contribuições para os trabalhos de prevenção e promoção de saúde. Aqui a concepção de saúde adquire uma perspectiva mais ampla e engloba os diversos contextos que fazem parte da vida dos indivíduos (escola, trabalho, família).

 

2. Evolução histórica da Psicologia do Desenvolvimento

Biaggio e Monteiro (1998) estudando a evolução histórica da psicologia do desenvolvimento humano sistematizam o estudo do desenvolvimento humano em fases, cada fase englobando um período de mais ou menos dez anos. Propomos a seguir uma atualização desta divisão acrescentando também uma análise do período formativo da psicologia do desenvolvimento (Cairns, 1983).

 

2.1. O período formativo (1882-1912)

O estabelecimento da data de nascimento da psicologia do desenvolvimento é motivo de alguma controvérsia. Em 1882, Preyers (1841-1897) publicou o livro “The mind of the child” que segundo Cairns (1983) impulsionou as pesquisas na área de desenvolvimento. O autor considera essa publicação como um marco no nascimento da psicologia do desenvolvimento, mas ressalta que as primeiras sociedades para o estudo do desenvolvimento foram criadas também no final do século XIX, e quase ao mesmo tempo em que as primeiras publicações especializadas na área surgiram, tanto na França como nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, Stanley Hall funda o “Child Research Institute at Clark” e o periódico “Pedagogical Seminars” em 1891. Na França Binet funda em 1899 a “Société Libre pour l`Étude de l´Énfant” e o periódico “LÁnnée Psychologique” (Ver Cairns, 1983 para informações sobre a criação destes centros de estudo). Os interesses de pesquisa nesta época envolviam principalmente a psicobiologia, psicologia da personalidade e desenvolvimento cognitivo.

 

2.2. Primeira fase (1920-1939 aproximadamente)

Este foi um período de grande investimento no estudo do desenvolvimento da criança, embora tenha se publicado os primeiros estudos sobre envelhecimento (Hall, 1922 apud Cairns, 1983) e adolescência (Hall, 1904 apud Cairns, 1983).

Observa-se a continua institucionalização da psicologia do desenvolvimento, mas ainda muito focada no estudo da criança. Até hoje influente a “Society for Research in Child Development” foi fundada em 1933 (Cairns, 1983).

Os principais interesses de estudo nesta época foram: o desenvolvimento intelectual, maturação e crescimento. Começa-se a criticar os métodos existentes de pesquisa na área do desenvolvimento humano. Sendo que a maioria das pesquisas ainda usa métodos descritivos e normativos. Há um aumento do interesse por estudos longitudinais e começa-se discutir a importância do uso deste tipo de metodologia para o estudo do desenvolvimento. Na prática o interesse por esse tipo de delineamento não se concretiza.

 

2.3. Segunda fase (1940 – 1959 aproximadamente)

Esta fase foi grandemente influenciada pela depressão de 30 e pelas Guerras que levam a uma escassez de investimentos em pesquisa. O interesse nesta época ainda se concentra no estudo da criança, especialmente no estabelecimento de relações entre variáveis que afetam o desenvolvimento (Cairns, 1983). Desta forma os principais métodos de pesquisa utilizados nesta fase foram os métodos correlacionais. Os avanços teóricos ficam limitados, pois como todos sabem métodos correlacionais não permitem que se estabeleçam relações de causa e efeito entre variáveis (Biaggio, 1978).

 

2.4. Terceira fase (1960-1989 aproximadamente)

Cairns (1983) afirma que nesta fase verificou-se uma re-emergência das pesquisas no campo do desenvolvimento. Até meados da década de 60 a psicologia do desenvolvimento sofre grande influência da Teoria Behaviorista e dos conceitos de Aprendizagem Social. Observa-se também a re-emergência da Teoria Piagetiana como arcabouço teórico das pesquisas neste campo o conhecimento (Biaggio & Monteiro, 1998).

A Revolução Cognitiva atinge a psicologia do desenvolvimento. Vários aspectos da cognição são investigados dentro da Abordagem do processamento de informação. Há um crescente interesse pela psicobiologia e pelas bases biológicas do comportamento.

No que diz respeito à metodologia de pesquisa utilizada nesta fase busca-se o estabelecimento das causas do desenvolvimento. Há um aumento da utilização do método experimental e do uso de técnicas correlacionais associadas a estudos longitudinais.

 

2.5. Quarta fase (1990- dias atuais)

Novos paradigmas na psicologia do desenvolvimento emergem. O caráter interdisciplinar da disciplina, a importância de se discutir e incorporar nas pesquisas os diversos contextos em que os indivíduos se desenvolvem, inclusive a dimensão histórica do desenvolvimento começa a ser discutida (Dessen & Costa Jr, 2006; Seidl de Moura & Moncorvo, 2006).

Cada vez mais o desenvolvimento é estudado ao longo do ciclo vital, ao invés da tradicional ênfase na infância e adolescência. Magnusson e Cairns (1996 apud Aspesi, Dessen & Chagas, 2005) propõem que as mudanças de perspectivas de estudo no desenvolvimento humano constituem uma Ciência do Desenvolvimento Humano, uma disciplina independente que engloba conhecimentos não só da psicologia, mas de outras áreas afins. No Brasil funda-se em 1998 a “Sociedade Brasileira de Psicologia do Desenvolvimento”.

Os objetos de pesquisa anteriores permanecem, mas observa-se um maior interesse por estudos no curso da vida e por abordagens contextuais e sistêmicas como a teoria ecológica de Bronfrebrenner. Quanto aos métodos de pesquisa propõem-se novos paradigmas metodológicos, estudos sistêmicos, longitudinais, transculturais, transgeracionais e multimetodológicos.

 

3. A Psicologia do Desenvolvimento no Brasil: panorama atual e perspectivas futuras

Seidl de Moura e Moncorvo (2006) fizeram uma análise da produção científica nacional na área de desenvolvimento humano usando três fontes: a análise da produção publicada na base de dados internacional Psyclit, análise dos Grupos de Pesquisa registrados no CNPq e análise dos Grupos de Trabalho (GTS) da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP).

No levantamento feito no Psyclit no período de 1974-1996 verificou-se que 14,82% dos documentos publicados nesta base de dados eram documentos na área de psicologia do desenvolvimento (Seidl de Moura, Ribas Jr. & Ribas, 2000 apud Seidl de Moura & Moncorvo, 2006). Estes dados nos dão indicações da média da produção científica internacional nesta área. È possível então comparar o impacto da produção científica nacional na esfera internacional.

Analisando o impacto da produção científica nacional neste banco de dados, os autores citados mostraram que embora o número de publicações em periódicos indexados em bases de dados internacionais ainda seja muito baixo, houve um aumento significativo do número de publicações da década de 70 para a década de 80, que segue uma relativa estabilidade no número de publicações nas duas décadas subseqüentes. Estes resultados indicam uma necessidade de um aumento da internacionalização da produção científica nacional.

Seidl de Moura e Moncorvo (2006) também fizeram uma análise dos principais grupos de pesquisa na área do desenvolvimento cadastrados no CNPq. Foram identificados 76 grupos de pesquisa. A análise destes grupos permitiu que se obtivessem informações sobre as principais linhas de pesquisa desenvolvidas nesta área do conhecimento. Dentre elas estão: questões epistemológicas, constituição da subjetividade e do sujeito, processos de desenvolvimento no ciclo vital, contextos do desenvolvimento/família, desenvolvimento cognitivo e da linguagem, desenvolvimento afetivo e sócio-cogntivo, gênero e desenvolvimento, desenvolvimento e saúde.

A Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP) promove a criação de grupos de trabalho em várias áreas da psicologia. Os GTs de trabalho da ANPEPP têm como um dos objetivos promover o intercâmbio e a cooperação entre pesquisadores que se organizam em torno de um determinado tema de interesse. Embora nem todos os integrantes dos GTs estejam vinculados a pós-graduação esta associação visa o fortalecimento da pós-graduação em psicologia e a formação de pesquisadores.

A análise dos GTs registrados para os Simpósios da ANPEPP mostram que nem todas estas linhas de pesquisa listadas por Seidl e Moncorvo (2006) apresentam-se refletidas nos GTs. Seidl de Moura e Moncorvo (2006) identificaram dentre os 41 GTs inscritos em 2004 para o X Simpósio da ANPEPP, 16 que tratavam de temas ligados ao desenvolvimento humano, dos quais sete tratavam diretamente de questões do desenvolvimento. Seriam estes: contextos sociais e desenvolvimento – aspectos evolutivos e culturais; desenvolvimento e educação na perspectiva sócio-cultural; desenvolvimento humano em situação de risco social e pessoal; interação pais-bebê-criança; os jogos e sua importância em psicologia e educação; psicologia da educação matemática; psicologia e moralidade. Ampliaríamos esta descrição para incluir também o GT: brinquedo, aprendizagem e saúde e pesquisa em psicologia pediátrica.

Findo o XI Simpósio (maio de 2006) fizemos nova análise dos GTs inscritos. Observamos que os grupos de trabalho inscritos no X Simpósio se mantiveram no XI. Observamos também um aumento no número de grupos na área do desenvolvimento com a criação de dois novos grupos: desenvolvimento sócio-cognitivo e da linguagem; e o grupo psicanálise, infância e educação.

A análise dos temas destes GTs mostra ainda uma concentração no temas tradicionais de estudo do desenvolvimento sobretudo o estudo da infância, mostram também, no Brasil, a forte interface entre o desenvolvimento e a educação.

 

4. Considerações finais

Como ressaltamos acima, na entrada do novo milênio os psicólogos do desenvolvimento são confrontados com novos desafios. Estes desafios envolvem, sobretudo, o caráter multidisciplinar dessa disciplina fazendo com que psicólogos do desenvolvimento precisem encontrar uma linguagem que facilite a comunicação entre profissionais de diferentes áreas de atuação (Dessen & Costa Jr, 2005). Este é ainda um desafio que se tenta ultrapassar neste campo de atuação.

As metodologias de estudo tradicionais também têm sido postas em questão. Há um relativo consenso entre pesquisadores desta área de que o desenvolvimento ocorre no contexto. Abordagens sistêmicas chamam a atenção para importância de se considerar os diversos contextos que não só afetam, mas também são afetados pelo desenvolvimento do indivíduo. A análise do contexto histórico em que os indivíduos se desenvolvem também tem sido cada vez mais incorporada na produção de conhecimento nesta área.

O estudo do desenvolvimento que engloba todo o ciclo vital também traz importantes mudanças para o desenvolvimento científico na psicologia do desenvolvimento, mostrando a necessidade de uma discussão mais ampla da metodologia de pesquisa em desenvolvimento humano.

Em conclusão a ampliação da concepção de psicologia do desenvolvimento torna a produção nesta área de atuação bastante importante para elaboração de programas de intervenção na prevenção e promoção de saúde, especialmente nos contextos das práticas de profissionais da área de saúde e da de educação. Traz também com ela a necessidade de avanços metodológicos, para que se possam responder novas perguntas que surgem na medida em que o escopo da psicologia do desenvolvimento se amplia.

No que diz respeito à produção nacional, esta ainda se encontra tímida. Embora haja um interesse cada vez maior no desenvolvimento ao longo do ciclo vital há ainda uma concentração no estudo da infância e da adolescência. Novos caminhos precisam ser delineados para que a produção de conhecimento em desenvolvimento humano no Brasil produza um impacto efetivo no desenvolvimento harmônico da nossa população.

 

Referências

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