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Mulheres de Aquarius

Do filme Aquarius de Kleber Mendonça Filho já se falou muita coisa e trata-se mesmo de um daqueles filmes que rendem boas conversas, como só os bons filmes podem render.
Do muito que há para se dizer, me ocorre que os personagens femininos merecem um capítulo à parte.

Logo de início, vemos o aniversário da tia de setenta anos, querida de todos, retratada por uma atriz cuja sensualidade natural e sem artifícios não escapa à lente. Enquanto está sendo homenageada, as cenas dos encontros sexuais com o amante roubam-lhe a atenção. Ao tomar a palavra, faz questão de lembrar a todos deste homem, com quem nunca casou porque já era casado. Parece pouco, mas como é raro uma mulher representada com tal dignidade no cinema, seja nacional, seja mundial.

A personagem principal, Clara, magnificamente interpretada por Sonia Braga, bem como suas amigas, sua funcionária e sua filha vão marcando seus lugares na história sem condescendência, pieguice ou idealizações. Clara é uma mulher que conjuga o sexo, o amor, as amizades, o trabalho, a maternidade e a cidadania sem concessões.

A hipocrisia sexual, que continua a nos assolar sessenta anos depois da dita revolução dos costumes, não encontra lugar em sua agenda. Tampouco os imperativos do sexo performático, que transformou o proibido em obrigatório, parecem guiá-la. Sabemos como do “não pode” ao “tem que” pouca vantagem se obteve no campo do desejo humano.

As demandas equivocadas e excessivas da filha, contraponto importante aos personagens femininos, tão reconhecíveis nas queixas de pacientes em nossos consultórios, recebem uma resposta exemplar da boca de uma mãe profundamente interessada em seus filhos, mas que sabe o lugar deles. Nem um milímetro além do seu próprio desejo.

As perdas, os limites e os desencontros são encarados com sofrimento, mas sem vitimismo, mesmo quando ela é vítima de verdadeira arbitrariedade. Existe algo que aos sessenta e um anos já se esperaria de uma pessoa, embora pouco se encontre disso a nossa volta.

A concepção lacaniana de posição feminina, para além do sexo (ter nascido homenzinho ou mulherzinha), orientação sexual (ter tesão por aquela, aquele ou ainda aquelx) e gênero (reconhecer-se essa, esse ou essx), supõe um sujeito que não recua diante de seu desejo e cujo gozo está para além da falicidade, embora não escape dela inteiramente. De forma que temos um sujeito inserido na linguagem mas, ainda assim, com acesso ao que está para além da linguagem. Nada disso faz de Clara uma mulher à margem de seu tempo, uma pária. Ela transita pelo diálogo, pelo encontro, embora sua bússola esteja dirigida para outro norte. A cada momento a vemos interrogar a direção de seu desejo em suas hesitações e expressões faciais delicadas e determinadas.

Diferentemente da armadilha histérica, Clara não se escandaliza diante do desejo alheio, porque não se escandaliza diante de seu próprio, fugindo à regra da hipocrisia sexual que nos assola ainda. A forma como ela lida com a suposta provocação do sexo é exemplar neste sentido.

Coerente com tal colocação, Clara marca que a maternidade tão investida não será usada como desculpa para esconder a mulher desejante que sempre foi. Bancará diante da filha seu lugar de mulher, acima do de mãe. Sorte da filha!

Tampouco a personagem encarna na relação com sua doença uma relação de gozo no sofrimento e de submissão. O acontecimento não lhe servirá de apoio para interpretações de um masoquismo tão recorrentemente referido às mulheres. Ela teve uma doença, mas a doença aqui é acontecimento, não lugar subjetivo onde teria escolhido esconder-se da vida.

Os ícones fálicos de nossa época não lhe servem de parâmetro, de forma a não se sensibilizar com a disputa de poder que engendram, ainda que possa usufruir do prestígio social que seu trabalho oferece (reclama da foto dela que não saiu tão bem no jornal, não se priva da presença da funcionária a quem demanda constantemente). Clara sustenta a briga pelo seu desejo e paga o preço por tal, não cedendo ao ideário pragmático que ignora a subjetividade.

Que cada um limpe sua sujeira é o que mostra uma das reações às provocações que ignoram a lógica que move a personagem, tão avessa ao embate por prestigio e dinheiro que nos assola.

Cada relação de Clara é investida e cada perda lhe atravessa, embora não a paralise.

Segue amando, lembrando, trepando...

Obrigada Kleber Mendonça e todos que encamparam este filme, que culminou na construção de personagens femininos tão atuais, no sentido de visionários, quanto ignorados em nossa filmografia. Obrigada, Sonia Braga, por mergulhar tão fundo na verdade de uma personagem que parece ter sido talhada para você.

 


vera iaconelliVera Iaconelli, mestre e doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo, é coordenadora do Instituto Gerar de Psicologia Perinatal, onde realiza curso de formação, desenvolve pesquisa em psicologia perinatal e coordena a clínica social para gestantes e mães de bebês. É membro do Forum do Campo Lacaniano SP, Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, autora do livro "O mal-estar na maternidade (Annablume, 2015) e atua como psicanalista em clínica particular. Mais textos da autora