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Uma série de desejos

Imagine que, ao encontrar amigos e amigas, você decide contar para eles sobre uma experiência interessante que viveu. Pode ser uma viagem, uma festa, uma conquista, o que você preferir. Ao invés de narrar o que aconteceu com suas palavras, você tem a alternativa de selecionar algumas cenas de suas memórias e exibi-las em um telão, como em um vídeo de melhores momentos. Que cenas você desejaria exibir?

Imagine que, com tantas memórias disponíveis, você tenta tomar coragem para conversar com alguma pessoa que te magoou. Caso a pessoa hesite, dizendo que não teve a intenção de te machucar, ou discorde, afirmando que foi você quem entendeu errado a situação, você poderá estrategicamente resgatar o arquivo com a cena e passá-la para que a pessoa possa acompanhar cada detalhe de quais foram as atitudes e palavras que te fizeram mal. Você pode, inclusive, voltar, pausar e repetir quantas vezes forem necessárias. Que situação mal resolvida você desejaria tentar reelaborar?

Falando em situações mal resolvidas, imagine alguém que você evita, que faz o possível para não encontrar, para não terem que conversar novamente. Imagine que você descobre a alternativa de, ao apertar um botão, bloquear a pessoa de um modo que nem você nem ela poderiam se ver ou se ouvir, por tempo indeterminado, até que você acionasse o botão novamente. Vocês não conseguiriam mais interagir entre si, no máximo veriam uma espécie de vulto quando se aproximassem. Há alguém que você desejaria bloquear?

Há pessoas que nos afastamos para nos proteger do quanto a relação pode nos machucar. Há relações em que é a distância que nos machuca. Há momentos, como brigas e separações, que a pessoa de quem mais tentamos nos proteger é também a que mais sentimos saudade. Imagine que os momentos difíceis possam ser deixados de lado. Imagine que você pode ter acesso à voz da pessoa, ao sorriso da pessoa, ao carinho e à companhia da pessoa, mas com frases e gestos das lembranças gostosas, sem riscos de atritos e desentendimentos. Imagine que você pode acionar essa companhia na hora que quiser: em uma tarde monótona de domingo, em uma madrugada solitária. Não significa que vocês voltarão a se encontrar, mas sim, que as boas recordações poderão ser experimentadas novamente, como um agradável passeio ao passado. Quem você desejaria encontrar? O que você desejaria fazer nesse reencontro?

Agora imagine uma situação nova, em um lugar desconhecido, com pessoas com quem você nunca conversou. Trata-se de uma situação estimulante para você, que te desperta, ao mesmo tempo, curiosidades e inseguranças. Uma das preocupações que mais te aflige é se você conseguirá se entrosar ou não no novo ambiente. Imagine que, ao chegar no lugar, antes de se aproximar de alguém, você tem a possibilidade de conferir em um aparelho se a primeira impressão que a pessoa teve ao olhar para você foi boa ou não. Ao ver que foi boa e iniciar uma conversa, você pode checar de novo, acompanhando se ela te considerou uma pessoa interessante ou não. No fim do dia você pode, inclusive, calcular uma média, a partir das avaliações das pessoas com quem você interagiu. Com essa média, pode pensar que pontos interessantes devem ser potencializados e que pontos negativos precisam ser compensados. Se houvesse um aparelho assim, para medir impressões, em que situações você desejaria usar?

Resgatar memórias, reviver bons momentos, impedir encontros indesejáveis, fazer uma auto avaliação contínua para potencializar encontros desejáveis... Como seria se essas fantasias fossem mesmo possíveis?

serie de desejos

Um pesadelo, talvez. Ao menos é o que a série britânica Black Mirror nos leva a pensar. As situações hipotéticas elencadas acima foram inspiradas na série, mais especificamente em quatro episódios da série: The entire history of you, da primeira temporada, que traz questões sobre como lidamos com nossas memórias; Be right back, que mexe com experiências de saudade; White Christmas, em que a possibilidade de evitar alguns encontros faz parte do enredo, ambas da segunda e Nosedive, da terceira, que remete ao impacto que as redes sociais podem ter em nossas vidas.

A série instiga surpresas. Nas palavras do criador Charlie Brooker: “Acho ótimo que ‘Black Mirror’ provoque terror. É disso que se trata”.

Em diferentes análises, as reações de assombro têm sido interpretadas como frutos do impacto de tomarmos consciência dos efeitos que as tecnologias têm em nossas vidas: a necessidade de aprovação suscitada pelas redes sociais, a indiferença alimentada quando as pessoas podem bloquear contatos em apenas um clique, o crescente alcance do controle e da vigilância das experiências privadas. Tais efeitos são problematizados como evidências das consequências destrutivas que a expansão das tecnologias pode ter.

São interpretações interessantes para o desconfortável fascínio que a série provoca. No entanto, enquanto ouço análises assim, me parece que falta algo. Fico me perguntando... Será que a relação entre tecnologias e consequências destrutivas é, assim, tão direta?

Talvez compense trocar as reflexões sobre como os possíveis efeitos das tecnologias nos angustiam para como os possíveis efeitos dos usos que fazemos das tecnologias nos angustiam. Por exemplo, ao invés da indignação com a exigência de sorrisos e sucessos das redes sociais, podemos falar sobre a exigência de sorrisos e sucessos nas formas como usamos as redes sociais. Parece uma troca simples. Mas há uma diferença: na primeira formulação, as tecnologias são agentes, na segunda, mediações.

Por mais perturbador que seja imaginar os avanços tecnológicos nos levando a consequências devastadoras em um futuro próximo, pode ser menos incômodo do que nos enxergarmos e enxergarmos nossos desejos íntimos nas motivações que levam a essas consequências. Black Mirror, explica o criador da série, remete ao momento em que, quando desligamos um aparelho, conseguimos ver nossa imagem na tela escura. É como se a série perguntasse: com os aparelhos desligados, o que vemos?

Penso que um dos elementos que torna Black Mirror uma série tão interessante é esse fato de nos levar a nos depararmos com uma série de desejos. Desejos que não são facilmente admissíveis, que resistimos em nos enxergar.

Nesta relação entre desejos e tecnologias temos, por exemplo, o desejo de aprovação, de reconhecimento (que as curtidas alimentam). O desejo de esquecer preocupações, de evitar o que é difícil (que o bloquear facilita). O desejo de apaziguar a angústia diante do enigma que uma pessoa por quem nos interessamos pode representar, com o conforto de saber sem precisar perguntar (o que a vasta exposição de dados torna possível).

Apesar de esses não serem desejos que dizemos em voz alta, que admitimos abertamente, ou reconhecemos com facilidade para nós mesmos(as), no silêncio de nossos pensamentos, nossas fantasias, diferentemente de nossa coragem, de nosso controle e do alcance que temos com nossas escolhas, não tem limites.

Mais do que aprovação, é possível gananciosamente fantasiarmos com admiração incondicional e irrestrita.

Mais do que ter acesso a memórias que comprovem nossa versão da história, é possível gananciosamente fantasiarmos que o certo é que o modo como percebemos e interpretamos o mundo seja garantido como versão oficial, sem questionamentos nem contrapontos.

Mais do que nunca voltarmos a ouvir a voz e a ver alguém que nos incomoda, ou de termos sempre por perto alguém de quem sentimos saudade, é possível gananciosamente fantasiarmos que tanto as pessoas que amamos quanto as pessoas que odiamos (que, por vezes, são a mesma pessoa) passarão a agir de acordo com o que esperamos, a nos mimar e a satisfazer nossas vontades antes mesmo de pedirmos.

Ser irresistível, ser inesquecível, ser incontestável, ser imprescindível: nossas fantasias não obedecem às regras da sensatez nem do bom senso, tomando direções surpreendentes que ignoram os limites que nosso realismo tenta lhes impor.

“O show não é sobre um alto conceito de histórias de ficção científica, é drama humano em si”, diz Annabel Jones, produtora executiva da série. Referir-se ao drama humano, quando a discussão esquenta ao redor dos poderes das tecnologias, me soa como algo muito convidativo. O que deixamos de notar quando atribuímos às redes sociais, aos aplicativos e aos aparelhos tecnológicos a principal influência nas mudanças em nossas vidas? Penso no drama humano a que Contardo Calligaris se refere no texto Guerras Íntimas:

“Todos nós vivemos, de uma maneira ou de outra, um conflito entre o que desejamos e o que nos permitimos desejar. E é bom que seja assim. Se nos autorizássemos tudo o que queremos, a vida e a convivência social seriam complicadas. Em outras palavras, é normal que a gente navegue num equilíbrio mais ou menos precário entre os desejos que brotam (devaneios, projetos, tesões) e as mil vozes (conscientes ou inconscientes) que nos inibem, que nos pedem procrastinação e desistência ou, simplesmente que propõem escolhas diferentes”.

Desejos não são só aquelas vontades e planos que nos empolgam e que imaginamos que ficaremos contentes quando acontecerem. Desejos também nos assustam, também nos confundem, também nos contrariam. Mesmo nas vontades e planos que voluntariamente aderimos, pode haver motivações ambivalentes e conflituosas que preferimos manter em segredo.

“O indivíduo que devaneia oculta cuidadosamente suas fantasias dos demais, porque sente ter razão para se envergonhar das mesmas”, diz Freud, no inspirador texto sobre Escritores criativos e devaneios. Enquanto a criança, ao brincar, não disfarça diante da presença de outras pessoas suas brincadeiras e brinquedos, nossas relações com  nossas fantasias e devaneios não são assim tão gentis: “O adulto, ao contrário, envergonha-se de suas fantasias, escondendo-as das outras pessoas. Acalenta suas fantasias como seu bem mais íntimo, e em geral preferiria confessar suas faltas do que confiar a outro suas fantasias”.

Se as fantasias são tão escondidas e tão disfarçadas, não apenas de outras pessoas, mas também de si mesmo(a), das censuras e julgamentos da própria consciência, como podemos saber que existem, como podemos conhecê-las? No mesmo texto, Freud lança luz sobre três caminhos de acesso: o brincar infantil, a escuta clínica e as criações artísticas.

A análise sobre ficções é o movimento que tece o livro Psicanálise na Terra no Nunca – Ensaios sobre a Fantasia, de Diana Corso e Mário Coso. Interrogar sobre nossos desejos, segundo os autores, é uma das buscas mais características e instigantes da psicanálise: “O que nós queremos afinal? Quais são nossos anseios mais secretos e íntimos?”. O trecho a seguir me fez pensar sobre os episódios de Black Mirror:

“O que descobrimos é que nem sempre queremos saber deles, pois incluem conteúdos que dificilmente admitiríamos como nossos. Por esta razão, não há contradição entre o sonho ser uma realização de nossos desejos e termos pesadelos: justamente, tememos muitos de nossos desejos, cuja existência é um pesadelo para nós”.

Se Black Mirror nos remete a um pesadelo, pode remeter também a um convite: de reconhecermos os desejos que vemos na tela, por mais incômodos e absurdos que pareçam, como uma parte de nós.

Esse convite ao reconhecimento do que enxergamos me remete às discussões de Maria Rita Kehl no livro Sobre Ética e Psicanálise:

“quem mais, além de mim, pode se responsabilizar por algo que, embora eu não controle, não posso deixar de admitir como parte de mim mesmo? Responsabilidade difícil de assumir, esta – pelo estranho que existe em nós e com o qual não queremos nos identificar”.  

Uma parte de nós que não controlamos, uma parte de nós que não escolhemos, uma parte de nós que deixaríamos de lado se pudéssemos, mas, ainda assim, uma parte de nós.

Reconhecer desejos não é uma escolha que para por aí, no reconhecimento. Há outras escolhas a serem feitas. Há o questionamento sobre o que podemos fazer com essa dimensão que por mais que pareça alheia, nos habita.

O que podemos fazer? Está aí uma resposta que não faria sentido algum insinuar que pode ser construída assim, como uma conclusão de um texto, escrito basicamente a partir de outras questões inconclusivas. No entanto, posso ensaiar uma possível sugestão a partir de mais algumas perguntas: O que vemos em nossos reflexos nas telas (tanto apagadas, quanto ligadas)? O que podemos fazer a partir do que enxergamos? O que podemos fazer ao reconhecermos o que deixamos de enxergar?

 


marcela pastanaMarcela Pastana é psicóloga e mestre em Educação Escolar pela UNESP. Professora do curso de psicologia do IMES-São Manuel. Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisa em Sexualidade, Educação e Cultura- GEPESEC e coordenadora do Grupo de Discussões sobre Sexualidade e Mídia. Coordenadora do Núcleo de Sexualidade e Gênero do CRP/SP - subsede Bauru.
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