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Sobre o que não tem receita (ou sobre a alegria da fome)

Eu queria querer-te amar o amor

Construir-nos dulcíssima prisão

Encontrar a mais justa adequação

Tudo métrica e rima e nunca dor

Mas a vida é real e é de viés

E vê só que cilada o amor me armou

Eu te quero (e não queres) como sou

Não te quero (e não queres) como és

Ah! Bruta flor do querer

Ah! Bruta flor, bruta flor

Caetano Veloso – O Quereres

 

O que fazer para que quem eu gosto também goste de mim?”: recebi a pergunta em um bilhete anônimo, dobrado em vários pedacinhos, com a letra bem pequeninha.

Infelizmente, não sei”, poderia ter respondido, de forma direta e honesta. Não foi o que fiz. Passei a semana pensando na dúvida que li no papel dobradinho. Pensando em como não é uma dúvida nada rara.

Quantas vezes, em silêncio, é essa pergunta ou uma pergunta parecida que move nossos devaneios: “o que fazer para que quem eu gosto também goste de mim?”. Embora frequente, poucas vezes a pergunta é formulada abertamente. Mesmo em bilhetes anônimos, foi a primeira vez que recebi. Ainda mais raro é alguém dizer em voz alta.

Talvez seja a resignação que vem com o tempo: “já que não posso saber ao certo se quem desejo me deseja, deixa para lá”. Não acredito nessa explicação. Tenho a impressão de que deixar para lá está longe de ser o que fazemos.

...

            Imagine como seria se, antes de sentir interesse por alguém pela primeira vez, cada pessoa fosse convidada a participar de uma cerimônia de iniciação, com rituais que teriam como propósito torná-la mais confiante, mais preparada. Durante a cerimônia, seriam entregues alguns recursos elaborados pelas pessoas mais experientes:

  • um dicionário, com os significados de palavras como atração, paixão, amor, admiração, idealização, tesão, excitação, prazer;
  • um manual de instruções sobre como se aproximar e se envolver quando estiver sentindo algo por alguém;
  • um detector de atrações e intenções capaz de identificar se há compatibilidade entre o que é desejado e o que a(s) outra(s) pessoa(s) deseja(m);
  • um controle remoto que agiria sobre as relações como se elas fossem diferentes canais que podem ser trocados de acordo com a vontade do momento, um controle que também teria as funções de ligar, desligar e colocar legendas quando surgissem dificuldades para entender com clareza o que está se passando.

Quantas interrogações, quantas ansiedades, quantas perturbações e quantas frustrações poderiam ser prevenidas caso uma cerimônia assim fosse possível... Por outro lado, se fossem mesmo possíveis tantas definições, instruções e receitas, a dimensão das surpresas tenderia a ser apagada, tornando previsível e programável o que talvez nos encante justamente por ser tão pouco controlável, tão enigmático.

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Se houvesse de fato um dicionário para a consulta de vocabulários referentes aos relacionamentos, acredito que um dos principais desafios seria a definição da palavra “desejo”. Afinal, a indefinição é tão marcante tanto na dinâmica dos desejos entre as pessoas (“quem desejo me deseja? o que deseja quem desejo?”), quanto na dinâmica das relações de cada pessoa desejante com seus próprios desejos (“ah! bruta flor do querer”).

Entre inúmeras indefinições e imprecisões, é possível desejar não desejar; desejar ter desejo pelo que não se deseja; desejar que quem se deseja deseje o mesmo; desejar ter o mesmo desejo de quem te deseja; desejar que o desejo não seja assim, tão emaranhado, tão escorregadio, tão passível de começar a transformar-se justamente quando começamos a acreditar que conseguimos entendê-lo um pouco.

Fácil seria se houvesse um desejo único, uma espécie de essência que nos define, que nos indica um destino para seguirmos. Nem em relação aos desejos amorosos e eróticos, nem em relação aos tantos outros desejos que nos inquietam pela vida, a expectativa de coerência e de revelação de destinos se confirma. São tantas as ambivalências, são tantas as contradições.

A própria possibilidade de desejar alguém já é uma contradição: quando desejo um chocolate, no momento em que tenho o chocolate, mastigando-o, sentindo seu sabor e ingerindo-o, satisfaço minha vontade e o chocolate deixa de existir. Mas pessoas não são assim, como chocolates que podem ser mastigados e engolidos. Quando desejo uma pessoa, não é bem a pessoa que desejo: posso desejar companhia, posso desejar paixão, posso desejar atenção e aprovação, posso desejar amor, posso desejar carinho. Enquanto fome-chocolate é uma relação dual, desejo-alguém implica mais elementos, desejamos o desejo de alguém.  

Por sermos seres desejantes que desejam o desejo de seres também desejantes, o desejo remete ao confronto entre faltas, assim como ao confronto de cada pessoa com sua dimensão faltante.

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Há no desejo algo que move, que instiga, que pode ser inquietante e perturbador, mas também alegre e estimulante. A alegria de desejar pode levar ao desejo de desejar, de persistir desejando. No capítulo Desejo de realidade, Maria Rita Kehl (2000) discute como o desejo de desejar vai para além do desejo de ter o desejo realizado, relacionando esse desejo de desejar ao que chama de “fome de mundo”. Nas palavras da autora:

(. . .) notem que estou relacionando a felicidade ao sentir fome, e não ao sentir saciedade; ainda que eu admita que uma parte, mas só uma parte, da felicidade da fome vem da antecipação da experiência de saciedade, não posso admitir que essa antecipação seja responsável por toda alegria da fome, já que também sabemos por experiência que a saciedade está mais próxima do tédio, de uma certa tristeza, de uma espécie de morte do desejo, do que a fome – e, portanto, a saciedade é sempre também uma decepção. Se a alegria da fome fosse pura antecipação da saciedade, seria a antecipação de uma decepção. Não; a alegria da fome, essa mesma que nos faz dizer “o melhor da festa é esperar por ela”, não é a antecipação da hora em que não teremos mais fome, hora de grau zero da alegria, mas a própria alegria de desejar, de ter desejos e enunciá-los, ou, como se diz, de viver por eles.

Não é na onipotência que está o motor do desejo, como se a alegria de desejar estivesse na capacidade de interferir no mundo de acordo com o que for mais conveniente. Nos deparamos com tantas resistências aos nossos desejos e, ainda assim, desejamos.

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Volto então à pergunta: “O que posso fazer para que quem eu gosto goste também de mim?”. Volto também à ausência de medidas, de fórmulas ou receitas para respondê-la. É angustiante, admito. Sem soluções para propor diante do que angustia, posso comentar sobre como tentamos lidar com ela.

Dissimule. Aja como se não se importasse. Não demonstre interesse. Quem mostra que deseja fica por baixo: dá a impressão de ser carente, iludida, desesperada. Se deseja que quem você deseja te deseje, é preciso agir como se não desejasse”.

Quantos conselhos chegam todos os dias até nós seguindo a direção das instruções acima? Se dão certo ou não, não sei, fico desconfiada. Mas é certo que aplacam um pouco da angústia pelo controle infalível que prometem. Como se o que parece tão indefinido e impreciso pudesse ser facilmente manipulável e programável. Como comenta ironicamente Laura Kipnis, em sua análise sobre a avalanche de dicas, truques e prescrições:

Verifique a prateleira de auto-ajuda em relacionamentos na livraria do seu bairro, seus conselhos do chão ao teto, cada livro com uma lógica interna complicada ou um sistema complexo que em geral envolve questionários de múltipla-escolha, acrônimos, gráficos, bolinhas, complicados algoritmos sobre não aceitar encontros para sábado à noite depois da terça-feira, ou ficar no telefone mais do que a raiz quadrada do número de dias desde a última ligação.

As promessas de truques infalíveis apelam para o nosso desejo de controlar o que parece escapar ao nosso controle. O esforço por controlar vem lado a lado com o esforço por não sofrer, por não se decepcionar, por não correr o risco de frustrações e rejeições. Por trás da aparência de um modelo de sucesso amoroso, o que está sendo propagado é um modelo de autossuficiência, de invulnerabilidade.

O que acaba silenciado com essa forma de lidar com desejos é a própria dimensão desejante. Como diz Maria Rita Kehl: “O reino do fim do desejo. (. . .) o desejo do contato que não se satisfaz no contato porque não agüenta as evidências da falta que o contato traz”.

Se a solução que acreditamos ter para a angústia de desejar é negar o desejo, como então seria possível algum encontro?

Diante do modelo de autossuficiência e invulnerabilidade, o desejo é sempre um incômodo: a imprecisão e imprevisibilidade do desejar é um empecilho muito inconveniente. Mas entre tantos cálculos sobre perdas e ganhos, entre tantas estratégias para negar a falta, o que acabamos negando, na busca por relações, é justamente o que as torna relações: o encontro entre seres que desejam.

...

Quando abri o bilhete com a pergunta: “O que posso fazer para que quem eu goste também goste de mim”, percebi, rapidamente, que qualquer resposta honesta seria frustrante para quem perguntou. Mas evitar frustrações, talvez, seja justamente a armadilha que temos caído acreditando estarmos nos protegendo. Explico: é claro que há amores que não são correspondidos, é claro que há desejos que não são recíprocos, é claro que desilusões machucam. É claro que os relacionamentos são muito mais complicados do que gostaríamos. O que não consigo afirmar tão enfaticamente é algo que tem sido pressuposto nos tantos conselhos sobre dissimulações: que não sejamos capazes de lidar, abertamente, criativamente, honestamente, com os machucados, com os desencaixes, com as frustrações. Será que somos tão frágeis assim que precisamos evitar viver para evitar que a fragilidade se revele? O que há de tão humilhante na fragilidade, para que haja tanto esforço para escondê-la? O que há de tão sedutor no distanciamento, para que tantas dicas de conquista sejam para evitar demonstrar qualquer desejo de aproximação? É assim mesmo que desejamos ser, pessoas distantes o suficiente para fingirem que não têm fragilidades? É isso mesmo que estamos aprendendo a fazer para não nos fragilizarmos?

Enfim, quantas outras perguntas poderiam ainda ser feitas. Ou evitadas, caso a frustração nos pareça mesmo tão ameaçadora. Prefiro a primeira opção, que dá mais espaço para a alegria de desejar, a “fome de mundo”, como nomeou Maria Rita Kehl. E é pensando na “fome de mundo” que escolho um trecho para concluir o texto:

Eu não gosto do bom gosto, não gosto de bom senso,

não gosto dos bons modos, não gosto (. . .).

Eu gosto dos que têm fome, dos que morrem de vontade,

dos que secam de desejo, dos que ardem.

Adriana Calconhoto – Senhas