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A adolescência que persiste conosco

Adolescência em cartaz

No livro Adolescência em cartaz: filmes e psicanálise para entendê-la, Diana Corso e Mário Corso (2017) fazem um convite: mais do que pensarmos sobre a adolescência por meio de definições ou explicações, a proposta é revisitarmos nossas adolescências: percorrermos tanto as recordações que guardamos e sorrimos ao lembrar, quanto os conflitos e perturbações que preferimos esquecer. Quantas questões nos empenhamos em deixar para lá, agindo como se não tivessem acontecido, como se não continuassem,  inevitavelmente, a nos acompanhar? 

Não é a uma faixa etária que os autores se referem, mas sim, à adolescência enquanto um processo psíquico. Trata-se de um incentivo, portanto, às pessoas que estiverem interessadas “em entrar no túnel do tempo e voltar a paisagens marcantes de sua vida” (Corso; Corso, 2017, p. 14), considerando como “A adolescência segue conosco porque dali provém nossos sonhos, traumas, assombros e memórias de experiências inigualáveis” (p. 15).

            Angústia sobre o que seria ou não possível, amores imaginados, amores vividos, amores frustrados, confusões entre impulsividades e inibições, entre ousadias e ausência de coragem, sonhos ambiciosos acompanhados por uma feroz autocrítica sempre a postos para mobilizar as mais incômodas inseguranças.

            O passado não fica no passado: o que sentimos e o que nos esforçamos para não sentir, o que fantasiamos o que tememos permanecem vivos, nos lançam questões, nos avisam que nunca há sonhos abandonados de fato. 

            Desde os piores medos: “de ser insignificante, invisível” (p. 62), aos mais preciosos desafios, como “a conquista de laços com outras pessoas, juntas das quais possamos sentir que existimos no mundo” (p. 73), desde as dúvidas e ansiedades em relação às mudanças no corpo, chegando aos momentos e sensações prazerosas: “as alegrias do convívio, os devaneios da paixão, assim como alguns momentos de euforia nem sempre explicáveis” (p. 80).

            Como traduzir tantos sentimentos novos? Como buscar algo que reconforte em meio a tantas turbulências? Como não desmontar ao se deparar com a própria fragilidade? Como reagir diante dos enigmas que desejar alguém suscita?  Como reencontrar sentido diante de tantas mudanças inesperadas?

O caminho mais fácil é fugir? Mas fugir como? Se a escolha for enfrentar, enfrentar como? Em meio a tantas questões sem respostas precisas ou fórmulas seguras, os autores apresentam uma recomendação possível: “Quanto mais rico o acervo de experiências culturais, mais intrumentos o jovem terá para compreender a si e aos outros” (p. 91). 

Sem dúvidas o tema que perpassa todo o livro é o dos vínculos, de como são os vínculos significativos que tornam a adolescência – e a vida – dotada de sentido e de motivação para ser vivida. São os vínculos significativos que nos formam, que nos transformam, nesse sentido seremos sempre adolescentes que “precisam de amigos e amores como de oxigênio” (p. 213).

Não que os vínculos sejam sempre calmos e confotáveis, ao contrário. Ainda mais quando “sentimos como nunca o perigo de que as partes trincadas de nosso imaturo esqueleto emocional se tornem fraturas expostas” (p. 232). Mas a ansiedade, ainda que seja muito incômoda, não é sempre paralisante, pode ser o que move – ou mesmo empurra – para experiências interessantes.

Quando pensei que não seria possível gostar mais do livro do que já estava gostando, me deparo com uma defesa sensível e inspiradora da importância da educação sexual:

“Quanto às escolas, quando há alguma educação sexual, raramente envolve algum tipo de debate livre. Qualquer discussão será barrada por um clima de vergonha e tabus, dificilmente orientada pelas verdadeiras curiosidades de cada faixa etária. O tom costuma combinar acima de tudo com as fantasias que os adultos projetam sobre os pequenos e os jovens. Já o esclarecimento, sempre bem-vindo, restringe-se à fisiologia e anatomia do sexo e da reprodução. Não está mal, ao contrário, devemos estar muito informados desde o mais cedo possível sobre nosso corpo, assim como sobre as peculiaridades anatômicas e fisiológicas de cada sexo e sua maturação, sobre como se dá a fecundação, bem como sobre quais  são os perigos das doenças sexualmente transmissíveis.

Ao par dessas informações imprescindíveis, há muito mais do que falar: estão os temores relativos a ser ou não desejável, quanto a ser capaz de sentir prazer e como isso se faz, sente e expressa. As inseguranças quanto ao desempenho nessa intimidade tão sobrecarregada de expectativas públicas são tantas quanto ignoradas [...]”(Corso; Corso, 2017, p. 367-368).

Entre os filmes que inspiram as análises sobre a adolescência estão: Juventude transviada (com a discussão sobre o conflito de gerações);Aos treze (com questões como as mudanças da puberdade, a relação com o corpo e os distúrbios alimentares); As vantagens de ser invisível (com reflexões sobre os desafios da socialização); Juno (sobre gravidez na adolescência); Azul é a cor mais quente (sobre o reconhecimento acerca da orientação sexual na adolescência); (500) dias com ela (sobre as transformações que acontecem com as experiências e rupturas amorosas) e ainda um ensaio sobre as influências da internet, das redes sociais, dos jogos e da pornografia nas experiências de adolescentes hoje.