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Sexualidade, gênero e materiais educativos: Sugestões para projetos com adolescentes

“Eu nunca tinha pensado sobre isso!”: quando realizo projetos sobre sexualidade, essa é uma das minhas frases favoritas. Muitas vezes a própria proposta de falar sobre sexualidade já gera reações de surpresa, considerando o quanto temas como corpos, desejos, fantasias, práticas e prazeres sexuais são constantemente cercados por censuras e tabus, já que é frequente que seja intenso o aprendizado de que as expressões de curiosidades e interesses devem ser inibidas, evitadas, silenciadas. É comum que, no início de um projeto, emerjam reações como resistências, desconfortos, culpas, vergonhas, que evidenciam como são marcantes essas trajetórias de aprendizado sobre a sexualidade como uma questão proibida. Favorecer os vínculos e a confiança para que as associações negativas possam dar lugar a associação da sexualidade com direitos como o direito às informações, aos conhecimento, à saúde, ao prazer e à expressividade é um movimento necessário e muito gratificante.

Construir espaços de diálogo, em que adolescentes (e outros(as) participantes também) possam perguntar, receber informações, esclarecer dúvidas, desmistificar concepções distorcidas, compartilhar ideias, opiniões, experiências e problematizar estereótipos e preconceitos é mesmo um processo que nos leva a pensar sobre questões que, embora muito presentes em nossas vidas, raramente são tomadas como foco de atenção, de reflexão, de conversas, em que tanto os interesses quanto as ansiedades, tanto os desejos quanto as inseguranças, tanto assuntos conhecidos quanto assuntos desconhecidos podem ser falados em voz alta, ouvidos e valorizados como importantes.

Por apostar no quanto podem ser estimulantes e construtivos os espaços de diálogo, pensei que seria interessante reunir algumas sugestões de materiais que podem ser usados em abordagens educativas sobre sexualidade e gênero com adolescentes, para quem já desenvolve ou gostaria de desenvolver projetos na área. São materiais com objetivos e formatos diferentes, que, usados um de cada vez ou combinados, podem render atividades e discussões muito estimulantes.

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Adolescência, puberdade, corpos, prazeres, práticas sexuais, relacionamentos, direitos sexuais e reprodutivos, saúde sexual e reprodutiva, orientações sexuais e identidades de gênero, valorização das diferenças, enfrentamento às diversas formas de preconceitos e violências: são muitos os temas que podem ser abordados em um projeto sobre sexualidade e gênero.

Para quem está em dúvida sobre como começar, sugiro o material Cá entre Nós: Guia de Educação Integral em Sexualidade entre Jovens, organizado pela UNESCO, que apresenta possibilidades de temas em uma sequência que considero bem interessante e os nomes dados para cada módulo são também bem representativos de uma proposta que valorize a sexualidade e o gênero em suas múltiplas expressões. Os módulos são: 1) Adolescências no plural; 2) Muitos jeitos de ser homem e de ser mulheres; 3) Desejos e prazeres: Todo mundo tem!; 4) A delícia de ser quem você é; 5) Estou preparada para ser mãe? Estou preparado para ser pai?; 6) Prevenção é tudo de bom; 7) A violência que rola no cotidiano; 8) Adolescentes e seus direitos e 9) Vamos mudar o mundo?

Cá entre nós

Cada módulo conta com uma lista de mitos a serem desconstruídos, acompanhados por explicações sobre as questões problematizadas. Há mitos sobre a adolescência (por exemplo: “Adolescentes são inconsequentes, egoístas e preguiçosos); sobre gênero (“Os homens já nascem violentos”); sobre masturbação (“Meninas não se masturbam”); sobre diversidade sexual (“A homossexualidade e a bissexualidade são doenças e precisam de tratamento psiquiátrico ou psicológico”); sobre métodos contraceptivos (“O coito interrompido, também conhecido como tirar fora, é um método seguro para não engravidar”); sobre o HIV e a aids (“Beijo na boca transmite o HIV) e sobre bullying (“O bullying é uma simples provocação).

O material traz também sugestões para diferentes jogos: há um caça-palavras com as mudanças da puberdade; um jogo da forca sobre os órgãos sexuais internos e externos; uma cruzadinha sobre os métodos contraceptivos; um bingo sobre as doenças sexualmente transmissíveis; um jogo da memória sobre igualdade de gênero, com peças em que garotos e garotas desempenham as mesmas atividades e uma batalha naval sobre os direitos das crianças e dos(as) adolescentes.

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Em termos de variedade e embasamento dos conteúdos abordados e da organização das atividades sugeridas, gosto muito dos materiais do programa Saúde e Prevenção nas Escolas, um programa conduzido pelo Ministério da Saúde e o Ministério da Educação que tem como base a valorização da participação de adolescentes nos processos de promoção de saúde, com ênfase para os campos da saúde sexual e reprodutiva. No site estão disponíveis os materiais do programa, diferentes fascículos que contam com propostas de oficinas (com a descrição dos objetivos, do tempo e dos materiais necessários, os procedimentos para a realização de cada oficina e uma lista de questões a serem trabalhadas a partir das oficinas realizadas), além de textos de apoio para a abordagens sobre temas diversos.

A coleção Adolescentes e Jovens para a Educação entre os Pares conta com fascículos sobre Adolescência, juventude e participação social; Saúde sexual e reprodutiva; Gêneros e Diversidades Sexuais.

           Saúde e Prevenção nas Escolas

O fascículo sobre Adolescência, juventude e participação social tem início com informações sobre a construção histórica dos conceitos de adolescência e juventude, com a abordagem sobre como não há um modelo único que contemple as diversas identidades e experiências, de forma que torna-se mais frutífero utilizar os termos no plural: adolescências e juventudes. São problematizadas as representações predominantes nos meios de comunicação, com a indicação de que é necessário valorizar adolescentes e jovens como sujeitos ativos, com autonomia para realizar as próprias escolhas e refletir sobre as próprias concepções e valores. A primeira oficina tem como tema “A delícia de ser quem somos” e como objetivo favorecer a identificação e a valorização das diferenças. As outras oficinas abordam temas como experiências escolares; saúde e participação política (com informações sobre a Constituição, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Secretaria Nacional da Juventude e outras questões referentes aos direitos e às políticas públicas voltadas para adolescentes e jovens).

No fascículo sobre Sexualidades e saúde reprodutiva a questão da sexualidade como um conceito amplo é abordada por meio de oficinas sobre relacionamentos afetivos e sexuais (amizades, paquera, ficar, namorar, entre outros); sobre tomada de decisão (com sugestões de situações a serem trabalhadas e textos de apoio sobre fatores que facilitam e dificultam os processos de escolha); sobre gravidez na adolescência; métodos contraceptivos e direitos sexuais e reprodutivos. Algumas oficinas são acompanhadas também por sugestões de músicas ou poesias.

Diferentes configurações familiares; estereótipos frequentes na mídia; padrões relacionados à sexualidade e à saúde e enfrentamento às diferentes formas de violência são alguns dos temas abordados no fascículo sobre Gêneros, que abrange a defesa da igualdade de direitos entre homens e mulheres e a reflexão sobre como os padrões desiguais dificultam que a violência seja prevenida, combatida e mesmo reconhecida por quem a sofre.

“Sexualidade e sexo são diferentes? Quem nasce com um pênis pensará e agirá como um homem? Quem nasce com uma vagina pensará e agirá como uma mulher? Todos os homens têm o mesmo jeito de ser masculino? Todas as mulheres têm o mesmo jeito de ser feminino? O sexo biológico determina por quem vou sentir desejo sexual? A pluralidade e a diversidade humana também se aplicam à forma como nos relacionamos afetiva e sexualmente?”: as perguntas elencadas são respondidas no fascículo sobre Diversidades sexuais, que aborda, no decorrer das oficinas, questões como a importância da valorização das diferenças; explicações sobre conceitos como identidade de gênero e orientação sexual e a busca pela igualdade de direitos e pelo enfrentamento às muitas formas de violência, discriminação e preconceito vividos por pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais pela intolerância às expressões que destoam dos modelos normativos de sexualidade e gênero.

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Igualdade de gênero; diversidade sexual; a Lei Maria da Penha e o enfrentamento à violência contra as mulheres; prevenção da violência sexual; gravidez na adolescência; métodos contraceptivos e cuidados com a saúde sexual são alguns dos temas abordados no material Direitos Sexuais São Direitos Humanos: Cartilha para Adolescentes e Jovens, produzido pelo Programa Proteger é Preciso, que traz em linguagem acessível e didática a relação entre sexualidade, gênero e direitos.

Direitos sexuais são direitos humanos

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Direitos Sexuais, Direitos Reprodutivos e Métodos Contraceptivos é um material produzido pelo Ministério da Saúde. Com base em direitos como “viver plenamente a sexualidade sem medo, vergonha, culpa e falsas crenças”; “direito ao sexo seguro para a prevenção da gravidez não planejada, de doenças sexualmente transmissíveis e do HIV/aids” e “direito à informação e à educação sexual e reprodutiva”, são trazidas informações acompanhadas por ilustrações sobre o corpo (com descrições sobre diferentes órgãos como vulva, clitóris, períneo, seios, vagina, trompas, ovários, útero; pênis, bolsa escrotal, testículos, canais deferentes, vesículas seminais, próstata, uretra, glândulas bulbouretrais); sobre a fecundação; sobre anticoncepcionais (como pílulas anticoncepcionais, injeções anticoncepcionais, camisinha masculina, camisinha feminina, diafragma, espermicida, dispositivo intrauterino, pílula anticoncepcional de emergência), com instruções sobre as formas de acesso e modos de utilização. Considero um material interessante principalmente pela qualidade das imagens que são acompanhadas de explicações detalhadas.

Direitos sexuais direitos reprodutivos e métodos anticoncepcionais

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Além das diferentes cartilhas e materiais educativos, sugiro também o site da Revista Capitolina, uma revista online para garotas adolescentes que visa se contrapor às formas estereotipadas e normativas em como a adolescência é predominantemente representada na mídia.

No site há textos que podem contribuir para a promoção do diálogo e da reflexão sobre diferentes temas. Posso mencionar algumas matérias como exemplo: Sexo, preliminares e prazer, que fala sobre como não há um modelo único para as experiências sexuais, são múltiplas e variadas as formas de cada pessoa buscar conhecer o que gosta; Desvendando mitos sobre sexo, que aborda questões como desejo sexual, masturbação, virgindade, prevenção e a importância do consentimento; Desmistificando a menstruação, com uma visão crítica sobre como o aprendizado das garotas e das mulheres sobre o próprio corpo é muitas vezes marcado por silenciamentos, cobranças e sensações como culpa e vergonha, além de informações sobre o ciclo menstrual, sobre os usos de absorventes e do coletor menstrual; Expectativa x realidade: pornografia, com a discussão sobre como há a invisibilização do desejo sexual das garotas mulheres e consequentemente da curiosidade por materiais pornográficos, assim como a problematização de como muitos materiais são marcados por representações estereotipadas e machistas sobre as mulheres e sobre o sexo; Filmes românticos e como nos afetam, que problematiza a representação do amor como algo que dá sentido à existência, que completa, que salva, a partir da discussão sobre os ideais transmitidos em filmes; As tais borboletas no estômago, sobre experiências de apaixonamento, também com a problematização de ideias como alma gêmea e amor como chave para a felicidade; Homossexualidade e bissexualidade na adolescência, com a reflexão sobre a força dos padrões em como aprendemos sobre o que é o amor e sobre como devem ser os relacionamentos, acompanhada por exemplos de como foram as experiências de garotas com outras garotas na adolescência; Despatologizando identidades trans, com esclarecimentos sobre identidade de gênero e sobre direitos de pessoas transexuais; Não somos da cor do pecado, sobre concepções racistas acerca da sexualidade das mulheres negras e expressões discriminatórias que são utilizadas com frequência e o teor de violência que carregam e Relacionamentos abusivos, com a definição de diferentes formas de violência e a defesa da importância de reconhecê-las e enfrentá-las.

Revista Capitolina

Valorizar a multiplicidade de experiências a partir da atenção a como as experiências vividas são singulares e não podem ser reduzidas a padrões, estereótipos e generalizações é um movimento recorrente nas matérias da Capitolina. Outro material interessante que também parte dessa compreensão são as ilustrações de Carol Rosseti, com exemplos diversos que podem ser usados como ponto de partida para a discussão de muitos temas, como é possível notar nas imagens a seguir:

1 Carol Rosseti

2Carol Rosseti

Como disse anteriormente, os projetos sobre sexualidade e gênero são espaços férteis para a transmissão de informações, para o esclarecimento de dúvidas, para o compartilhamento de experiências e também para o questionamento da normatividade, a problematização de preconceitos, a prevenção e o enfrentamento à violência, além de contribuírem para uma compreensão mais abrangente, crítica e reflexiva sobre os temas trabalhados. Como forma de concluir, cito um trecho de Deborah Britzman no texto Curiosidade, Sexualidade e Currículo, que sintetiza aspectos que considero muito estimulantes para quem desenvolve ou pensa em começar a desenvolver propostas nesta área:

“Na verdade, tudo o que temos que fazer é imaginar (...) O modelo de educação sexual que tenho em mente está mais próximo de discussões surpreendentes e interessantes, pois quando nos envolvemos em atividades que desafiam nossa imaginação, que nos propiciam questões para refletir (...) nós sempre temos algo mais a fazer, algo mais a pensar”.

 


marcela pastanaMarcela Pastana é psicóloga e mestre em Educação Escolar pela UNESP. Professora do curso de psicologia do IMES-São Manuel. Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisa em Sexualidade, Educação e Cultura- GEPESEC e coordenadora do Grupo de Discussões sobre Sexualidade e Mídia. Coordenadora do Núcleo de Sexualidade e Gênero do CRP/SP - subsede Bauru.
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