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Que liberdades?

A liberdade sexual como um valor é fruto de um processo histórico marcado por reivindicações políticas, por mobilizações em busca da igualdade de direitos e por transformações nas relações.

No entanto, não há apenas um sentido para a palavra “liberdade”, sendo importante reconhecermos como além de ser um termo denso politicamente, é também um termo denso e que recebe centralidade nos apelos mercadológicos. A “liberdade” enquanto “liberdade para consumir” recebe muita ênfase na constante incitação publicitária à busca por prazeres, à construção de estilos de vida e na construção de modelos idealizados de identidades e experiências que incluem as relações afetivas e as relações sexuais.

Em termos mercadológicos, o foco recai principalmente na ideia de “liberdade” enquanto um mérito individual. Ser “livre” é ser capaz de ir além de restrições, ser capaz de fruir sem limites. É forte também o apelo à competitividade: ser “livre” é algo a ser ostentado, algo que pode fazer com a que pessoa se destaque, se sobressaia, como mais feliz, mais saudável e mais realizada na contínua concorrência que atravessa o modo como as relações com outras pessoas são representadas.

Um exemplo é como a atratividade sexual é situada como fonte de status: a possibilidade de despertar desejo é uma medida do quanto a pessoa poderá ser reconhecida, valorizada e também invejada.

Não sentir-se livre ou, ao menos, não aparentar sentir-se livre é algo associado ao risco de ser visto(a) como frágil, de ser inferiorizado(a). Segundo a mesma armadilha, para poder ser visto(a) como alguém livre sexualmente, é necessário corresponder a determinados modelos de atratividade, de beleza, de desempenho.

Assim como na ideia de “livre escolha” para o mercado, a ideia de “livre escolha” nos relacionamentos é pautada por ideias como escassez e abundância. Diante da noção de liberdade como liberdade de escolher entre inúmeras possibilidades, torna-se importante a problematização sobre as condições de escolha e também sobre o que é tido como possibilidade.

“(...) o conceito de liberdade tal como ele nos chega hoje é um conceito mutilado (...)”, afirma Vladimir Safatle (2018). Por que mutilado?

Atualmente, o conceito hegemônico de liberdade é diretamente vinculado à noção de autonomia, sendo a autonomia definida como a o que é exercido por alguém que é capaz de dar para si mesmo(a) sua própria lei, de agir conforme a própria lei que é determinada para si mesmo(a).

Ser livre e ser autônomo (a), corresponderia, portanto, a ser capaz de escolher, ser capaz de exercer a própria vontade nas próprias escolhas, ser capaz de planejar a partir das próprias intenções e organizar as próprias ações de acordo com as próprias deliberações.

Ser livre corresponderia, assim, a uma propriedade de alguém que se apropria das próprias vontades e age de forma apropriada conforme as próprias intenções.

 A repetição do termo “próprio” e suas derivações nos últimos parágrafos foi proposital, em referência a como a ideia de liberdade no pensamento liberal é diretamente vinculada à ideia de propriedade, de algo que é próprio a ser exercido, de algo que é próprio a ser gerido e protegido.

 Se ser livre é ser livre para exercer uma vontade que me é própria; se a liberdade é uma espécie de propriedade a ser gerida e protegida, as práticas de liberdade são, fundamentalmente, práticas de controle. Controlo, em mim, minhas vontades, considerando que há vontades que quero ter mas que há também vontades que não quero ter. Podemos separar então as vontades entre vontades de primeiro nível (as que experimento) e de segundo nível (as que escolho).

Há desejos, impulsos, inclinações que, por não corresponderem às minhas intenções e determinações, deve inibir, devo submeter, devo conter. Há uma hierarquia não só entre o que eu quero e o que eu não quero, mas entre o que eu quero querer e o que eu não quero querer. Tal exercício de hierarquização entre o que não queremos querer e o que queremos querer corresponde ao exercício de autocontrole. 

Compensa retomarmos: se ser livre é ser livre para exercer uma vontade que me é própria, se a liberdade é uma espécie de propriedade a ser gerida e protegida, as práticas de liberdade são, fundamentalmente, práticas de controle. Práticas de controle exercidas, fundamentalmente, como práticas de autocontrole.

Chegamos, assim, a uma compreensão em que o que define ser livre é o controle. Como afirma Safatle (2018, s/p): “Por que eu insisto nisso? Porque talvez nós estejamos muito presos a uma certa concepção de autonomia que, ao invés de ser na verdade a expressão de um sinal de liberdade, é na verdade a expressão mais acabada de uma experiência de servidão”.

Por que servidão? Porque ao enunciarmos nossas vontades como próprias, como se houvesse uma causalidade decorrente de uma vontade pura, de uma vontade autônoma capaz de determinar nossas intenções e ações, silenciamos o nível de tudo o que nos influencia e nos impulsiona mas que não cabe na definição de uma vontade própria.

Silenciamos tudo o que ao invés de nos determinar e nos definir, nos indefine, nos indetermina, que é justamente o nível dos afetos que circulam em nossas relações.

Somos seres que se relacionam, somos seres que afetam e são afetados(as) nessas relações de formas que escapam ao que somos capazes de controlar, ou mesmo do que somos capazes de conhecer e compreender, somos afetados(as) pelo que, nas nossas experiências e relações, nos desapropria.

Seria possível construirmos uma concepção de liberdade que não tenha como base noções como propriedade, controle, subordinação e domínio, mas sim, uma concepção de liberdade que possa abranger o que nos desapropria, o que nos despossui, uma abertura o que não dominamos, o que não controlamos?

Safatle (2018, s/p) sugere pensarmos sobre a liberdade em um sentido bem diferente, considerando a possibilidade de ser “(...) exatamente essa capacidade que eu tenho de me reconhecer no que é involuntário que é na verdade a figura maior da minha liberdade”.

A centralidade dada à vontade própria, à vontade autônoma, consolida um medo a tudo o que é indeterminado, a tudo o que é involuntário, como se o que não fosse uma determinação nossa nos ameaçasse. Se tudo o que não podemos controlar e determinar é ameaçador, se relacionar se torna algo periogoso. O que sentimos em nossas relações se torna perigoso, como se fosse prejudicial, fragilizador.    

Como seres relacionais e desejantes, não temos controle dos afetos que circulam em nossas relações, não temos controle do que move nossos desejos, do que nos move. Nossos desejos, além disso, não são exatamente nossos, já que ganham vida e nos dão vida justamente por como circulam em nossas relações.

Desde o início de nossas vidas, não podemos escolher o que nos impressionará, nem como essas impressões serão registradas, traduzidas. Começamos a existir e existimos a partir de uma radical impressionabilidade, uma radical receptividade, anteriores a qualquer possibilidade de escolha, de deliberação. Ainda que alguns controles sejam desenvolvidos, nossas sensibilidades nunca serão completamente articuladas ao que podemos controlar. Também nunca são completamente nossas: a sensibilidade é sempre em direção ao(à) outro(a), é sempre receptividade ao(à) outro(a).

A sensibilidade não é uma posse, o corpo vivido, o corpo sensível, não é uma posse.

Por nos compreendermos enquanto individualidades distintas entre si capazes do exercício de uma liberdade também individual, há um intenso investimento em concepções normativas sobre quem somos e sobre quem podemos ser, sobre como desejamos e sobre como devemos desejar. Embora tais noções de individualidade sejam tão cristalizadas, as expectativas de unicidade e coerência são com frequência contrariadas. Por como somos desejantes, há muito que nos surpreende, há muito que nos escapa.

Uma questão necessária, portanto, consiste em imaginarmos como seria se conseguíssemos deixar de lado a noção de sexualidade como um lugar de verdade fixo e estável e nos voltássemos para como os sentimentos, desejos e expressões sexuais nos movem em direções inesperadas, nos desestabilizam. Ao invés de persistirmos na ideia da sexualidade como um centro, pensarmos sobre o quanto a sexualidade é o que nos descentra.

Uma compreensão relacional sobre a liberdade pode levar também a uma compreensão relacional sobre a sexualidade e sobre o prazer, sem que a valorização do prazer seja vista como sinônimo de uma valorização do controle individual.