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Entre prazeres

 

Enquanto em outros momentos históricos foi predominante a noção do prazer como sorte, como algo derivado da combinação aleatória de fatores imprevisíveis e incontroláveis, recentemente passamos para uma noção cada vez mais ressaltada do prazer como mérito, como fruto de esforços e competências.

            Há a transmissão contínua de mensagens sobre como tudo é possível, nada impede que as pessoas vivam como desejam, desde que se concentrem, se motivem, se dediquem. Caso se deparem com situações de fracasso, os desânimos e frustrações devem ser interpretados como falhas, como fraquezas individuais. O que importa é a determinação, a força de vontade, a disposição permanente para a superação.

            Da noção do prazer como mérito se desdobra a noção do prazer como condição para o sucesso: pessoas que trabalham com prazer seriam mais produtivas; pessoas que estudam com prazer aprenderiam mais; o prazer nas relações afetivas, principalmente o prazer sexual, seria uma espécie de termômetro para os níveis de intimidade e satisfação dos casais; o prazer nas atividades do dia-a-dia seria condição básica para a realização pessoal e para uma vida saudável.

            Administrar a vida de forma competente associa-se, portanto, ao controle: controle para manter-se emocionalmente forte; controle dos próprios pensamentos para estar sempre otimista; controle para minimizar os sofrimentos; controle para potencializar as performances; controla da imagem de si que é transmitida, uma imagem que deve reforçar a impressão de satisfação, de sucesso. A felicidade torna-se, assim, algo a ser exibido, ostentado.

Aprimorar-se, transformar-se, reinventar-se: quando a abertura a múltiplas possibilidades de fruição, de conquista e de sucesso tomam o lugar da norma a ser alcançada, os sofrimentos predominantes deixam de ser a culpa ou a vergonha pelos julgamentos negativos diante do que se fez e passam a ser a insegurança e a insuficiência pelos julgamentos negativos diante do que não de fez, do que não foi possível ser feito, por como os ideais transmitidos continuamente carregam a mensagem de que querer é poder, de que tudo é possível.

No lugar de cobranças por contenções e inibições, exigentes expectativas de iniciativa e ação. O controle de si passa a ser acionado não como meio de restringir-se, mas de expandir-se, de recriar-se, como se a mais importante tarefa a ser cumprida fosse conquistar para si a vida feliz, realiza e bem-sucedida que se sonha ter. Mas como nem tudo está ao nosso alcance, é justamente na distância entre o que se idealiza e o que pode ser concretizado que as ansiedades, frustrações e sensações de inadequação proliferam.

Há a exaltação de prazeres, sim, mas que não é acompanhada por condições de experiências e de relações que de fato potencializem ou mesmo viabilizem que os prazeres possam ser buscados, possam ser vividos. Entre as condições com que nos deparamos com uma significativa precariedade estão as condições de sociabilidade, em que ao invés do reconhecimento da importância da alteridade para a construção de sentidos em como somos e como vivemos, cada um(a) com que nos relacionamos tende a ser visto(a) em uma perspectiva individualizante, culpabilizadora e competitiva. Sentir torna-se uma ameaça a ser evitada por como nossas sensibilidades e vulnerabilidades são transmitidas como indícios de fraqueza, de inferioridade.

            Quando os prazeres que ganham centralidade são prazeres que devemos experimentar em comparação com outras pessoas que sentem menos prazeres, em busca pela aprovação – e pela invejar – do olhar das outras pessoas que interpretamos como concorrentes, prazeres que devemos experimentar não com pessoas com quem nos importamos e que tornam nossas vidas mais vivas, mas apesar delas, ou mesmo em detrimento delas, já que relacionar-se envolve dedicação, abertura, atenção e sensibilidade, elementos considerados dispendiosos e arriscados demais para serem valorizados como prazerosos.

            Com a pressa e a pressão para que o bem-estar seja garantido e as perturbações sejam eliminadas, são os sentidos que se esvaziam, é o movimento de elaborar e apropriar-se do vivido que se esgota, já que as possibilidades de criação de significados tornam-se desprovidas de sua principal matéria-prima: a imaginação desejante.