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Entre pertencimentos e transgressões

Minha principal área de atuação são os grupos de educação sexual com adolescentes. As atividades envolvem, principalmente, a construção de um espaço de diálogo em que possam expressar as próprias ideias, colocar e esclarecer dúvidas, discutir sobre assuntos que escolhem como importantes e compartilhar experiências.

Entre os assuntos que consideram importantes e as experiências que compartilham, está a presença das bebidas alcoólicas nos momentos de lazer e sociabilidade, inclusive a associação entre o álcool e as expectativas de facilitação da paquera, da desinibição, das demonstrações de interesse, das aproxinações e envolvimentos entre pessoas que se sentem atraídas entre si.

Escolhi, como tema para a minha pesquisa de doutorado, a associação entre sexualidade e bebidas alcoólicas, considerando também essa possibilidade de inserção do tema em atuações com adolescentes.

Me deparo assim, constantemente, com expectativas e concepções contraditórias: seriam as experiências de consumo de álcool entre adolescentes experiências de socialização, de integração, de diversão e fruição prazerosa ou seriam experiências de perigo, motivos de preocupação, pelo caráter transgressivo e pelas possíveis consequências prejudiciais que as acompanham? Sem dúvidas não há uma resposta simples, mas também não há sentido em explicações que se restringem a uma das versões polarizadas. Torna-se necessária a atenção, assim, para múltiplas questões...   

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O que significa ser adolescente? Quanto tempo dura a adolescência? Quando a transição da infância para a adolescência acontece? E a transição da adolescência para a vida adulta? Como são definidas essas transições?

No livro A adolescência, Contardo Calligaris (2000) discute como enquanto em outras culturas há ritos de iniciação, momentos que marcam a passagem para a vida adulta por meio de práticas culturalmente estabelecidas como provas a serem cumpridas e celebrações coletivas para demarcar a transição, no contexto que vivemos não há ritualizações, comemorações nem definições precisas sobre quando a maturidade será reconhecida e legitimada.

Calligaris (2000) nos convida a imaginarmos como seria se, ao sofrermos um acidente de avião, caíssemos em uma tribo desconhecida. A tribo tem uma língua própria e se organiza principalmente em torno de duas atividades: a pesca com arpão e as serenatas com berimbau. Após cerca de 12 anos vivendo na tribo, aprendemos a pescar, a tocar e a falar a língua corretamente. Entretanto, ao tentarmos exercer nossas habilidades, recebemos um aviso: apesar de termos domínio do que nos ensinaram, 12 anos não é suficiente, precisaremos nos preparar mais, esperar para podermos ser parte do grupo. Essa espera seria uma espécie de proteção, de cuidado conosco, e não teria uma duração certa, por volta de 10 anos, talvez. Como nos sentiríamos?

A suspensão de tempo colocada pela tribo que impede que os(as) habitantes participem exercendo as habilidades que aprenderam é utilizada por Calligaris (2000) como comparação ao que vivem os(as) adolescentes em nossa cultura: após passarem a infância aprendendo sobre as condições consideradas próprias da vida adulta, como a inserção profissional e a possibilidade de relacionar-se afetivamente e sexualmente, ao alcançarem, com a puberdade, a maturidade física tanto para trabalharem quanto para se relacionarem e mesmo reproduzirem-se, recebem o aviso de que é ainda muito cedo para isso. Não há um tempo certo para o período de espera, ao contrário, a duração é cada vez mais indefinida.

Eu outras palavras, há um sujeito capaz, instruído e treinado por mil caminhos – pela escola, pelos pais, pela mídia – para adotar os ideais da comunidade. [...] Uma vez transmitidos os valores sociais mais básicos, há um tempo de suspensão entre a chegada à maturação dos corpos e a autorização de realizar ditos valores. Essa autorização é postergarda. E o tempo de suspensão é a adolescência (Calligaris, 2000, p. 16).

A definição da adolescência como uma faixa etária que tem início com as transformações corporais da puberdade não é suficiente para a compreensão sobre como a experiência de ser adolescente se expressa em nossa cultura. A concepção da adolescência enquanto um tempo intermediário específico entre a infância e a vida adulta não corresponde a um fato biológico, mas a uma construção que teve início no século XX, com a urbanização, a industrialização e outras mudanças nas relações sociais, e se fortaleceu principalmente após a 2ª Guerra Mundial com a expansão da centralidade atribuída ao consumo. A representação da adolescência como associada à rebeldia, à experimentação, à descoberta da própria identidade, não é, assim, um fato natural, mas uma ideia que é historicamente recente. Trata-se, nas palavras de Calligaris (2000, p. 9), de “uma das formações culturais mais poderosas de nossa época”.

No artigo A juventude como sintoma da cultura, Maria Rita Kehl (2008) argumenta na mesma direção:

A puberdade como fase de amadurecimento sexual das crianças, que marca a transição do corpo infantil para as funções adultas da procriação, tem lugar em todas as culturas. Da Grécia clássica às sociedades indígenas brasileiras, o/a púbere é reconhecido enquanto tal, e a passagem da infância para a vida adulta é acompanhada por rituais cuja principal função é reinscrever simbolicamente o corpo desse/a que já não é mais criança, de modo que passe a ocupar um lugar entre os adultos. Mas o conceito de adolescência, que se estende em certos países até o final da juventude (hoje em dia não hesitamos em chamar de adolescente a um moço de vinte anos), tem uma origem e uma história que coincide com a modernidade e a industrialização. [...] O aumento progressivo do período de formação escolar, a alta competitividade do mercado de trabalho nos países capitalistas e, mais recentemente, a escassez de empregos, obrigam o jovem adulto a viver cada vez mais tempo na condição de “adolescente” [...]. Nessas circunstâncias, a adolescência só poderia se tornar uma idade crítica. Mas como, na economia capitalista, do boi se aproveita até o berro [...], acabou por produzir o que as pesquisas de marketing definem como uma nova fatia de mercado. A partir daí – viva o jovem! [...] Ser jovem virou slogan, virou clichê publicitário, virou impeativo categórico – condição para se pertencer a uma certa elite atualizada e vitoriosa (Kehl, 2008, p. 2).

A construção de um ideal de adolescência e juventude se dá com a representação romantizada de que seria um momento do desenvolvimento voltado exclusivamente para a fruição, para o prazer e para a liberdade. Experimentar, curtir, divertir-se, ousar, viver cada instante intensamente tornam-se praticamente convocações, como se, com a suposta isenção de responsabilidades e preocupações, a única responsabilidade e preocupação fosse a de desfrutar sem limites.

Ao mesmo tempo que os ideais de prazer proliferam, há também representações alarmistas, da adolescência como um momento de explosão hormonal que culmina em rebeldia, irresponsabilidade, inconsequência, como se houvesse uma desordem potencialmente destrutiva que precisasse ser contida.

“A adolescência não é só conjunto das vidas dos adolescentes. É também uma imagem ou uma série de imagens que muito pesa sobre a vida dos adolescentes”, afirma Calligaris (2000). Entre imagens tão diversas e com frequência tão destoantes, cada adolescente pode enfrentar também o desafio de perceber que suas experiências – como estudar, trabalhar, se relacionar com a família, fazer amizades, apaixonar-se, envolver-se afetivamente, envolver-se sexualmente, escolher atividades de lazer, divertir-se, criar, construir projetos, planejar o futuro – são muitas vezes deslegitimizadas como se não fossem “sérias”, como se fossem apenas algo passageiro, um “ensaio”, uma “fase”. É como se tais experiências não estivessem acontecendo de verdade, como se a adolescência fosse uma espécie de “limbo preparatório” (Calligaris, 2000, p. 49). 

Trata-se, assim, de um processo em que a construção da identidade é marcada por muitas contradições: como ao mesmo tempo que as escolhas do(a) adolescente não recebem reconhecimento e legitimidade, pode ser tão forte a expectativa de que adolescentes “aproveitem intensamente”?

Como ninguém sabe direito o que é um homem ou uma mulher, ninguém sabe também o que é preciso para que um adolescente se torne adulto. O critério simples da maturação física é descartado. Falta uma lista estabelecida de provas rituais. Só sobram então a espera, a procrastinação e o enigma, que confrontam o adolescente [...] Tal contradição torna-se ainda mais enigmática para o adolescente na medida em que essa cultura parece idealizar a adolescência como se fosse um tempo particularmente feliz. Como é possível? Se o adolescente é privado de autonomia, se é afastado da realização plena dos valores cruciais de nossa cultura, como pode essa mesma cultura imaginar que ele seja feliz? (Calligaris, 2000, p. 18; 21).

A construção da adolescência entre imagens de prazer, liberdade e fruição e imagens de rebeldia, irresponsabilidade e destrutividade, que mobilizam ao mesmo tempo tantas idealizações e tantas desconfianças, é também abordada por Diana Corso e Mario Corso (2011, p. 776) no capítulo Ficções sobre a adolescência: “A carga de expectativas e fantasias sobre a adolescência pesa sobre os ombros dos protagonistas, faz deles personagens do sonho alheio quando, mais do que nunca, precisam ser autores de sua biografia”.

As oscilações entre sonhos de diversão e ousadia e pesadelos de desordem e inconsequência estão também presentes em como os usos de bebidas alcoólicas por adolescentes são representados. Ao mesmo tempo que o consumo de álcool pode ser compreendido como uma adesão ao que é valorizado culturalmente, como a sociabilidade, a descontração e a integração a experiências de lazer, pode ser também fonte de preocupações, diante da ideia de que os(as) adolescentes não teriam responsabilidade e maturidade suficientes para consumirem álcool, colocando a si mesmos(as) e a outras pessoas em risco.

O consumo e a comercialização de bebidas alcoólicas para pessoas com menos de 18 anos são proibidos por lei no Brasil[1]. A proibição em vigor, no entanto, contrasta com o fato de serem comuns as práticas consumo de álcool na adolescência, representadas inclusive como algo valorizado, vinculado à diversão, ao prazer e à sociabilidade. Há assim uma dimensão ambivalente nas primeiras experiências entre adolescentes: ao mesmo tempo que se trata de algo transgressor, por ser legalmente proibido, há também uma valorização, por ser algo aceito e difundido culturalmente, associado à busca por adaptação, integração, pertencimento e reconhecimento.

A ambivalência também está presente nas relações vividas pelos(as) adolescentes, por exemplo em contextos de interação entre familiares, em que o consumo ora é reprimido, ora é permitido, ou até mesmo incentivado:“Até meu pai insiste para eu beber, ‘não pai, não quero’, ‘vai só um pouquinho’”, relata um dos participantes dos grupos focais desenvolvidos por Mirian Abramovay e Mary Castro (2005, p. 37). Outro relato frequente é o da experimentação entre amigos e amigas, como afirma outra participante da mesma pesquisa: “tem muita gente que começa assim, turminha, daí vai um golinho, depois uma latinha” (Abramovay; Castro, 2005, p. 39). Beber em festas e outras ocasiões de lazer e sociabilidade é algo definido como esperado, predominantemente representado como positivo. Ao discutirem sobre as principais motivações indicadas pelos(as) adolescentes, as autoras afirmam:

Existe uma multiplicidade de valores associados que dão sentido mediato e imediato para o uso de bebidas alcoólicas entre os jovens. [...] Por um lado, comenta-se sobre: 1) o prazer temporário do consumo; e 2) seu sentido de mediador da sociabilidade ou de desinibidor e estimulante de relação entre pares (ABRAMOVAY; CASTRO, 2005, p. 35). 

Segundo os dados da pesquisa Drogas e juventude, a idade em que a experimentação do álcool é mais frequente é entre 13 e 17 anos, embora não sejam poucos os garotos e garotas entre 10 e 12 anos que consomem bebidas alcoólicas.

Beber em festas e outros eventos sociais foi uma prática identificada com elevada frequência nas respostas, com índices significativamente maiores que os relatos de experimentação e consumo das demais substâncias psicoativas pesquisadas (tanto as lícitas, como a nicotina e os tranquilizantes, quanto as ilícitas, como a maconha, a cocaína, o ecstasy, o LSD e o crack). O fato de as bebidas alcoólicas serem amplamente aceitas culturalmente e a facilidade de acesso foram os dois fatores considerados mais influentes para o início do consumo.

            É necessário também considerarmos como, diante da indefinição sobre o que significa ser adolescente, da ausência de referências que confiram significados ao processo de transição, a experimentação de bebidas alcoólicas é por vezes representada como uma forma de estabelecer um marco, já que, ao beberem, adolescentes estariam se diferenciando de crianças e demonstrando que são capazes de agirem e de se divertirem de um modo que só é permitido legalmente às pessoas adultas.

            Nos momentos de sociabilidade e diversão acompanhados por álcool, os(as) adolescentes podem se reconhecer como pertencentes a um mesmo grupo com interesses similares, assim como podem se diferenciar dos(as) adultos(as) por escaparem de seus controles e desobedecerem suas regras e interdições. Um dos sentidos possíveis para os usos de bebidas pode ser, assim, o da expressão da busca pela maturidade, ou ao menos a busca pela legitimação de que as experiências vividas não são mais do campo da proteção infantil, mas envolvem outras curiosidades, desejos e prazeres. Como afirmam Jakob Demant e Margaretha Järvinen (2009) no artigo Constructing maturity through alcohol experience: focus group interviews with teenagers:

Beber álcool implica que alguém tem a permissão para fazer coisas que geralmente são proibidas e, desse modo, experimentar formas possíveis de permance de gênero e idade. Nesta perspectiva, beber é uma atividade repleta de prazer em si, tanto quanto uma experiência coletiva em que o espaço prazerosa torna possível a utilização do beber na negociação de identidades (Demant; Järvinen, 2009, p. 149).

Contrariamente à visão da adolescência como uma espécie de ensaio, como um “limbo preparatório” (Calligaris, 2000, p. 40), transgredir interdições e compartilhar momentos de diversão são modos pelos quais adolescentes podem buscar demonstrar que as experiências que estão acontecendo, aqui e agora, não são apenas um treino, um preparo, são legítimas, são para valer. Trata-se de algo importante para ser considerado em abordagens educativas: a possibilidade de que a discussão sobre as experiências de consumo de bebidas alcoólicas entre adolescentes e jovens parte da voz de adolescentes e jovens, ou seja, tenha como base como os(as) participantes vivenciam e significam essas experiências. Quando os múltiplos fatores envolvidos são reconhecidos e considerados legítimos, o diálogo sobre os cuidados necessários para a prevenção acontece de forma mais aberta e contextualizada.


[1] O Estatuto da Criança e do Adolescente apresenta na seção II “Dos Crimes em Espécie”, o artigo 243: “Vender, fornecer ainda que gratuitamente, ministrar ou entregar, de qualquer forma, a criança ou adolescente, sem justa causa, produtos cujos componentes possam causam dependência física ou psíquica, ainda que por utilização indevida. Pena – detenção de dois a quatro anos, e multa, se o fato não constitui crime mais grave” (Brasil, 2012, p. 185). O Estatuto da Criança e do Adolescente pode ser acessado no site: http://www.crianca.mppr.mp.br/arquivos/File/publi/camara/estatuto_crianca_adolescente_9ed.pdf. A lei que versa especificamente sobre a proibição da comercialização das bebidas alcoólicas pode ser lida na íntegra no endereço: http://www.camara.gov.br/sileg/integras/1355093.pdf. Acesso em: 05 de maio de 2017.