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Entre liberdades e repressões

 

“O prazer sexual nos torna mais felizes e saudáveis!”, “o prazer sexual nos faz viver de forma mais livre e estimulante!”, “o prazer sexual potencializa as relações e propicia realização pessoal!”: quando nos deparamos com a valorização do prazer, proclamada como uma convocação à fruição, não é difícil nos convencermos de que estamos diante de uma bem-vinda abertura a ser celebrada. Afinal, não é difícil lembrarmos como vergonha, culpa, inibições, proibições e censuras foram associados de formas tão contínuas e intensas em relação ao sexo, erguendo barreiras que talvez finalmente agora possam ser derrubadas. Que sentido haveria em colocar a valorização do prazer sexual em questão?

Ser atraente sexualmente, ser experiente sexualmente, caprichar no desempenho sexual, ter desenvoltura, criatividade e disposição para experimentar e para aproveitar os prazeres que o sexo tem a oferecer: uma primeira questão a ser colocada refere-se a quais são os modelos de uma vida sexual prazerosa que acompanham o que chamamos hoje de valorização do prazer sexual. Ao nos depararmos com alguns modelos que predominam, cabe também questionarmos: se os prazeres sexuais têm sido exaltados como desejáveis, como as experiências e relações têm se transformado para que os prazeres não sejam apenas exaltados, almejados, mas também vividos? Prazeres vividos, aqui, não significaria avaliar se os tão difundidos padrões são ou não correspondidos. Ao nos voltarmos para os prazeres vividos nos voltamos para as possibilidades de que diferentes prazeres possam ser imaginados, diferentes prazeres possam ser criados, para que múltiplas formas de desejar e experienciar prazer possam ser expressas e para que as múltiplas formas de buscar prazer possam ser ampliadas.

Uma armadilha é a ideia de que haveria muitas pessoas fazendo muito sexo de formas muito satisfatórias, o que tornaria aquelas que não fazem, ou que fazem pouco, ou que fazem mas que não se satisfazem tanto ou que não se satisfazem pessoas menos felizes, provavelmente por serem inibidas, por serem travadas, ou então por serem inseguras e frustradas, uma armadilha que alimenta a noção de que seria uma questão de competência individual a inserção no vasto universo de prazeres que o sexo tem a oferecer.

            Entre os casais, a armadilha ganhas novas versões: o sexo seria como um termômetro, que mediria como quanto maior o tesão, melhor a relação. Quanto melhor a performance (disposta, incansável, acrobática), mais sincero o desejo. Quanto mais orgasmos (múltiplos, simultâneos), mais felicidade amorosa. Para quem não está em um relacionamento, o termômetro seria o da diversão: o que vale é experimentar, nada mais divertido que sexo, quanto mais sexo mais disposição, mais entusiasmo, mais liberdade.

A que liberdade tais concepções do sexo competência, do sexo termômetro e do sexo diversão estão se referindo? Para refletirmos sobre o que está sendo evocado como liberdade, é interessante considerarmos o que afirma Maria Rita Kehl (2008, p. 14-15) no capítulo Corpos estreitamente vigiados:

Tão longe, tão perto. Temos a liberdade, ou melhor, temos a obrigação de nos permitir todos os prazeres sexuais. Seria ótimo, se não fosse obrigatório (...). Seríamos livres se não nos sentíssemos obrigados a dar provas permanentes de nossa capacidade de gozar. Seríamos mestres do hedonismo se não estivéssemos tão vigilantes em relação às performances sexuais (...).

            Se ser sexualmente livre, sexualmente aberto(a), sexualmente realizado(a) é uma expectativa tão continuamente transmitida que chega a ser sentida como uma obrigação, nos vemos diante de uma significativa contradição: a expectativa de que as pessoas livres sintam-se sempre seguras e confiantes sexualmente não contribuiu para gerar liberdade, segurança, nem confiança, mas sim, para alimentar cobranças, ansiedades, sensações de inferioridade e de insuficiência.

A palavra repressão é no geral associada a proibições e reprovações, de modo que seria repressivo negar o prazer, condená-lo, cercá-lo por interdições e tabus. Entretanto, diante da exaltação do prazer com que nos deparamos atualmente, é importante reconhecermos o quanto a imposição de ideais inalcançáveis e a transmissão de modelos sobre como o prazer deve ser buscado e sentido também podem ser repressivas. Trata-se de uma espécie de repressão às avessas: ao invés de sentirem culpa, ansiedade e insegurança diante do desejo por prazeres proibidos, cada vez mais há pessoas que sentem culpa, ansiedade e insegurança por não conseguirem sentir todo o prazer que acreditam que deveriam sentir. Para compreendermos a dimensão repressiva do prazer como dever, é importante considerarmos a análise desenvolvida por Marilena Chauí (1984, p. 13), no livro Repressão sexual: essa nossa (des)conhecida:

(...) a repressão não é uma imposição exterior que despenca sobre nós, mas também um fenômeno sutil de interiorização das proibições e interdições externas (e, consequentemente, também das permissões) (...). Nossos sentimentos poderão ser disfarçados, ocultados ou dissimulados desde que percebidos ou sentidos como incompatíveis com as normas, os valores e as regras de nossa sociedade. Costuma-se dizer que a repressão perfeita é aquela que já não é sentida como tal, isto é, aquela que se realiza como auto-repressão, graças à interiorização dos códigos de permissão, proibição e punição de nossa sociedade.

Partindo da definição proposta por Chauí (1984, p. 9) sobre a repressão sexual como “um conjunto de interdições, permissões, normas, valores, regras estabelecidos histórica e culturalmente para controlar o exercício da sexualidade”, é possível identificarmos como, apesar de ser menos constante a interdição “não faça!”, muitas normas, regras e valores são transmitidos por meio do imperativo “faça!”. O principal aspecto desta forma de repressão é a dificuldade de ser reconhecida enquanto tal, já que, apesar de gerarem culpa e sofrimento, os padrões são transmitidos como valorizados e desejáveis pelas próprias pessoas que buscam alcançá-los.

            Fala-se mais sobre desejos sexuais, cala-se mais sobre fragilidades e inseguranças. Fala-se mais sobre experiências sexuais variadas, cala-se mais sobre que ansiedades e inibições foram experimentadas. Fala-se mais sobre detalhes de posições e estimulações, cala-se mais sobre as cobranças e frustrações relacionadas às expectativas inalcançáveis de atratividade e desempenho, expectativas tão influentes nas possibilidades de fruição.

            É como se demonstrar vulnerabilidade fosse correr o risco de inferiorização. Como se os corpos que se encontram se encontrassem apenas pela finalidade de potencializar excitações, saindo desses encontros intactos, sem as inconvenientes perturbações das dúvidas, sentimentos e emoções.

O senso de si não vem das experiências como elas diretamente se dão, mas de como articulamos essas experiências ao narrarmos sobre nós mesmos(as). A construção dessas narrativas é atravessada pela busca de consistência na identidade que desejamos formar, na imagem de nós que desejamos transmitir. O que falamos e o que calamos sobre os desejos, emoções e experiências sexuais também são elementos dessa transmissão de uma imagem, desse narrar-se em busca de uma consistência na identidade que desejamos construir. Nas palavras de Rachel Hills (2010, p. 17), essa busca por consistência se dá: “com a omissão de detalhes de nossas histórias que não se encaixam com nossa autoimagem desejado, ou pela invenção de eventos que nunca aconteceram para projetar uma imagem que se encaixe melhor no ideal”[1].

No capítulo This is not what liberation looks like[2], Hills (2015) discute uma dificuldade para que os controles possam ser reconhecidos está na própria expectativa de espontaneidade: a expectativa de que o sexo seja sempre espontaneamente bom, que a atração e o interesse, livres, surjam espontaneamente, que o desejo e o prazer sejam sempre espontaneamente intensos. Quando tais expectativas de atrações, desejos e prazeres tão espontâneos não se cumprem, é como se houvesse uma falha, algo a ser corrigido, uma insuficiência em quem não os experimenta. Como a autora problematiza:

A crença nos poderes “especiais” da sexualidade significa que tudo o que fazemos no que se refere a sexo é imerso em significado, com um profundo impacto em nossa compreensão de quem somos e em como nos avaliamos. Com tanto direcionamento em como conduzimos nossas vidas sexuais, o sexo não precisa ser regulado externamente: ao invés nisso, nós internalizamos os padrões e os implementamos a nós mesmos(as) (HILLS, 2015, p. 20) (5).

Os aprendizados sobre os desejos abrangem a ideia de que, para se permitir desejar, é necessário se adequar aos modelos sobre o que é ser alguém desejável. Assim, a relação entre desejos e controles revela-se como mais imbricada do que pode parecer em um primeiro momento. Diante da hierarquização, em que despertar desejo é visto como fonte de status, mas demonstrar desejo é representado como risco de vulnerabilização, a dinâmica entre o que as pessoas sentem e o que elas permitem expressar tornar-se atravessada por cerceamentos que não são facilmente perceptíveis:

Desejo e desejabilidade são mais do que apenas selos de aprovação social. São uma forma de armadura emocional, uma promessa ilusória de que se moldarmos nossa aparência e desempenhos das formas certas, nós estaremos seguros(as) e protegidos(as) da dor e da rejeição (HILLS, 2010, p. 56) (6).

As expectativas de que os desejos sejam sempre experimentados como impulsivos e espontâneos destoa de como os desejos oscilam, variam tanto em intensidade quanto em frequência, não são tão nitidamente identificáveis nem tão imperativamente diretivos. Com uma pretensa abertura à espontaneidade, o que se constrói, assim, é um artificial (e potencialmente inibidor) esforço por uma aparência de desinibição de espontaneidade.

A pressão para ganhar status pela manipulação da aparência, a busca por parceiros(as) sexuais socialmente desejáveis, a performance exagerada do que passa por diversão e liberdade – não são geralmente comportamentos de pessoas que estão confortáveis consigo mesmas e com seus relacionamentos com outras pessoas. Nem são comportamentos de pessoas que estão esbanjando o prazer físico do sexo por si mesmo. São posturas, uma tentativa de tornar as pessoas complexas e vulneráveis que somos nas pessoas descomplicadas e emocionalmente impenetráveis que desejamos ser (HILLS, 2015, p. 65) (7)

Entre as pessoas complexas e vulneráveis que somos e as pessoas descomplicadas e emocionalmente impenetráveis que desejamos ser estão, assim, expectativas de liberdade que requerem a reflexão sobre o que chamamos de liberdade.

 


[1] Tradução nossa do original: “By omitting details of our histories that don’t fit with our desired self-image, or by hinting at events that never happened in order to better project an image that fits the ideal” (HILLS, 2010, p. 17).

[2] Tradução nossa: “Não é assim que a liberação parece ser”.