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A importância do diálogo sobre sexualidade na infância

            Do que são feitas as nuvens? É verdade que o planeta gira? Por que não giramos junto enquanto o planeta gira? Por que as cores dos olhos são diferentes? Quem tem a cor dos olhos diferente vê o mundo de cores diferentes? Como as pessoas fazem para ficarem dentro da televisão?

Quando conversamos com crianças, ouvir suas perguntas pode ser encantador: quantas curiosidades interessantes, quanta vontade de conhecer o mundo, quanta atenção e desejo de saber sobre detalhes que geralmente passam despercebidos aos olhares adultos. Na página "Coisas que eu achava quando eu era criança” podemos encontrar vários exemplos de como são criativas e envolventes as formas de compreender questões diversas quando a vida é revestida por esse tom de descoberta, como podem ser divertidas as investigações e explicações. 

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            “Eu achava que algodão-doce era um pedaço de nuvem”; “Eu achava que o mundo parava de girar quando eu acordava”; “Eu achava que quem tem o olho azul via tudo azul”; “Eu achava que os atores eram pessoas encolhidas para caber dentro da TV – e elas viviam lá dentro”: os relatos sobre o que as pessoas pensavam quando eram crianças remetem a como a busca por entender o mundo pode ser desafiante e estimulante. No geral, nós, pessoas adultas, participamos e encorajamos esse estimulante desafio, conversando, esclarecendo, recebendo as perguntas e as explicações formuladas com atenção, respondendo sobre o que sabemos, nos surpreendendo como também há muito que ainda não sabemos.

            “O Fantástico Mundo de Bobby” é um desenho que conta sobre Bobby, uma criança de 4 anos com muita curiosidade e imaginação, que se envolve em situações engraçadas por como tende a tomar o que escuta literalmente. Se sua mãe diz: “hoje minha cabeça está explodindo”, sua irmã reclama: “você partiu meu coração” ou o irmãe avisa: “vou dar um pulo na casa do meu amigo”, Bobby fica preocupado, imaginando uma cabeça de fato explodindo e um coração em pedaços, enquanto fica chateado porque o irmão não o convidou para ir brincar de pular com ele.

um episódio do desenho em que os(as) familiares e outras pessoas ao redor ficam especialmente confusos(as) com as indagações de Bobby, por não saberem muito bem como reagir a elas: Explicam ou não explicam? Caso expliquem, como explicar? Será que não seria melhor deixar para depois? Será que não seria melhor se outra pessoa falar sobre o assunto? Será que ele ainda é muito pequeno para saber?

As perguntas começam com o anúncio da gravidez da mãe e com os devaneios, expectativas e inseguranças relacionados à chegada de um novo irmãozinho ou irmãzinha.

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Diante da pergunta de Bobby “De onde vêm os bebês?”, o pai demonstra sentir embaraço, confusão, dá uma explicação breve sobre mamães que trazem bebês dos hospitais e se esquiva: “Olha, está ficando muito tarde!”.

O interesse em saber sobre sexualidade faz parte do interesse em conhecer mais sobre o mundo. No entanto, na história de muitos(as) de nós, pessoas adultas, a sexualidade foi aprendida como algo proibido, associado ao constrangimento, à vergonha. Por isso, as dúvidas das crianças nesse campo são muitas vezes recebidas com apreensão. Quando as crianças fazem as perguntas, muitas vezes não entendem as reações adultas, já que trata-se de um assunto recoberto por censuras e tabus para nós, mas que para elas ainda é parte de um amplo leque de curiosidades. Por isso, é importante pensarmos sobre a nossa história, sobre como o silenciamento sobre sexualidade fez parte dessa história e sobre como é possível fazer diferente, transmitir uma compreensão sobre sexualidade como positiva, prazerosa, saudável, com informações e esclarecimentos.

            De onde vêm os bebês? O que é sexo? O que é transar? Por que o papai tem barba e a mamãe não? Porque a mamãe tem seios e o papai não? Eu vou ter barba quando crescer? Eu vou ter seios quando crescer? Qual é a diferença entre meninos e meninas? A pessoa que veio ontem com a titia é a namorada dela? Mulheres podem namorar mulheres? Pessoas que não namoram pode beijar na boca? Quando eu vou poder beijar na boca? O que é camisinha? Por que na propaganda disseram: “use camisinha”? Por que as pessoas da novela estavam tirando a roupa? Por que você trocou de canal?

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Na página “Coisas que eu achava quando eu era criança há também exemplos de hipóteses que as crianças criam quando os assuntos em questão são relacionados à sexualidade: “Eu achava que ‘transa’ era quando namorados faziam trancinhas nos cabelos um do outro”; “Eu achava que a mulher engravidava assim que o padre falava ‘e eu vos declaro marido e mulher’”; “Eu achava que camisinha servia pra homem poder fazer xixi sem precisar ir ao banheiro”; “Eu achava que sexo oral era fazer sexo toda hora”.

            Assim como curiosidades sobre o céu, sobre os planetas, sobre os animais e as plantas, sobre as cores, sobre os objetos, os lugares e as pessoas, as crianças também têm curiosidades sobre os relacionamentos, sobre os corpos, sobre as diferenças entre os corpos, sobre como os corpos mudarão quando crescerem, sobre o que é ser menino e o que é ser menina, o que é ser homem e o que é ser mulher, sobre o que é beijar, namorar, transar, casar, sobre como a gravidez começa, sobre como é a vida na barriga e também sobre como é o nascimento de bebês                     (para discussões mais específicas sobre as curiosidades e as expressões da sexualidade na infância, recomendo o capítulo Reflexões sobre sexualidade e infância a partir de cenas do cotidiano escolar, que escrevi em co-autoria com Ana Cláudia Bortolozzi Maia).

Uma forma interessante de iniciar o diálogo sobre sexualidade é por meio da contação de histórias. Algumas sugestões de livros são: “Mamãe, como eu nasci”, “Menino brinca de boneca?” e “Somos iguais, mesmo sendo diferentes”, de Marcos Ribeiro, “Entre sementes e cegonhas: as curiosidades de Gabriela” e “Entre explosões e cortes na barriga: as curiosidades de Rafael”, de Constantina Xavier Filha, que, no artigo “Gênero, corpo e sexualidade nos livros para a infância” faz a discussão teórica sobre os temas na literatura e também traz exemplos de outros livros para crianças.

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O diálogo sobre sexualidade é importante porque abrange:

  • A transmissão de informações sobre o corpo, sobre a saúde e sobre o desenvolvimento humano;
  • A valorização das múltiplas expressões humanas, com o reconhecimento de diversas formas de ser, agir, sentir e construir relações;
  • A problematização de estereótipos, preconceitos e discriminações;
  • A conscientização sobre direitos e a prevenção de situações em que direitos são violados, como nas situações de violência sexual.

            Além da construção de uma compreensão ampla e positiva sobre a sexualidade, a importância do diálogo sobre sexualidade na infância está relacionada também a como ter informações sobre o assunto e poder conversar com alguém em quem confia é um fator de proteção. Quando situações de violência sexual acontecem na infância, um dos elementos mais recorrentes é o pedido de segredo, quando com promessas, chantagens ou ameaças é dito para a criança ou adolescente que o que acontece não pode ser contado para ninguém. Como na maior parte das situações a violência é cometida por uma pessoa próxima, com frequência no contexto familiar e/ou doméstico, é necessário que a criança ou adolescente saiba que pode contar para alguém em quem confia, conheça seus direitos e saiba que precisa ter esses direitos preservados.

São formas de violência sexual que acontecem com crianças: tocar e estimular o corpo da criança e/ou pedir que ela toque ou estimule o corpo do(a) adulto(a); penetrar na vagina ou no ânus; exibir imagens ou vídeos com conteúdos sexuais; tirar fotos ou gravar vídeos do corpo ou da criança em situações sexuais etc. As práticas podem acontecer com finalidades comerciais, de obter lucro e, nesse caso, são chamadas de exploração sexual.

A violência sexual não vem necessariamente acompanhada de violência física, pode ser que a aproximação aconteça por meio de promessas de presentes e recompensas (fazer um passeio, contar uma história antes de dormir, comprar um brinquedo) relacionados a situações agradáveis e desejadas pela criança, ou com chantagens e ameaças (machucar alguém que a criança ama ou machucá-la, castigá-la).

Seja nas situações em que a violência sexual é acompanhada de violência física, seja quando a estratégia predominante é a de persuasão, seja quando ocorrem chantagens e ameaças, um aspecto em comum é o pedido de segredo, a afirmação de que a criança não pode contar para ninguém o que está acontecendo. Por isso, no diálogo sobre sexualidade com as crianças, é importante deixar claro que caso alguém que se aproxime dela peça segredo sobre essa aproximação, é necessário que ela conte para alguém que confie (como a professora, no caso de abordagens educativas na escola).

Se a criança aprende que não pode falar sobre sexualidade, que não pode nem mesmo falar os nomes que conhece para vagina e pênis sem ser repreendida (por serem considerados “palavrões”), dificilmente conseguirá reconhecer e pedir ajuda caso sofra uma situação de violência. Outro fator que pode prejudicar o pedido de ajuda da criança é a sensação de que não acreditarão nela, de que a acusarão de estar inventando, mentindo. Por isso o diálogo contínuo é tão importante.

O diálogo sobre sexualidade com as crianças favorece que elas sejam capazes de identificar uma situação na qual seus direitos são violados. Transmitir informações sobre o seu corpo e sobre o direito à privacidade, em linguagem clara e acessível, promove condições para que as crianças compreendam que é errado quando alguém pede para tocá-las ou faz outras aproximações e pedidos dizendo que o que acontece deve ser mantido em segredo.

            O dia 18 de maio é o Dia Nacional de Enfrentamento ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. É uma data que pode ser aproveitada para valorizarmos as possibilidades de diálogo, de transmissão de informações, de esclarecimento de dúvidas. Por isso selecionei três materiais, dois livros e um vídeo, que podem ser utilizados com crianças em atividades de prevenção.

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Pipo e Fifi

Autora: Carolina Acari.

Editora: Insituto Cores. 

 

            “No Pipo e Fifi, você pode confiar. Um recado importante sobre o seu copo eles vão dar”: o livro “Pipo e Fifi”, direcionado para crianças a partir de quatro anos, aborda sobre a prevenção à violência sexual em uma linguagem bem didática. O material começa esclarecendo sobre as partes do corpo, inclusive os genitais, com informações sobre a importância da privacidade. São diferenciados os “toques do sim”: toques que fazem bem, como abraços, beijinhos, cafunés, carinhos e outros contatos com pessoas que confiamos e que cuidam de nós, como nos contextos de saúde (exemplo: consultas médicas), de higiene (banho) e segurança (atravessar a rua) e os “toques do não”, que acontecem sem permissão, com pedidos de segredo e/ou ameaças. As crianças são orientadas que têm o direito de serem protegidas dos “toques do não” e, por isso, podem e devem procurar uma pessoa adulta em quem confiem para pedir ajuda quando perceberem que é necessário. A escola, o posto de saúde, o Conselho Tutelar e a delegacia são apresentados como espaços que podem dar apoio.

 

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Legenda: “Conviver é divertido, mas fique sempre ligado porque, às vezes, você não gosta ou não deve ser tocado”. “Ninguém pode te beijar ou abraçar à força, sem você permitir”. “Carinhos em segredo nunca devem acontecer”. “Você tem o direito de dizer NÃO e viver feliz como criança. Se acontecer algo ruim, conte para um adulto de confiança”.

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Sem mais segredo: Juju, uma menina muito corajosa!

Autoras: Raquel Baptista Spaziani, Ana Cláudia Bortolozzzi Maia, Juliana Lapa Riza Editora: Multifoco

Ano de publicação: 2015

            O livro conta a história de Júlia, também chamada de Juju, que aprende na escola que há diferentes segredos: há segredos que são bons, como guardar um presente em segredo para fazer surpresa, mas há segredos que fazem mal, como quando alguém faz algo conosco e manter aquilo em silêncio nos deixa tristes, nos prejudica. A professora dá como exemplo:

“Quando um adulto toca em você e pede segredo, para vocês não contarem para ninguém! Se um dia isso acontecer, vocês podem e devem contar para a sua família, para mim ou para qualquer outra pessoa querida em que vocês confiem! O dever do adulto é proteger as crianças, e não machucá-las! Esses segredos não devem ser guardados!”.

Juju decide então contar para sua mãe e para o seu pai que seu tio, quando ficavam sozinhos, tocava nela e pedia para que não contasse para ninguém, porque, caso contasse, os machucaria. A mãe e o pai dizem estar orgulhosos por Juju ter tido coragem de contar e vão com ela para o Conselho Tutelar.

É ressaltado que a história de Juju pode acontecer com qualquer criança, com meninos e com meninas. Por isso, é importante que todos(as) saibam que têm o direito de serem protegidas, que podem e devem contar para alguém em quem confiem.

 

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Legenda da contracapa: “Quem nunca guardou um segredo? O que a professora de Juju costuma dizer aos seus alunos e alunas é que existem segredos bons e segredos ruins e essa história pode ajudar as crianças a reconhecerem situações de violência contra a infância, bem como proceder quando esse triste fato acontece”.

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O segredo: Aprendendo a lidar com o abuso sexual

Produzido por: EBS da Coréia do Sul

Ano: 2005.

            O vídeo é sobre a história de Nara, que conta no início sobre os vários segredos que divide com seus amigos e amigas. No entanto, Nara conta também que tem um segredo que não conta para ninguém. Em seguida é mostrada a cena em que um homem mais velho está sentado no sofá com ela e diz que lhe dará banho, mas que se ela contar o que acontece para alguém, entrará em uma encrenca. Nara chega a se imaginar contando para sua mãe e para o seu pai, mas teme que se desapontem, que não a amem mais. Acredita também que, caso alguém saiba, pode ir para a cadeia por ter feito algo errado. Nara sente muito medo, acorda várias vezes chorando no meio da noite, começa a ir mal na escola, deixa de se interessar em brincar no parque. Quando alguém pergunta o que aconteceu, Nara mente: diz que foi só um pesadelo, ou que brigou com alguém na escola, ou que está com dor de cabeça ou nas costas. Assim, o vídeo dá exemplos sobre mudanças de comportamento que podem apontar a necessidade de atenção, de investigação sobre algo que possa estar acontecendo. Há também um excelente exemplo de abordagem pela professora, que, ao ver Nara rasgando um desenho, se aproxima e faz algumas perguntas:

- Nara, eu gostaria de saber por que você rasgou o seu desenho.

- Eu rasguei para o homem mal não pegar a menininha de novo.

- E por que o homem estava perseguindo a menina?

- Ela iria revelar um segredo. Um terrível e doloroso segredo.

Nara começa a contar sobre a personagem da história, que tem sonhos horríveis, não consegue dormir direito, treme, fica assustada, tem medo de um homem que é muito amigo da mãe e do pai da personagem. A professora então pergunta, cuidadosamente:

- Essa menina que estava na sua história, será por acaso alguém que eu conheço.

- Conhece.

- Ah, que interessante. E ela é da nossa escola?

- Sim.

- E ela é da nossa turma?

- É.

- Só mais uma pergunta. – e cochicha no ouvido de Nara – eu estou segurando a mão dessa menina?

Nara responde que sim, diz que tem medo que sua mãe e seu pai não a amem mais, que tem medo de ir para a cadeia. A professora a abraça, diz que deve ter sido muito difícil para ela, e repete que Nara não fez nada de errado, que não é culpa dela, até que Nara também diz: “Não é culpa minha, não é, não é não”.

 

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O vídeo traz com sensibilidade a aproximação da professora para que Nara conte o que está acontecendo, e ressalta que há algumas coisas que não podem ficar em segredo.

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O diálogo sobre sexualidade desde a infância, com a construção de espaços em que a criança possa sentir confiança para esclarecer dúvidas e conversar sobre o que considerar necessário é um importante fator de proteção para a prevenção, assim como para favorecer que as situações de violência possam ser identificadas para que os direitos das crianças e adolescentes possam ser garantidos. Livros infantis e vídeos sobre os temas, como os dos exemplos citados, podem ser fontes interessantes para o início desse diálogo. Pipo, Fifi, Juju, Nara e outros(as) personagens ajudam para que as crianças compreendam desde pequenas sobre o próprio corpo e os próprios direitos, aprendendo que situações de violação não devem ser mantidas em segredo, mas contadas para alguém em quem confiem. As escolas e outros espaços educativos são locais muito propícios para que a prevenção possa acontecer, para o aprendizado sobre a sexualidade como ligada à saúde e aos direitos.