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Visibilidade

Datas são escolhidas para dar visibilidade a determinadas causas. O dia 29 de agosto é o dia da visibilidade lésbica, o dia 28 de junho é o dia do orgulho LGBT, o dia 23 de setembro é o dia da celebração bissexual.

Se um dia de visibilidade se tornou necessário, isso quer dizer que um comportamento, um desejo ou uma realidade foi escondida, tornada invisível, mantida clandestina.

Em que momento tornou-se necessário esconder? A partir de quando foi vedada a exibição do amor e do desejo, das relações afetivas e sexuais com alguém do mesmo sexo?

Foucault descreve em sua “História da sexualidade” como os discursos de controle do corpo e do sexo se construíram ao longo da história. Muitos pesquisadores estiveram interessados no tema da sexualidade, em como se desenvolve a sexualidade no ser humano, como Freud, que teorizou sobre a disposição psíquica à bissexualidade, em que haveria em todas as pessoas uma bissexualidade primária, originária, e por razões múltiplas, a maioria das vezes, uma das orientações sexuais é reprimida e outra atuada, mas a bissexualidade, quando não atuada, fica ali, latente. E ele se pautou em relatos de pacientes, ou seja, em realidades.

Diferentemente do que se vê mais comumente na natureza, o ser humano é provido de uma sexualidade polimorfa, em que a união e o interesse por outro ser humano não se restringe a finalidades reprodutivas, permitindo uma variedade de práticas. Mas isto, além de ser pouco compreendido, tornou-se ao longo da história passível de discursos de controle.

A palavra homossexual, criada para caracterizar pessoas que amavam e/ou se relacionavam sexualmente e/ou afetivamente com outras do mesmo sexo, data de 1869. Mas há registros muito mais antigos desse comportamento. A arte egípcia, por exemplo, nos oferece um registro pictográfico de dois homens se beijando que data de 2400 a.C., o que torna a prática ao menos tão antigo quanto ela. Sabemos ainda da poetisa Safo, da ilha de Lesbos, de meados de 600 a.C., e dos hábitos da Grécia antiga, por volta de 500 a.C.

A antiguidade do comportamento só está sendo lembrada aqui para se efetuar um reconhecimento do lugar social que a prática veio a ter em alguns momentos da história da humanidade. E não é a toa que sempre se enfatizam datas anteriores ao cristianismo para retratar a homossexualidade aceita socialmente.

O fato biológico de impossibilidade de reprodução entre pessoas do mesmo sexo foi o que moveu algumas religiões a rechaçar o comportamento homossexual, baseando-se numa interpretação de um recorte de um texto histórico: “crescei e multiplicai-vos”. Que projeta uma união entre homem e mulher e a geração de filhos. É o exemplo da tentativa de um discurso controlador da religião sobre o comportamento humano.

A homossexualidade era tida como uma ameaça da permanência da instituição família. E passou a haver uma perseguição e violência contra pessoas que se relacionavam com outras do mesmo sexo. Daí a necessidade de esconder, velar, proteger-se.

A tradição judaico-cristã promoveu uma longa história de perseguições físicas e morais infligidas durante séculos aos que eram acusados de transgredir as leis da família e se entregar a práticas sexuais tidas então como desviantes e reprováveis como a homossexualidade.

Tal rechace ganhou muitos núcleos sociais, invadindo inclusive fóruns onde profissionais da saúde exercitam seus discursos de controle.

Em 1952, o primeiro DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de transtornos mentais) publicado pela Associação Americana de Psiquiatria incluía o chamado então homossexualismo como um transtorno.

Imediatamente iniciou-se um processo de repúdio a isto, mas um processo também velado e sofrido, pois como lutar contra algo que te ameaça no exato momento em que você se mostra?

Um episódio que ficou muito conhecido e que marca a data do orgulho LGBT é um dia de visibilidade, o Stonewallriot. Um momento que em meio a muita opressão, em 1969, em Nova Iorque, um grupo de pessoas que tinham por característica comum o fato de se relacionarem com pessoas do mesmo sexo e estavam cansadas de sofrer violência de policiais e hostilidade da sociedade como um todo, resolve revidar, e então se tornar visível.

Desde 1973 a homossexualidade deixou de ser considerada doença pela mesma associação que incluíra o comportamento em sua primeira versão classificatória, sendo que em 1990 a OMS – Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade de sua CID (Classificação Internacional de Doenças).

Desde então muitos atos de visibilidade puderam ocorrer e muitas reconquistas se deram para todas as pessoas que se relacionam com outras de mesmo sexo. Digo reconquistas para marcar que a homossexualidade já teve lugares sociais amplos de aceitação, até que historicamente esse lugar foi aos poucos retirado e mantido restrito a locais protegidos e o que ocorre atualmente é uma reconstrução e reivindicação deste espaço de naturalidade.

Alguns grupos sociais de discurso inflamado e equivocado resolve perseguir e violentar outros grupos e se estes oprimidos se escondem, é pra se proteger, mas quando se mostram, com toda coragem, recobram um lugar que significa uma existência digna, como todos devem ter.


dani-homeDaniela Smid é psicóloga graduada pela USP e especialista em sexualidade pela Faculdade de Medicina da USP. Psicanalista em formação pelo Instituto Sedes Sapientiae e interessada em pesquisas sobre gênero, feminismo, corpo, psicopatologias do social e medicalização da vida.
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