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Violência e escolha política por identificação

Democraticamente escolhemos quem estará à frente do país pelos próximos quatro anos, mas é bem difícil afirmar que são escolhas conscientes, embasadas, críticas, pautadas em um estudo e uma pesquisa de planos de governo dos candidatos e em um acompanhamento dos feitos de suas gestões, através de mídias não vendidas. Tudo isso além de dar trabalho, requer um conhecimento muitas vezes de um jargão técnico e de alguma sagacidade para não se deixar enganar nos meandros do que é o cenário político.

Sabendo disso, para auxiliar na reflexão sobre os direitos LGBT (pra recortar um assunto que nos interessa), grupos de pessoas reúnem informações referenciadas e divulgam nas redes sociais como meios de fortalecer o esclarecimento público (veja esta cartilha e esta página).  E fazem lá suas análises e defesas de tal ou tal posicionamento político como sendo melhor ou pior para a defesa e garantia dos direitos do público LGBT.

Tais movimentos facilitam não só a construção de um maior esclarecimento sobre as políticas para esse público, e, no limite, um aumento de direitos através da construção de diálogos com setores do governo, mas também favorecem o aumento da discussão em redes sociais, favorecem a visibilidade de mais pessoas, suscitando em muitos a vontade de deixarem de se esconder sob o medo de serem execradas como se fossem abjetas, como muitas vezes são tratadas, e a minoria começa a tomar vulto, se fazer mostrar. Pode-se afirmar, portanto, que o aumento de direitos do público LGBT facilita, promove, permite o aumento do número de pessoas do mesmo grupo que então não mais se escondem e se fazem mais visíveis socialmente.

Mas às vezes alguns dados estatísticos são usados de forma equivocada, muitos divulgam sozinho o dado que nos últimos anos se observa um aumento de mortes da população LGBT, como se o fenômeno social de aumento da hostilidade contra tal grupo minoritário pudesse ser compreendido sem que se leve em conta também um aumento de reconhecimento e dos direitos dessa mesma minoria.

Quanto maior a visibilidade desse público contra quem ainda existe muita violência e hostilidade (em função do que tentarei explicar logo adiante), maior o número de pessoas vulneráveis, daí o aumento do número de mortes da população LGBT no país, pois a hostilidade existe, e, parênteses, ainda não houve a efetivação do Projeto de Lei para a criminalização da homofobia (PL 122/06), isto é uma crítica importante ao que se observa atualmente e é uma pauta de cobrança das mais importantes para logo. E a votação tem sido adiada devido a resistências conservadoras no legislativo, resistências que também representam democraticamente a população.

Ou seja, não é que a hostilidade aumentou nos últimos anos, como muitos querem afirmar, como se tivesse havido uma negligência quanto aos direitos LGBT, a hostilidade existe, o aumento de número de atos violentos é justamente devido ao aumento de pessoas que se tornam visíveis e padecem dos mesmos atos violentos que já existiam.

Agora tentando explicar essa hostilidade. O ser humano se faz em suas múltiplas identificações desde a infância, ouvindo comentários e vendo atos das pessoas ao seu redor. A pessoa que tem uma identificação maior com valores mais tradicionais, conservadores, dificilmente deixa de lado ou muda tais aspectos e, quando tem uma tendência agressiva, hostiliza pessoas com as quais não se identifica, mesmo que estas estejam mais fortalecidas politicamente, socialmente e psicologicamente. O pior disso tudo é que todos nós estamos sujeitos a tal tipo de reação, pois se trata de um sentimento arraigado, constituído junto com nossa personalidade.

Não é à toa que para promover igualdade de direitos é preciso forçar com leis. A ONU tem tido medidas para promover maior igualdade de direitos entre as pessoas e diminuir a violência contra esses grupos minoritários.

O homem tem dentro de si a hostilidade contra quem não é ele mesmo e tudo com o que ele se identifica. Como se a presença da diferença o agredisse em certa medida. Cada um de nós, por mais esclarecido e pacifista, faz ao menos intimamente seu pequeno ritual de hostilidade contra outros seres humanos diferentes, seja um parente, um vizinho, o moço de outra religião, o torcedor do outro time, o político do outro partido.

Isto faz parte de nós e há uma luta constante de governos, organizações humanitárias e que pretendem o aumento dos direitos humanos para construir igualdade e conscientizar que o outro também é essa pessoa que te acha diferente e que no mínimo pensa mal de você por isso, mas que pode, no limite, te matar por isto, então é melhor se controlar e cuidar de todo mundo, pretendendo igualdade de direitos.

Se isso é humano, esse pensamento hostil em relação ao outro diferente de mim deve ficar só em pensamento. Mas a agressividade e violência verbal, psíquica ou física dirigida a qualquer pessoa, principalmente quando em vulnerabilidade social e minoria em relação ao que se tem como mais comum e de maior número na sociedade, precisa ser controlada e impedida.

Pra terminar citando um deputado federal que responde a muitos que pensam que direitos humanos são pra humanos direitos: Democracia não é o poder da maioria sobre a minoria. Só há democracia onde os direitos das minorias são protegidos.


dani-homeDaniela Smid é psicóloga graduada pela USP e especialista em sexualidade pela Faculdade de Medicina da USP. Psicanalista em formação pelo Instituto Sedes Sapientiae e interessada em pesquisas sobre gênero, feminismo, corpo, psicopatologias do social e medicalização da vida.
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