Usuário

Uma ninfomaníaca mal analisada

A 38aMostra Internacional de Cinema de São Paulo entrará em cartaz dia 16 e fica até dia 29/10.

Nela haverá a exibição da versão longa (versão do diretor) de Nymphomaniac do dinamarquês Lars von Trier de cinco horas e meia. Pra quem não soube, o filme de 2013 foi exibido aqui em duas partes, em janeiro e março deste ano. A primeira parte que foi exibida com 118 minutos será de 145 e a segunda que teve 124 terá 180 minutos.

Abaixo, segue uma nova versão de texto que publiquei no blog onde escrevi de 2007 até o início deste ano: psicanalisesexualidade.blogspot.com. O texto é uma tentativa de análise do filme. No blog publiquei apenas sobre a primeira parte, os acréscimos da segunda parte, deixei aqui pro PsiBr, onde passei a escrever.

Pra quem não assistiu ao filme e deseja fazê-lo agora na Mostra, aviso: este texto tem muitos spoilers. O que no caso de um filme de von Trier não é um problema, então siga adiante!

Em Nymphomaniac temos um Lars von Trier novamente tocante. Utilizando a estética brechtiana, já familiar ao diretor, não pretende hipnotizar ou absorver, e sim provocar um distanciamento no espectador, para que este possa refletir sobre a encenação.

Sem tentar repassar os capítulos do filme, mas imaginando uma história, um caso clínico, se quiser, pode-se pensar no seguinte:

Joe, personagem principal que se mostrará a ninfomaníaca, quando criança, recebe o amor do pai, numa relação que se por um lado oferece uma base de construção de amor, por outro não permite uma introdução dela na cultura, como veremos adiante. Joe não recebe muita atenção ou amor da mãe, quase nenhum. Ela fica com o amor do pai só pra si, um pai que não consegue investir amor em sua deprimida esposa, que não tem uma troca afetiva com nada nem com ninguém, plays solitaire.

Com o investimento do amor paterno, Joe cresce. No momento de suas investigações e experiências sexuais infantis, Joe parece não passar por nenhuma espécie de repreensão, muito pelo contrário, ela é quase incentivada a viver livremente suas experiências.

No filme, a cena da brincadeira no banheiro é muito emblemática, pois há alguns elementos essenciais pra pensar os destinos da pulsão em Joe. Ela brinca livremente com a amiga, num recinto afastado dos olhares potencialmente repreendedores de adultos, num recinto onde é comum tirarmos nossas roupas e nos despirmos dos pudores, ela experimenta, junto com a amiga, sensações prazerosas (talvez as primeiras da fase genital). É uma cena que pode remeter a qualquer brincadeira sexual infantil de qualquer espectador, pode ser comum, no entanto o que ocorre depois, o pai não deixando que a mãe repreendesse Joe e a amiga, é que mostra onde se inicia um problema para a vida pulsional de Joe. O pai se nega a promover a função de restringir, de ser lei, de dar uma regra. A mãe tenta, mas o pai não repreende. A repreensão dos atos sexuais na infância serve, entre outras coisas, para inserir a criança na cultura, serve para delimitar destinos pulsionais. Com uma delimitação do prazer, a pulsão pode se orientar também para a cultura, para a autorreflexão, mas sem esta delimitação, a pulsão corre livremente com o destino de obtenção de prazer e com destinação destrutiva também, como veremos.

Isto pode ser confirmado quando vemos que Joe mal compreende as ilustrações metafóricas de Seligman, ou seja, pouco destinou sua pulsão para a cultura, e parece nunca ter refletido sobre si.

Aliás, é também com esta reflexão sobre a pulsão sexual ser desenfreadamente satisfeita (entre outras reflexões) que Freud pensa na pulsão de morte, ou seja, uma orientação da pulsão que culmina com algo improdutivo e morto, pois se pensarmos no que Joe obtém pra si com os atos sexuais desenfreados, temos um saldo de destruição e tristeza, e nenhum contentamento ou satisfação, apesar do gozo orgânico, primitivo que ela parece sentir nesta primeira parte do filme.

O pai de Joe extrai prazer da vida, fala com prazer, é um objeto sexual (objeto no sentido de meta, objetivo). Joe se fixa no pai, que não a refreia, que não a interdita. A não interdição da troca amorosa entre os dois passa, por associação, a uma não interdição sexual, no âmbito da fantasia. Joe se fixa no pai amorosa e sexualmente, e talvez ame o pai através do sexo com outros homens.

Joe não conhece o amor por outro homem que não o pai, é impedida de amar, impedida pelo pai que não a interdita. Joe busca nos homens algo, sem saber o que, é sua pulsão tentando encontrar um local melhor onde se fixar para sair de um sintoma que a destrói. Atuações atrás de atuações, sem reflexão, sem elaboração, sem possibilidade de ressignificação ou investimento significativo, Joe se torna ninfomaníaca. É patente a monotonia, o desinvestimento de Joe nas interações sexuais com seus parceiros.

Uma excitação sexual que precisa tender ao zero, à eliminação. Um desejo de não ser mais importunada pelas excitabilidades e poder se manter imóvel. É como Seligman encontra Joe.

A metáfora promovida por Seligman permite a narrativa inicialmente desafetada, mas progressivamente mais implicada. Nesta parte do filme Joe ainda não habita sua carne, ainda está vazia e caótica. Este homem oferece a Joe as metáforas necessárias para o início de uma fala. A fraqueza da voz de Joe, seu pouco tônus, em todos os momentos de sua vida, ilustra a fala impossibilitada, a vivacidade interrompida.

Quando seu pai morre, abre-se a possibilidade de luto, abre-se então a possibilidade de elaboração, mas que fica girando em falso, até que ela encontra Seligman.

Joe não consegue dimensionar o amor ao longo de toda esta parte do filme, ela não pode ainda unir amor e sexo. Na cena do ingrediente secreto, ela ainda não compreende, rechaça a ideia, se rebela contra o amor, sem saber o que é. E quando acha que encontrou o amor, diz, “Eu não sinto nada”.

Seligman encontra Joe num momento de quase entrega para o inorgânico (no segundo filme, descobrimos que ela, no chão, acaba de proferir as palavras “preencha todos os meus buracos”, que nada mais é do que um pedido: “mate-me”, ou “salve-me”). Ele empresta seu desejo a ela, que então, por ele, se levanta e segue para o que se pode chamar de vivência analítica.

Na segunda parte de Nymphomaniac, von Trier nos desvenda algo mais anticrístico e melancólico, entrelaçando a cadeia de significantes que fazem jus à denominação de trilogia da depressão junto com os filmes Antichrist e Melancholia, Nymphomaniac nos leva já em seu primeiro volume a refletir sobre os destinos da pulsão, na força destrutiva da pulsão de morte. Compreendendo a cisão do filme não só como uma estratégia de marketing, há uma quebra e aspectos contraditórios entre a primeira e a segunda parte. As metáforas vão se extinguindo agora e o discurso que surge entre os dois personagens principais permite uma maior aproximação com os aspectos de mal-estar na cultura que o filme traz.

Agora Joe pode dizer melancolicamente da perda de seu gozo. Aquilo que parecia prazer na primeira parte é tomado como ausência dele na segunda. Joe desencontra o prazer sexual tido na infância e parte para uma busca voraz para reavê-lo. Ao contar isto para Seligman, cobra dele uma escuta mais interessada, quando ele só pode fazer paralelos com conteúdos da cultura. Em “O mal-estar na cultura”, Freud mostra a ciência como sendo tão ilusória quanto a religião. E neste momento do filme, o capítulo chama-se “A igreja do oriente e do ocidente”. Joe desvela Seligman como um homem incapaz de ter empatia com ela, pois nunca tivera contato sexual. Aqui Joe começa a entrar na vida de Seligman que então também pode falar de si, de sua assexualidade, virgindade. Duas pessoas em busca de resolução, representando elementos sociais: pulsão sexual versus cultura/religião.

Usando a análise de Márcio Seligmann-Silva no prefácio da tradução direta do alemão por Renato Zwick do livro “O mal-estar na cultura” de Freud, temos que: Unbehagen (mal-estar) – o significado do termo behagen (que é negado pelo prefixo um-) é algo como “sentir-se protegido”. Unbehagen remete a uma fragilidade, uma falta de abrigo, estar desprotegido.

Freud localiza a origem do sentimento religioso na sensação de desamparo da criança. O sentimento proposto pelas religiões (um sentimento de união plena, chamado de sentimento oceânico) é uma projeção posterior do sentimento do bebê de indistinção com o mundo e de amparo absoluto (ter todos os buracos preenchidos). O bebê é puro behagen (sentir-se protegido). Para ele, não existe o mundo. Esse ponto zero do desenvolvimento de certo modo é visto por Freud nesta obra como o fim de toda libido, que visaria a atingir novamente um estágio de completude, sem conflito com o mundo. É como Joe deseja estar. E quem nunca?

Um diálogo marcante entre Joe e Seligman nesta segunda parte é quando Joe utiliza uma palavra que Seligman considera politicamente incorreta e a orienta a não usá-la, ela então diz que quando uma palavra é proibida, você remove uma pedra do alicerce democrático, contra o que Seligman argumenta que é justamente para uma inclusão democrática de minorias que se constrói algo politicamente correto. Contra isto Joe diz que a sociedade é estúpida e hipócrita demais para haver democracia.

Tal diálogo marca aquilo que von Trier critica sobre a sociedade, sua hipocrisia. O que é curioso pensar, pois quando ele falou publicamente sobre o nazismo, foi fortemente repreendido. Ainda que ele tenha de fato aquela opinião e ache que falar da forma como falou sobre o nazismo é possível, democrático e não hipócrita, viu que em sociedade não se pode dar o destino desejado das pulsões, ou melhor, fazê-lo tem efeitos muitas vezes indesejados.

A criança tem seus desejos desenfreados, é perversa polimorfa, não conhece freios, tudo é sexualidade na criança, explica Seligman a Joe, citando Freud. Para viver em sociedade, temos os pais ou quem quer que esteja responsável pela nossa educação e inserção na cultura nos ensinando, barrando nossas pulsões desenfreadas, sejam as destinadas ao prazer ou a destrutividade.

No sétimo capítulo do filme, chamado “O espelho”, Joe entra para um tratamento contra sua adicção a sexo. Mas no momento em que ela faz um depoimento no grupo dizendo que está há duas semanas e cinco dias sem sexo, ela tem uma alucinação, num espelho ela se vê criança com seus 12 anos, a idade em que teve um orgasmo espontâneo, e depois deixa de ter qualquer orgasmo. E então desiste do depoimento e se diz diferente de todas ali, se diz ninfomaníaca e não adicta a sexo como as outras. E segue para um momento bastante heterodestrutivo, o capítulo chamado “A arma”. Ao som de “Burning down the house” dá vazão aos seus impulsos destrutivos de forma desenfreada e facilitada por uma figura masculina que a incentiva nestes atos. Seligman interpreta estes atos de Joe como uma luta contra o gênero que a oprimiu e mutilou.

Tanto a destrutividade quanto a pulsão de vida opera dentro de cada um de nós. Visar à extinção da destrutividade com as regras e leis serve apenas para que não nos matemos incessantemente até o fim de todas as vidas, serve para a manutenção da sociedade, mas não é possível tamponar por completo a destrutividade, nem a pulsão de vida, ou seja, por mais que haja guerras, haverá forças contrárias a elas tentando promover paz e por mais que se queira viver em paz, a destrutividade nos toma as vísceras e nos move contra nós mesmos e contra os outros.

A psicanálise não se presta a ser uma nova religião, como querem dizer muitos críticos, mas mostra que nem a ciência, nem a religião, nem ela mesma resolve completamente essas questões humanas que simplesmente estão aí para ficar. Fazer uma análise apenas permite desconstruir alguns mitos e trazer para a consciência alguns conflitos, permitindo melhor manejo pessoal deles, dando maior liberdade ao indivíduo.

Ao final do filme, Joe vive um final de análise, algo resolutivo, liberta-se de algumas interpretações equivocadas sobre si, consegue se compreender e pensar num destino melhor para suas pulsões, mas se o papel de Seligman era o de psicanalista, como quisemos pensar nesta análise, ele põe tudo a perder, tentando ter sexo com Joe. O desfecho da trama é a concretização da impossibilidade analítica quando não há abstinência, quando o analisando suscita uma repetição no analista e este atua sem freios, sem reflexão. O apagar das luzes é a morte psíquica de Joe, que mata Seligman e vai embora. O efeito analítico se impossibilita no momento do ato (acting out) de Seligman. Toda construção analítica se rompe e vem à tona novamente a repetição. Aquilo que o amor e a compreensão tentaram reparar, se inutiliza no ato hostil de Seligman.

Algo da ordem da depressão se instala no espectador, como que mostrando de forma contundente que muitas vezes não há final feliz.

dani-homeDaniela Smid é psicóloga graduada pela USP e especialista em sexualidade pela Faculdade de Medicina da USP. Psicanalista em formação pelo Instituto Sedes Sapientiae e interessada em pesquisas sobre gênero, feminismo, corpo, psicopatologias do social e medicalização da vida.
Mais textos da autora