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Hierarquia x Diferença

Para inaugurar este espaço onde pretendo que se realizem conversas e se troquem ideias e informações, faço um convite à discussão sobre gêneros.

É fácil crer que em tempos remotos as questões anatômicas dos gêneros exigiam uma divisão de tarefas e isso era feito por uma razão biológica (mulheres menstruam, engravidam, têm menos massa muscular em relação a um homem de mesmo porte físico), razão que se prestava a uma praticidade e, no limite, tinha efeitos políticos (mulheres devem ficar mais restritas ao cuidado da prole, devem cuidar do espaço de convivência, realizar tarefas que exijam menos esforço físico).

Numa época em que questões anatômicas ou biológicas não são mais determinantes para circunscrever atividades que devam ser femininas ou masculinas, a não ser a gravidez e a amamentação, pois a tecnologia, desde a pílula até as adaptações para a convivência junto da natureza, tratou de equiparar homens e mulheres, a questão que se impõe então é, por que continuar reproduzindo um discurso do que é feminino e masculino, e do que se deve ou não fazer se se nasce homem ou mulher, se não mais é necessária uma divisão de tarefas determinada?

Quando uma mulher está grávida e faz um exame de ultrassom para saber qual o sexo de seu bebê, invariavelmente ela começa a desejar coisas pelo e para seu filho(a). O que costuma ocorrer é uma série de escolhas pautadas em um desejo materno, desde o nome até a profissão deste ser que ainda está no ventre.

Tudo isso é muito importante para a constituição de um sujeito que precisará de regras e circunscrições, e é muito importante para a construção de um espaço psíquico de um filho na cabeça dessa mãe e também de um psiquismo do bebê e futuro sujeito.

Mas reflitamos acerca do seguinte: algumas escolhas e desejos são meras reproduções discursivas que tentam aprisionar um ideal de masculino e feminino, e nesta vontade de que se possa conter um script de condutas para quem nasce com pênis e outro script diferente para quem nasce com vagina, acaba-se reproduzindo a hierarquia entre os gêneros, de forma impensada e perigosa.

No momento em que pais dizem a um filho que ele deve ser forte, deve ganhar dos colegas na escola, deve namorar bastante, deve cuidar da irmã, e dizem a uma filha que ela deve tomar cuidado, não deve sair sozinha, não pode namorar muitos meninos, pode desistir de um curso qualquer quando ela diz que está difícil... Eles promovem uma perigosa hierarquia entre os gêneros. E poderia encher muitas páginas de exemplos...

Quando pais fazem isso com os filhos, eles reproduzem a inferioridade feminina e a superioridade masculina, como se ainda devêssemos funcionar socialmente com uma marcada divisão de papéis. Ensinam que existe uma fragilidade da menina e uma força do menino, como se fosse algo natural, essencial.

Se os pais educassem as crianças a terem respeito com todos, meninos e meninas, encorajassem filhos e filhas a superarem suas dificuldades, incentivassem ambos a aprenderem ofícios diversos, é possível que a sociedade assistisse a menos agressões contra mulheres e menos exigências para os homens.

O fato de repetirmos discursos de quando mulheres dependiam fisicamente de homens, só faz manter essa exata e mesma condição no âmbito não só físico, mas também psíquico, ético e político.

Nascer com pênis ou com vagina não significa ter maior ou menor potência e possibilidades na vida, a não ser que você cresça aprendendo e reproduzindo isto.

E há outro fato importante aí... Nascer com pênis ou vagina não implica em assumir uma identidade de gênero masculina ou feminina. Tanto a feminilidade é construída, quanto a masculinidade, mas isto é papo pra próxima vez.


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Daniela Smid é psicóloga graduada pela USP e especialista em sexualidade pela Faculdade de Medicina da USP. Psicanalista em formação pelo Instituto Sedes Sapientiae e interessada em pesquisas sobre gênero, feminismo, corpo, psicopatologias do social e medicalização da vida.
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