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He For She: Aqui

Há uma semana a ONU iniciou um movimento chamado HeForShe com o intuito de convidar homens a se preocuparem com os movimentos feministas que pretendem igualdade de gêneros, e vem chamando a atenção de muitos para o tema.

“HeForShe é um movimento de solidariedade pela igualdade de gênero que reúne uma metade da humanidade em apoio à outra, pela totalidade da humanidade”, é o que diz o site.

A página do movimento tem um local “take-action” em que um homem pode clicar em “I agree”, concordando e se comprometendo a agir contra toda forma de violência e discriminação contra mulheres e meninas, e demonstrar solidariedade à causa.

A questão que se abre é: um clique ali não é tomar uma atitude, não reflete numa realidade em que um homem consegue mesmo demonstrar que se importa em seu cotidiano em não tratar com violência ou desigualdade uma mulher seja em seus diálogos ou atos, e mais do que isso, um clique ali não muda realidades.

Muitos homens nem se dão conta do quanto contribuem para a manutenção das desigualdades entre homens e mulheres. As mudanças implicariam em não fazer e impedir piadas misóginas, não tentar disciplinar uma mulher de forma nenhuma, não compartilhar imagens que as exponham, posicionar-se contra outro homem que a agrida física ou verbalmente, desestimular a compra de produtos e serviços que a objetificam, entre outros comportamentos que estão muito arraigados nas práticas masculinas em todas as classes sociais e infelizmente de todos os níveis culturais, em várias partes do mundo.

Pra ilustrar a importância da luta por igualdade de gêneros ou quiçá pela desconstrução de gêneros, o que seria ainda mais interessante, mas falo disso outra hora, vou usar como emblema um fato ocorrido em 2013 com a cantora americana Amanda Palmer. Durante uma performance musical que evidenciava inúmeras qualidades técnicas e artísticas da cantora e sua banda, uma parte de seu corpo ficou exposta, um seio. E então um jornal noticiou não seu desempenho artístico, mas a parte do corpo exposta da cantora.

Sem deixar de lado o fato de que jornais invariavelmente usam de quaisquer artifícios para serem lidos e aumentarem vendas, vamos nos questionar por que um seio à mostra tem que servir a isto? Por que e quando o corpo feminino foi utilizado como objeto, de venda, de controle? Por que a qualidade e capacidade de uma mulher foi deixada invisível para que seu corpo erógeno aparecesse como notícia/propaganda?

O corpo feminino sofreu historicamente e sofre ainda hoje um controle para que se mantenha escondido/proibido, e quando mostrado, é usado para deixar escondidas as qualidades culturalmente valorizadas da mulher que o mostra. Esse fato é apenas um em milhares de exemplos que poderiam ser citados em que a mulher se torna invisível em suas capacidades e habilidades técnicas/culturais e um discurso masculino, misógino, faz um uso disciplinador, desvalorizador e controlador utilizando o corpo feminino como argumento depreciativo.

A mulher vem conseguindo se inserir socialmente com capacidades técnicas e culturais idênticas às dos homens, mas o que escapa é seu corpo erógeno, é o fato de que desejem que ela se envergonhe de mostrar seu corpo que deve permanecer protegido, escondido, proibido, ficar invisível, para não atrapalhar a ordem social, o desejo masculino (sempre suposto como heterossexual), para não desviar a função produtiva social. O corpo feminino, muito mais do que o masculino, foi construído como erótico e foi usado como atrativo para vender de jornais a iates, e todas as mulheres se às vezes por um lado permitiram e gozaram disso (e portanto contribuem para a manutenção desse controle), também pagam um enorme preço aprisionador por isso.

A resposta de Amanda Palmer ao fato é também emblemática, pois reinscreve o corpo erógeno como corpo político. Ela escreve uma valsa em resposta a atitude do tabloide e se despe no palco para mostrar que então ela controla o seu corpo que naquele momento, sob seu domínio, é político e usado como ela deseja, para inscrever sua capacidade artística em cima da tentativa depreciativa do jornal.

Pra que o uso desse exemplo? Vejam, ela, uma americana, branca, de classe social alta, foi vítima de um discurso misógino, controlador. Seu corpo foi exposto por um jornal como se isso fosse banal, corriqueiro e inofensivo, mas ela, americana, branca e de classe social alta tem chance de se defender e se com ela um jornal fez isso, se um discurso masculino potente como a mídia faz esse uso do corpo de uma mulher potente, podemos pensar em mulheres em situações de muito maior vulnerabilidade social que não têm chance de defesa, que têm arrancada de si a condição de independência sendo violentada e controlada porque são mulheres em seus corpos às vezes só vistos como sexualizados e passíveis de controle, porque há homens achando que seus corpos podem ser dominados, usados, disciplinados, controlados.

Mas não há dúvidas que o fato de alguns homens (Inclusive o companheiro da referida cantora, Neil Gaiman, foi um dos assinantes do #heforshe), por atitude solidária, se juntarem a um movimento que independente de ser promovido pela ONU, ou por coletivos independentes em qualquer país do mundo, tem muita relevância tanto quanto quaisquer solidariedades em lutas e movimentos por igualdade social, por direitos humanos. Mas é importante marcar que não é só clicar em um “I agree” num site da ONU que fará mudar algo em nossa realidade social.

A iniciativa da ONU tenta chamar atenção dos homens para uma luta de igualdade de gêneros, mas podemos refletir sobre o alcance disto, pois para mudar comportamentos, seria necessária uma seriedade muito maior não só da ONU, e de todos os governos, mas fundamentalmente dos cidadãos ali em suas realidades sociais específicas, que ao votarem, se empenhem em saber se o programa do candidato e do partido se preocupa com a igualdade, por exemplo, se comprometendo com algum tipo de determinação de base legal sobre a mídia para controlar propagandas que usam o corpo da mulher para venda de quaisquer produtos, com propostas de jornada de trabalho reduzida e salários iguais para homens e mulheres, entre outras medidas que poderiam facilitar mudanças reais na sociedade.

As mudanças comportamentais são muito importantes, mas serão mais possíveis depois de mudanças político-sociais, e giram em torno da mulher também se empoderar, deixar de sentir que tem necessidade de ser protegida por um homem, ter a segurança de se defender de uma agressão e saber que será ouvida e respeitada, pra tudo isso, mudanças políticas são necessárias.

Dia cinco de outubro aqui no nosso Brasil teremos chance de escolher pessoas que se comprometam de fato com isto. E que para além de um clique em um “I agree” num site da ONU, podemos fazer um uso político de nossos corpos e votar com o intuito de promover de fato mudanças que permitam maior igualdade de condições entre todos.


dani-homeDaniela Smid é psicóloga graduada pela USP e especialista em sexualidade pela Faculdade de Medicina da USP. Psicanalista em formação pelo Instituto Sedes Sapientiae e interessada em pesquisas sobre gênero, feminismo, corpo, psicopatologias do social e medicalização da vida.
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