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As múltiplas faces de Thanatos

Afeto ingrediente da trama intersubjetiva, o ódio se insinua e se revela em desejos, discursos, sintomas, chistes, fantasias e também em atos. Expressão do narcisismo, está presente na vida psíquica podendo ter deslocamentos dos mais variados.

O ódio é uma das faces da pulsão de morte que visa a finitude, estagnação, eliminação da tensão psíquica, e tal pulsão faz um jogo contínuo e conjunto com sua parceira, pulsão de vida, esta sendo compreendida como energia vital, movimento, criação, construtividade.

Pungente e inexorável, a via da agressividade poderia encontrar saídas menos estéreis do que sua manifestação violenta se fosse sublimada, seja em diálogos hostis, mas profícuos, seja em outras esferas de interação humana como nos esportes e nas artes, por exemplo, mas parece que nos encontramos em uma espécie de clausura de onde a agressividade não pode escapar para outros destinos mais elaborados e menos destrutivos.

O ódio direcionado ao outro pode ser compreendido dentro de nós antes de ser posto em prática, para que haja a possibilidade disso não ocorrer. É nossa porção civilizada, é o que nos torna capazes de convivência, e em todos os casos de violência há um fracasso civilizatório, um esvaziamento de sentido da convivência.

A sociedade do consumo, com seus traços perversos, parece ter enraizado uma lógica da naturalização da violência e, no limite, do extermínio, e nesta lógica não haveria problema em agredir e até mesmo matar o outro, considerado como alguém descartável.

Na atualidade, a subjetividade dos indivíduos traz as marcas do que Lacan denominou discurso capitalista, onde funciona um regime de falta de gozar. Nesse regime, todos são despossuídos, nada têm para estabelecer laço social, vivem em insatisfação permanente, expressa na fórmula do “nunca é bastante” e na busca constante de mais.

A violência vem se instalar como um sintoma social consequente desta lógica, deste regime. Assim como crianças mimadas, os sujeitos atuam uns sobre os outros sua ira de insatisfação, como se não tivéssemos todos que dar conta da organização social, como quem de fato espera que um pai ou mãe tome conta de tudo.

É sabido que os meios de mudança social democráticos e não violentos são morosos, são muitas vezes frustrantes, mas são os únicos que permitem autonomia e liberdade.

O ódio expresso no desejo de regressar para um lugar onde um pai tome conta de tudo é assumir uma posição de falência da construção de independência não só de cada um dos sujeitos, mas de uma comunidade — um país.


dani-homeDaniela Smid é psicóloga graduada pela USP e especialista em sexualidade pela Faculdade de Medicina da USP. Psicanalista em formação pelo Instituto Sedes Sapientiae e interessada em pesquisas sobre gênero, feminismo, corpo, psicopatologias do social e medicalização da vida.
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