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O bueiro e o pintinho

É final de primavera: os ovinhos pipocam, é hora de nascer.

As galinhas passeiam orgulhosas com seus minúsculos pintinhos. Aos catorze gansos, mais dois filhotes se agregaram. Amarelinhos, quase do tamanho de um galeto, passeiam entre o bando que grasna em unívoco; não se identificam pais e mães, o conjunto se encarrega de cuidar dos pequenos. As galinhas, pelo contrário, ciscam por todo lado, acompanhadas de perto pelos seus pequeruchos.

Em minha caminhada diária, ao dar a volta pelo canteiro central, observei certa moça pulando aqui e acolá na tentativa de auxiliar um pintinho; ele não conseguia saltar a guia, como seus cinco irmãos já haviam feito. A galinha mãe não percebeu a cena, preocupada em ensinar seus filhos a procurar comida.

Outra menina, com um saco na mão, lançava pipocas para três gansos que se aproximaram. Só um deles, mais afoito, chegava bem perto e comia tudo. A mãe apontou para o outro ganso: "vem logo, pato, o mundo é dos espertos; desse jeito você não vai comer nada".

Não sei se o mundo é dos espertos, nem se é importante trocar pato por ganso, mas é assim que se ensinam os valores aos filhos, desta forma corriqueira e despretensiosa.

Observada por quatro pessoas, a moça corria, cercava, pulava, tentando ajudar, mas o pintinho não conseguia dar o salto definitivo. De repente, pluft, o pintinho sumiu; foi engolido, caiu no bueiro.

Ahhh, e agora! Olharam para dentro e lá estava o bicho. "Ich, tem outro lá também", ela disse. Alguém perguntou: "tá vivo"?

"Decha cumigu qui esse troço tá na mão", foi logo um dizendo ao se atracar com o bueiro. Nada. Os pintinhos lá dentro piando e a mãe nem tinha notado. É lei da natureza: quem muitos tem por cuidar, perde alguns pelo caminho.

Mais gente apareceu, puxa daqui, puxa de lá e nada, o bueiro estava encalacrado. Algumas pessoas desistiram.

"E se ela não tivesse tentado ajudar? Talvez o pintinho tivesse se virado de outra forma; ele assustou com a insistência dela e caiu. A interferência humana no mundo animal só atrapalha; deixe a natureza agir. É, mas e o outro, já estava lá; se um não tivesse caído, não se saberia do outro".

A rodinha formada lançava opiniões, com direito a lições de moral: "os mais fortes sobrevivem; quem não salta da sarjeta, cai em desgraça". Ou no bueiro.

Sei lá se por solidariedade galinácea ou porque a aflita mocinha era bonita, outros se dispuseram a ajudar. Munidos de ferramentas e algum esforço, foi arrancado, enfim, o teimoso bueiro.

Depois de muitas folhas, algum lodo, diversas minhocas e catorze baratas, eis que os pintinhos foram resgatados. Não dois agora, mas três, e diferentes entre si; não apenas uma só mãe, mas várias, tinham perdido seus pimpolhos.

"Tá vendo como a interferência dos homens pode ajudar a Natureza! Meu Deus, quantos pintinhos não caem nos bueiros todos os dias? É preciso tomar alguma providência, pobre dos pintinhos. Vamos solicitar à mulher do governador a abertura de uma ONG para salvar os pintinhos dos bueiros"... Enfim as opiniões proliferavam.

Não esperei dissipar a rodinha e fui-me, preocupado com as sarjetas da vida.

Nesta noite, sonhei com pintinhos gigantes devorando a moça que tentava salvá-los, com um ganso selvagem de garfo e faca nas patas, gritando que pato não é ganso, e acordei assustado com uma pronta decisão na cabeça: neste réveillon, não vou comer carne de peru.


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Mauro Hegenberg é médico pela FM-USP e doutor em psicologia pelo IP-USP. Especialista em psicoterapia breve pela Universidade de Lausanne. Coordenador do Curso de Psicoterapia Breve do Instituto Sedes Sapientiae.  Autor dos livros "Borderline" e "Psicoterapia breve" (Casa do Psicólogo).
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