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Meus mortos

Ao ir para a aula do Instituto Sedes Sapientiae na terça passada, pensei que diferença faria ao meus pais, já falecidos, como estou eu hoje: se vivo, se morto; se feliz ou doente? Se minha mãe, mesmo com 82 anos e eu com 60 anos, ainda me perguntava se eu comia de forma saudável ou se dirigia com cuidado, agora, que diferença faz?

Somos determinados historicamente, somos marcados pela nossa educação familiar, induzidos pelas nossas determinações cerebrais inconscientes, influenciados pela nossa história pessoal e nunca, nunca escapamos de nossa bagagem genética e de nossos cuidadores mais próximos, ou seja, de nossas figuras primitivas.

Como é possível ter 62 anos e ainda se lembrar diariamente dos pais, tios, avós, irmãos, primos? Que falta do que fazer, caro cérebro amigo! Que minha tia me criou como pouco inteligente e muito esforçado, que minha avó me achava feio e minha mãe me considerava gordo, são entraves ainda presentes e difíceis de superar. Que meu tio, em 1964, ficou uma hora gritando comigo e quase destruindo a casa em função de seus gritos porque eu, brincando, chamei minha tia de fofoqueira! Que meu pai me elogiou pela primeira vez aos 85 anos de idade; que me lembro de um único e desajeitado cafuné feito por minha mãe, quando eu deitei no colo dela e coloquei sua mão na minha cabeça, com 14 anos de idade. Que meu avô, o "não conte comigo" da família, teve um sonho onde eu era o avô dele, a única pessoa que cuidou dele na sua infância; que minha avó queria um neto médico para cuidar dela e me formei em medicina; que minha mãe disse uns poucos anos antes de morrer: "pra que eu criei três filhos, se não para cuidarem de mim?"

E que falta eles fazem!! Que estou vivo por conta deles e dos enormes esforços que fizeram, que a vida deles não foi nada fácil. Que eles eram toscos do ponto de vista emocional por conta da educação que tiveram, bem mais sofrida da que eu tive. Que vivo bem e melhor do que eles do ponto de vista material, por conta de tudo que me proporcionaram, dos sacrifícios que fizeram em nome das futuras gerações, da preocupação genuína com minha educação formal e informal.

Como seria eu sem eles? Como esquecer de meu avô violinista e seu quarteto de cordas do Teatro Municipal, quando ainda hoje Mozart me invade com sons paradisíacos; como esquecer de minha mãe a cada segundo que vejo um gato ou um cão pela frente e como ela nos ensinou a amar através do carinho com qualquer animal; como esquecer de minha tia me ensinando a ser bom aluno; como esquecer da herança intelectual do meu pai, sempre grudado nos seus livros; como esquecer dos Beatles e do meu irmão sempre a ouvi-los; como esquecer da minha avó e seu pudim de leite, feito apenas duas vezes por ano e dos nossos cacarecos que estavam na casa dela; como esquecer do meu tio e do Vivaldi com Dante que ele ouvia e lia todos os dias; como esquecer do Corinthians e de quem me levou a ser corinthiano?

Quantos erros, quantos acertos! Se minha educação foi rígida, quando me lembro de que tinha direito a ver TV só uma vez por semana e escolhia o seriado "Combate", às terças-feiras às 21h, também me lembro de que entrei em Medicina por conta disso. Se me consideravam pouco inteligente e me colocaram no pior colégio de São Paulo porque eu não daria conta do colegial no Bandeirantes, onde fiz o ginásio e fui excelente aluno (ai, quem me enxergava?), por outro lado me proporcionaram uma base para eu me carregar sozinho. Se meu pai deu pouca atenção aos filhos da Jane, ele me deixou o exemplo do estudo, do interesse em fazer meu doutorado, do desejo de escrever meus livros acadêmicos. Se tenho avô, tia e pai professores, por que será que dou aulas até hoje?

Se eu era tímido e feio, hoje consigo lidar com isso de forma satisfatória, se era burrinho e tosco, hoje as terapias e a vida algo me ensinaram, se era inseguro e influenciável, hoje me aguento nas tamancas com ideias e ideais que eles me ajudaram a criar.

Se me considero honesto e íntegro, devo aos meus familiares o exemplo. Eu fui cuidado na medida das possibilidades deles, e se continuo vivo e satisfeito, muito disso se deve aos sacrifícios que eles fizeram. Agradeço aos meus mortos, antepassados com vidas que nem imagino como foram, gerações de alemães e ucranianos de séculos e séculos atrás. Obrigado, meus velhos amigos e companheiros de Jornada; aqui está um idoso saudável e feliz, devido a tudo o que vocês foram ao longo de todos estes anos. Que meus filhos e netos saibam honrar seus esforços para construir uma família e um mundo melhores.


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Mauro Hegenberg é médico pela FM-USP e doutor em psicologia pelo IP-USP. Especialista em psicoterapia breve pela Universidade de Lausanne. Coordenador do Curso de Psicoterapia Breve do Instituto Sedes Sapientiae.  Autor dos livros "Borderline" e "Psicoterapia breve" (Casa do Psicólogo).
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