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Fantasmas

A Psicanálise se refere a fantasmas, que sobrevoam nossa existência e nos conduzem a lúgubres conjunções inconscientes. Aqui, um exemplo.

Augusto, 47 anos, é competitivo, esbarrando seriamente em seus limites nesta competição. Administrador de empresas formado na FGV, com MBA em Harvard, é presidente de uma Companhia onde o dono das empresas é o seu chefe direto. Está lá há mais de vinte anos e o empregador sabe como escravizar seus executivos.

No início da análise, dizia que precisava guardar X milhões para conseguir tranquilidade na vida. Ficou uns seis meses na terapia, interrompeu e agora voltou. Refere não ter obtido o tal sossego, embora já tenha ultrapassado a quantia estabelecida anos atrás.

Ele trabalha todos os dias, desde as 5h da manhã, sem horário para encerrar. O dono da empresa lhe telefona a qualquer hora, inclusive durante as sessões. E sugere/exige que eles têm que fazer uma reunião em qualquer horário, 22h ou mais, por motivos diversos, seja domingo ou feriado.

Augusto sempre lidou com a vida tendo que ganhar de tudo e de todos. Se faz exercícios, vai no limite até machucar os joelhos; está em um trabalho de alto grau de complexidade, que envolve milhões, onde não se pode errar; quando era jovem e bebia, bebia muito; ao dirigir o automóvel, a velocidade é a que o carro aguenta; fala ao celular enquanto dirige, o que já ocasionou algumas colisões; quando jogava futebol, era vencer ou morrer em campo. E por aí vai.

Em uma determinada sessão, diante da pergunta do por quê ele é assim, sem conseguir sossegar, alguns fatos de sua história vieram à tona. Caçula de cinco irmãos, é sete anos mais novo do que o primeiro dos irmãos, todos homens. Há uma suspeita de que a mãe não queria mais filhos, mas ele nasceu. Diante deste quadro, Augusto, desde sempre, “percebeu” que lutava pela sobrevivência naquela família. Os irmãos, com diferença de idade de um ano entre cada um deles, sempre maiores e mais fortes, ou desprezavam o caçula, ou o perturbavam. Para poder existir e sobreviver, Augusto desenvolveu uma linha de competitividade sem limites. Ou ele tinha esta característica de ultrapassar seus limites, ou ele nem chegava perto dos irmãos mais velhos. E será que os pais o amavam e o queriam?

Ele se preocupa com os filhos, ainda adolescentes, asseverando que eles precisam dele, considerando que a esposa é dona de casa, como fora sua mãe. Em função disso, precisa trabalhar muito, juntar dinheiro e comprar bens.

Eu lhe disse que a competitividade com tal característica de ultrapassar limites razoáveis estaria a serviço da sobrevivência; no caso atual, uma ilusão de sobrevivência financeira. Ele olhou para mim e disse que a sobrevivência é como um fantasma, que o assombra o tempo todo.

Sim, um belo exemplo de fantasma; um fantasma que é uma sombra que permeia sua vida, determina comportamentos e sustenta angústias. O fantasma da sobrevivência exige que ele seja competitivo, que não sossegue nunca, porque ele pode precisar de mais e mais, ele pode perder o que tem (muito cuidado com a inflação, com o custo Brasil), a família precisa dele; só que isso não tem fim, porque os limites financeiros são elásticos e as “necessidades” e confortos não têm objetivos termináveis, fruto do fantasma que assombra e impõe.

Perceber que a competição, com tal falta de limites, é decorrente de um fantasma inconsciente, fruto de sua história de vida, é passo fundamental para poder lidar com esta angústia de separação.

O ser humano, segundo a Psicanálise, lida com três angústias fundamentais: de fragmentação, de separação e de castração. As angústias de fragmentação e de separação (ou de perda do objeto) são primitivas (pré-edípicas, fruto da relação mãe/ambiente-bebê) e constituem nosso psiquismo, com influências decisivas sobre nosso modo de ser. A angústia de separação é fruto da relação do bebê com o ambiente, do qual ele é 100% dependente durante vários anos. A relação que temos com nossos pais e cuidadores, nos primeiros anos de vida e mesmo depois, marca nossa planilha de sentimentos e comportamentos; no exemplo citado, ter que competir para sobreviver com tantos irmãos, sem ter a certeza de ser querido pelos pais, convidou nosso executivo a ser assombrado pelo fantasma da sobrevivência, ou seja, caso deixado à sua própria sorte,intuiu” que ou lutava fortemente ou morreria à míngua. É um fantasma, quer dizer, não se pode ter qualquer garantia de como ele seria se ele tivesse “acreditado” em outros fantasmas diferentes desse.

Elaborar a angústia de separação é um fator importante em qualquer terapia, mas no caso deste paciente, é crucial. O que ele vai fazer com essa angústia, como vai tentar “escapar” dos detalhes fundamentais de sua história de vida, vai depender de seus recursos psicológicos pessoais, da evolução de sua análise e dos acasos de sua vida.

Considerar, como fazem muitos médicos e psicólogos, um comportamento como algo a ser modificado, a partir de um conjunto de procedimentos cognitivos, é ignorar a complexidade do ser humano. O bicho homem é tão fascinante, que reduzi-lo a um conjunto de sintomas a serem modificados por algum programa, chega a ser uma simplificação pífia. Tentar alterar o comportamento deste paciente, focando em sua competitividade ou em mudar seus limites, seria como enxugar gelo, um equívoco vulgar. Acontece que, contando assim em algumas linhas, parece banal chegar a esta conclusão com os pacientes, e não é bem assim. Entrar em acordo de que as questões com seus pais e irmãos têm a ver com os seus sintomas, levou um tempo, o tempo da transferência, da confiança na relação terapêutica, o tempo da elaboração do paciente, que é diferente para cada um de nós.

Claro está que nós humanos somos influenciados pela ocitocina, pelas endorfinas e adrenalina, pelo sistema límbico e pelo córtex pré-frontal e tantos outros componentes de nosso corpo. Mas, para infelicidade dos aficionados pela “objetividade”, o ser humano é mais do que isso: estamos mergulhados em uma cultura, com uma história de vida singular que nos sublinha e inspira, marcados pelo inconsciente (da psicanálise ou da neurociência), limitados pela linguagem e pelo momento histórico; somos, enfim, belos exemplos de complexidade, e qualquer expectativa de reduzir o ser humano a um ou outro enquadre teórico simplificador, tende a cair no banal vazio das circunstâncias.

(Obs: O exemplo é fictício. É possível que algumas pessoas se identifiquem com o caso, o que não altera o caráter ficcional do texto).

 


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Mauro Hegenberg é médico pela FM-USP e doutor em psicologia pelo IP-USP. Especialista em psicoterapia breve pela Universidade de Lausanne. Coordenador do Curso de Psicoterapia Breve do Instituto Sedes Sapientiae.  Autor dos livros "Borderline" e "Psicoterapia breve" (Casa do Psicólogo).
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