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Ataques no parque

Há algumas horas, na minha caminhada diária pelo parque, vi um sujeito enorme exibir sua ginecomastia sem preocupação alguma. Um casal passou por ele e ouvi alguns sussurrados comentários críticos. Em um deles: "por que um homem pode andar por aí com os peitos de fora e a mulher é censurada ao fazer topless?" Humanos!

Virei a esquina e um galo chato perseguia uma colorida galinha, que cuidava de meia dúzia de pintinhos, todos do mesmo e minúsculo tamanho. A pobre escorregou de cá, desvirou-se de lá, mas foi empoleirada pelo macho incansável. Que porre, mais pintinhos pra cuidar! Será que não tem jeito de escapar destes galos que correm atrás o dia todo?

Virei a curva do laguinho e observei uma jovem e saltitante família: pai, mãe e duas filhas, todos com pouca roupa, devido aos 35 graus reinantes. Um senhor de meia idade, acompanhado de sua esposa com mais idade ainda, ao admirar a família reunida, caiu na besteira de tecer um "elogio" à filha mais nova do casal, que teria por volta de cinco anos. "Cuidado com essa menina, hein. Gostosa desse jeito, vai dar muito trabalho!"

Escutei o tapão na orelha, que me impeliu a parar e admirar a cena. O senhorzinho assustado, com a mão no rosto, olhava incrédulo para o indignado pai. "Pedófilo, pedófilo", gritava a mãe.

Pedófilo, pecador, ingênuo; quem ou o quê seria nosso velhinho?

Uma importante mudança se deu a partir das críticas do protestantismo à noção de pecado católica. No cristianismo clássico, paga-se para ter acesso ao Céu. Ao comprar indulgências, ao pagar penitências, ao assistir às missas, minhas boas ações, intermediadas pela proteção de algum santo milagroso, me garantem lugar ao lado do bom deus. A partir de Calvino, a ação deixa de ser o centro; a intenção é o que conta: a religião se torna individual, o sujeito entra em cena, o que abre as portas para o capitalismo e toda a nossa atual estrutura centrada no sujeito individualista.

O senhorzinho estava eivado de boas intenções ao "elogiar" a garotinha? Apenas quis avisar ao jovem e incauto rapaz, pai tão novinho, que a filhota, assim fantasiada de periguete, poderia ser presa fácil de lobos selvagens, dos galos insaciáveis da vida?

Boas intenções, safadeza? Como julgar uma intenção sem conhecer o réu, se o pecado é de foro íntimo? Talvez um júri popular, ao focalizar a expressão facial do agredido, pudesse absolvê-lo, tal a sua surpresa ao ser esbofeteado; ou não.

Depois da Psicanálise, no entanto, quem garante que uma boa intenção é verdadeira? E se o tal do Inconsciente do senhorzinho estava mesmo era tarado de tesão pela menininha?

Qual seria a intenção real do velhote? Atitude obscena com tesão, inconsciente sem tensão, ou apenas uma observação? Como a discussão seguiu com "ãos" intermináveis, deixei a cena e fui pra casa.

Quase ao sair do parque, uma nova caçada acontecia: mais um galo corria e outra galinha tentava escapar. Corre daqui, corre de lá e, de repente, a penosa saltou em um murinho qualquer; e não é que essa mudança de comportamento fez o galo estancar sua correria! O instinto do bicho, estimulado diante da desabalada fuga, foi inibido pela inusitada mudança de rota da fugitiva.

Eia, sus, avante! Quem sabe a menininha vestida de noiva poderá escapar dos galos silvestres com algum desestímulo aos instintos dos lobos maus pela vida afora. Será que ela vai querer?

E você, daria o tapão?


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Mauro Hegenberg é médico pela FM-USP e doutor em psicologia pelo IP-USP. Especialista em psicoterapia breve pela Universidade de Lausanne. Coordenador do Curso de Psicoterapia Breve do Instituto Sedes Sapientiae.  Autor dos livros "Borderline" e "Psicoterapia breve" (Casa do Psicólogo).
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