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Sexualidade não é opção e anatomia não é destino – Análise do filme “A Garota Dinamarquesa”

Fiquei muito contente com a vitória de Alicia Vikander no Oscar 2016 como melhor atriz coadjuvante. A atriz sueca deu vida à Gerda Weneger, pintora dinamarquesa que se casou com Einar Weneger, também pintor, e cuja transformação em Lili Elbe é lindamente retratada no filme “A Garota Dinamarquesa”. Minha esperança é que a premiação ajude a aumentar o interesse por uma história que precisa ser conhecida não só pela comunidade LGBT mas pelo grande público, afinal, essa é uma questão que diz respeito a todos. Infelizmente, quando fui assistir o filme duas semanas atrás, o cinema estava preconceituosamente vazio. Depois ainda li que algumas salas estão se recusando a passar o filme!

Desde já é importante avisar: esse texto contém “spoilers”! Então, se você ainda não assistiu ao filme, faça uma pausa na leitura, vá correndo ver e depois volte aqui para trocarmos nossas impressões. Se você já viu ou é daquelas pessoas (diferentes de mim!) que não se incomodam com adiantamentos da história de filmes e livros, vá em frente!

O filme recebeu algumas críticas interessantes como, por exemplo, a respeito do fato dele não ter escolhido uma mulher transexual para o papel de Lili e ainda acusações de “açucarar” demais a história que, na realidade, não teria tido os rodeios de romantismo que vemos na tela. Acho que essas foram algumas das concessões realizadas para fazer “A Garota Dinamarquesa” caber dentro dos padrões conservadores de Hollywood. Algo que, de um lado, é importante por conseguir apresentar um tema a pessoas que de outro modo não teriam interesse por ele; mas que, por outro lado, revela a transfobia (discriminação contra transgêneros) reinante na sociedade.

Contudo, tais fatos não retiram do filme a capacidade de provocar ótimas reflexões. Mas na coluna de hoje não vou me centrar na questão da transfobia. Prometo que farei isso em outro texto. Como o filme tem foco na jornada de Lili Elbe para tornar-se quem ela é, os pensamentos de hoje também irão focar na experiência vivida por essa personagem.

Acho que “A Garota Dinamarquesa” é uma produção interessante para debatermos concretamente alguns dos conceitos mais fundamentais nas discussões contemporâneas sobre sexualidade.

No começo da história, Lili, ainda muito escondida como Einar, vai a uma festa vestida como mulher. É um momento em que ela e Gerda, sua esposa, estão se divertindo com o que talvez essa última considere ser apenas uma fantasia “crossdresser”1 do marido. Em um dado momento da festa, Henrik, um artista amigo de Einar e Gerda, interessa-se por Lili. Os dois retiram-se da agitação do salão principal, buscando um espaço mais reservado. Poucas cenas depois, a câmera nos transporta para a preocupação de Gerda, que busca inquieta seu marido sumido. Na sequência, ela (e nós!) surpreendemos Lili e Henrik se beijando.

Para você, leitor ou leitora, esse foi um beijo gay? Se você respondeu que sim ou ficou na dúvida, será importante você entender a distinção entre orientação sexual e identidade de gênero. Isso porque o beijo entre Lili e Henrik não foi um beijo gay, pelo menos não para Lili!

Vamos lá: a sexualidade humana é algo extremamente complexo, formada por uma combinação de elementos biológicos, psicológicos e sociais. Mas, muito resumidamente, podemos dizer que ela é composta de três elementos básicos: sexo biológico, orientação sexual e identidade de gênero. O peso e a importância de cada um desses elementos na conformação de uma pessoa variam bastante de acordo com a perspectiva teórica de quem analisa o fenômeno. Mas isso já é outro assunto, muito complicado, e que não cabe nesse espaço.

Assim, para sermos simples, sexo biológico diz respeito às informações cromossômicas, órgãos genitais e características fisiológicas que distinguem machos e fêmeas. Claro que isso não é assim tão fácil, pois existem pessoas que nascem com combinações distintas desses fatores, podendo apresentar traços de ambos os sexos. São os intersexos mas, de novo, isso é algo que escapa dessas breves reflexões.

Orientação sexual é a atração afetiva e/ou sexual que uma pessoa sente por outra. Diz respeito a quem nós desejamos. Os três tipos majoritários são os heterossexuais, que são atraídos pelo sexo/gênero oposto, os homossexuais, que sentem desejo por pessoas do mesmo sexo/gênero, e os bissexuais, que se atraem por ambos os sexos/gêneros.

Agora, identidade de gênero não tem nada a ver com isso. É a percepção íntima da pessoa como pertencendo ao gênero masculino, feminino ou a uma combinação dos dois, independentemente do sexo biológico e da orientação sexual. Não tem a ver com a biologia que nos foi dada ao nascimento, nem com quem desejamos, mas sim com o que sentimos que nós somos. Gênero é um conceito que vem sendo trabalhado com mais força a partir dos anos 70 e que se refere aos papéis sociais atribuídos a homens e mulheres. Assim, ser homem ou ser mulher não é uma consequência direta da anatomia de nossos corpos mas uma construção social, ou seja, é uma decorrência dos modos como cada um de nós é ensinado desde pequeno a sentir, agir, etc.

Dito isso, vamos voltar ao filme! Para Lili, o beijo que descrevi não era homossexual porque seu desejo se dirigia a alguém do gênero oposto ao seu. Heterossexual, portanto. Não importa que aprisionada dentro do corpo de Einar, Lili foi uma mulher heterossexual. E, assim, tinha seu desejo dirigido a pessoas com identidade de gênero masculina. Já para Henrik, o beijo foi sim gay pois, como se revela mais para frente no filme, Henrik achava que Lili era apenas uma fantasia e era justamente Einar que ele buscava em seu beijo.

Quer outro momento em isso fica ainda mais claro? Após esse primeiro beijo, Lili e Henrik continuam se relacionando. O filme mostra uma cena em que os dois estão na casa de Henrik e o clima entre eles começa a esquentar. Quando Henrik, porém, desce sua mão em direção ao pênis de Lili, ela se apavora, interrompe a relação e foge assustada. Agora eu pergunto: se cada um estava se relacionando com pessoas que correspondiam às suas orientações sexuais (heterossexual para Lili e homossexual para Henrik), por que isso aconteceu? Uma hipótese é que, ao agarrar o órgão sexual masculino de Lili, Henrik involuntariamente convocou Einar para a cena do desejo de ambos, algo insuportável para ela. Lili desejava sexualmente Henrik, mas enquanto mulher. Ao pegar no pênis de Lili, seu amante não perturbou seu objeto de desejo (orientação sexual) mas sim sua identidade de gênero (como mulher trans).

Essa passagem nos ajuda a desmistificar outro preconceito em relação às pessoas trans. Tradicionalmente, a transexualidade esteve muito associada à repulsa ao órgão sexual. Para ser transexual, achava-se que era necessário que a pessoa tivesse ojeriza, nojo do próprio órgão genital. Contudo, atualmente, tem se reconhecido que isso não é sempre assim. Pode-se ser trans sem, necessariamente, ter passado a vida rejeitando o órgão sexual atribuído pela biologia. Esse era justamente o caso de Lili. Mesmo quando quase completamente adormecida dentro do corpo de Einar, ela mantinha relações sexuais satisfatórias com sua esposa Gerda. E isso não mudou em nada a certeza que sentiu que era mulher quando acordou.

Esse texto já está ficando grande para uma coluna e, portanto, vou terminá-lo sem abordar muitos outros temas que me chamaram a atenção no filme, tais como: a obsessão de Lili por sua infância, demonstrada por meio de sua arte, que repetidamente pintava paisagens de sua cidadezinha natal; o jeito aparentemente repentino por meio do qual Lili aparece e sobrepuja Einar, como se colocar um vestido pudesse fazer nascer uma identidade transexual em alguém; e a forma como a arte de Gerda, que passou a retratar Lili em suas pinturas, conseguiu realizar um feito extraordinário e muito terapêutico para a própria Lili, que foi afastar a visão social que a via como uma aberração e torná-la bela. Caso os leitores e leitoras desejem, posso me aprofundar nesses aspectos em uma próxima coluna. Se quiserem, entrem em contato!

Mas não posso me despedir sem antes levantar uma última pergunta: caro leitor ou leitora, você percebeu que tenho chamado a personagem principal do filme de Lili, mesmo quando ela ainda não tinha desabrochado em Einar. Não percebeu? Que ótimo! Se você não estranhou é porque muito provavelmente entendeu que foi Lili quem sempre existiu.


1 O “crossdresser” é aquela pessoa que momentaneamente se veste com as roupas do gênero oposto para, por um espaço definido de tempo, vivenciar papéis de gênero distintos do seu. Genericamente falando, não costuma realizar modificações profundas no corpo nem estruturar uma identidade transexual ou travesti.

 


mathias glens homeMathias Vaiano Glens é psicólogo graduado pela USP e possui mestrado em políticas públicas para a infância e adolescência pela mesma universidade. Sua dissertação, “Órfãos de Pais Vivos: uma análise da política pública de abrigamento no Brasil” está disponível para download. Realizador desde 2016 do podcast Psicologiacast. Atualmente, é psicólogo do Núcleo Especializado de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado de São Paulo. É palestrante nas áreas que envolvem Psicologia e Direitos Humanos e consultor/supervisor de instituições que trabalham na área social, inclusive realizando cursos e capacitações. Atua também na área clínica em consultório particular. Para acompanhar suas atualizações e publicações, siga-o no Twitter: @GlensMathias.