Usuário

Por uma utilização mais crítica das redes sociais

 

Para inaugurar minha coluna no PsiBr, gostaria de propor uma espécie de “metarreflexão”: utilizar um meio digital (o site) para pensar um pouco sobre a vida digital.

A internet é, sem dúvida, um dos principais meios de comunicação da atualidade. E, como a maioria dos fatos psicossociais característicos de nosso tempo, ela é profundamente paradoxal. Afinal, como decidir se a internet é o mais recente bastião da democracia, visto que somente por ela algumas verdades indesejadas conseguem furar a barreira da grande mídia muitas vezes classista e economicamente comprometida; ou, ao contrário, ela é um palco privilegiado para o que há de pior no ser humano já que, sob o véu do anonimato e sem qualquer mediação, seja institucional seja de outros pares, um sujeito pode se manifestar diretamente em um espaço público mas que é experienciado como se fosse privado, dando vazão aos seus pensamentos mais conservadores e preconceituosos?

Talvez não precisemos decidir. Como fenômeno social extremamente complexo que é, a internet carrega potencialidades que vão depender do uso que se faça dela. Com isso, não quero defender que ela é, em si, politicamente neutra. Nada é. Contudo, pelo menos desde Marx e a utilização que ele fez da dialética para a compreensão dos processos humanos, podemos vislumbrar na internet um campo de disputa entre as forças progressistas que acreditam na possibilidade de um mundo transformado e as forças retrógradas que visam simplesmente mais um espaço para veicular suas ideias de manutenção da ordem.

São os aspectos nocivos da internet que pretendo abordar neste texto. Em tempos de avanço cada vez mais rápido do capitalismo, cuja característica principal é transformar tudo em consumo, a mercantilização da própria subjetividade é a última fronteira. Esse é o pano de fundo para a explosão dos mecanismos de exposição de si por meio das mídias sociais.

Com as redes de interação social na internet, muitas personalidades já se tornaram verdadeiras marcas, vendendo “posts” e publicações. Mas mesmo as pessoas sem a influência suficiente para se tornarem “vendáveis” muitas vezes emulam nas redes sociais uma vida que é muito diferente da que elas efetivamente levam, transformando a realidade digital em uma verdadeira fantasia psicológica.

Isso porque em aplicativos como o Facebook, Twitter, Instagram e outros, alguns usuários publicizam apenas uma parte de suas vidas: a parte que dá “certo”, em que elas são felizes ou, pelo menos, aparentam ser felizes. Ou pior: ao invés de investirem suas energias na busca do que as fariam realizadas, muitas pessoas dedicam-se em ir atrás de atividades que darão bons “posts” nas redes sociais, ou seja, boas simulações para aparentar felicidade e realização sem ser, necessariamente, aquilo que elas efetivamente desejam. Nesse sentido, ainda que a internet possa ser uma plataforma de irrupção de maneiras de existir que escapam dos modos majoritariamente aceitos, é claramente possível identificarmos, na nossa vida digital, uma força que empurra para a homogeneização dos desejos humanos.

Assim, dentro das características dessa força que reduz as diferenças, acho que podemos dizer que as redes sociais são o reino do “ideal de eu”, ou seja, das fantasias que formamos a respeito do que gostaríamos de ser. E como esses ideais são quase sempre construídos na interação do sujeito com o mundo, colocamos nas redes sociais aquilo que achamos que os outros querem que nós sejamos.

Acho bem possível que tais modos de organizar a subjetividade contemporânea tenham impactos significativos nos transtornos mentais que serão característicos de nossa época. Afinal, eu sei que meu perfil nas redes sociais é uma construção distante da minha existência efetiva, mas como ter certeza que a vida maravilhosa que todos os outros parecem ter também é? E se todos forem realmente tão felizes quanto mostram seus “posts” e somente eu fico selecionamento apenas meus melhores momentos ou mesmo construindo situações artificiais para publicar? Ou mais grave: e se minha vida on-line passar a ser tão mais interessante que o mundo off-line que eu simplesmente invista cada vez menos neste último e comece a viver mais como se fosse esse outro “eu” digital? As consequências sociais e psicológicas dessas novas formas de ser e de sofrer ainda não estão totalmente claras.

Após o diagnóstico acima, o principal objetivo desse texto é indagar: seria possível um outro uso das redes sociais? Um uso contra-hegemônico? Um uso que revelasse não o sujeito capturado pelo desejo do Outro mas aquele em esforço constante de reflexão crítica? Confesso que vi pouquíssimas pessoas utilizando o Twitter para publicar aforismos, por exemplo. Mas 140 caracteres seria um formado perfeito para essa modalidade de expressão do pensamento ou do fazer artístico, não? Ou será que perdemos a capacidade de sermos concisos em qualquer reflexão sobre um mundo que se transforma tão rapidamente como o nosso? Também não vejo muitas crônicas ou reflexões mais autorais no Facebook, nem fotos artísticas no Instagram, etc.

Por outro lado, felizmente, nos Blogs conseguimos encontrar, quando peneiramos bastante, conteúdos dignos da visão pessoal de seu autor sobre o mundo, sobre sua profissão ou sobre um assunto que lhe interessa. Algo que tenho começado a ver também em alguns Podcasts. Enfim, estas redes mostram um pouco algo que eu gostaria de ver expandido para todas as redes sociais: enxergar, através dos conteúdos postados, um sujeito inteiro e não apenas fragmentos meticulosamente calculados de uma pessoa.

Gostaria que esse texto fosse visto em parte como um manifesto. Isso porque nele jogo, ainda que cuidadosamente, uma série de ideias que sei que não aprofundei o suficiente. Algo que pretendo fazê-lo em próximas colunas.

Como os leitores puderam observar, vou dedicar esse espaço das colunas à Psicologia e suas interações com o cotidiano e com temas sociais. Espero que os que chegaram até aqui tenham gostado do texto. Não necessariamente busco a concordância dos leitores. O objetivo é fomentar a reflexão. Desse modo, aqueles que desejarem se comunicar comigo podem fazê-lo pelos comentários abaixo do texto.

Até a próxima coluna!

 

 


mathias glens homeMathias Vaiano Glens é psicólogo graduado pela USP e possui mestrado em políticas públicas para a infância e adolescência pela mesma universidade. Sua dissertação, “Órfãos de Pais Vivos: uma análise da política pública de abrigamento no Brasil” está disponível para download. Realizador desde 2016 do podcast Psicologiacast. Atualmente, é psicólogo do Núcleo Especializado de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado de São Paulo. É palestrante nas áreas que envolvem Psicologia e Direitos Humanos e consultor/supervisor de instituições que trabalham na área social, inclusive realizando cursos e capacitações. Atua também na área clínica em consultório particular. Para acompanhar suas atualizações e publicações, siga-o no Twitter: @GlensMathias.