Usuário

A Corrupção e a Psicologia do “Caráter” Nacional

Resolvi entrar nas polêmicas discussões políticas que polarizam o Brasil atualmente porque vejo que a Psicologia pode contribuir nesse debate. Acontecimentos recentes tais como o caso da médica que recusou o atendimento de um bebê de 1 ano por ele ser filho de uma petista, têm mostrado que as pessoas estão cada vez mais considerando as opções políticas como se fossem um profundo traço de caráter.

Daí ser “petista” ou ser “tucano” não significa mais que você defende um Estado mais forte e com maior intervenção na economia ou um Estado menor, com a economia sendo controlada pelas forças do mercado. Quando as pessoas desfazem amizades de muitos anos por conta da orientação política, elas se afastam pois julgam que o posicionamento ideológico é revelador de se as são pessoas “do bem” ou não. A política desvendaria, enfim, o caráter de alguém.

Mas o conceito de caráter é muito ruim para pensarmos a personalidade. E pior ainda para refletirmos sobre a sociedade! No plano individual, a ideia de caráter pressupõe que nós teríamos uma espécie de essência, algo que não poderíamos mudar de jeito nenhum. E atualmente a corrupção tem sido concebida assim: como uma falha no caráter do corrupto. A fantasia é mais ou menos a seguinte: se colocássemos no governo pessoas de bom caráter, teríamos um governo livre da corrupção.

Mas isso não é verdade. A corrupção está muito mais associada a um determinado funcionamento da sociedade brasileira do que dos brasileiros individualmente. Vou tentar ilustrar meu argumento com um exemplo: quem já viajou para alguma cidade da Europa ou dos Estados Unidos, talvez tenha reparado no modo como, em muitas delas, vende-se jornal. Ele é simplesmente colocado em uma caixa transparente e as pessoas pegam um exemplar e deixam o dinheiro correspondente em um local apropriado. Sem jornaleiro! E sem ninguém para supervisionar. Mesmo com alguma tristeza, uma das primeiras coisas que pensamos é: isso nunca daria certo no Brasil.

Longe de querer fazer uma apologia dos Estados Unidos e da Europa (com Donald Trump e crise dos refugiados eu não conseguiria mesmo que quisesse!), porque isso não daria certo no Brasil? Porque a maioria de nossa população é de má índole ao passo que europeus e norte-americanos tem um bom caráter? Não. Isso tem a ver com o caldo cultural no qual estamos imersos.

Em psicanálise, nós costumamos dizer que existem 3 tipos de estruturas clínicas: a neurose, a psicose e a perversão. Elas não são tipos de caráter. Correspondem mais às formas de um determinado sujeito se posicionar perante ao mundo e si próprio. Se considerarmos que os valores, normas, preconceitos e papéis sociais pudessem ser todos resumidamente simbolizados pela palavra “Lei”, teríamos o seguinte: os neuróticos são aqueles que interiorizam a Lei e passam a viver de acordo com ela. Como a Lei é opressiva, esse processo é doloroso. Diante disso, os psicóticos (conhecidos popularmente como “loucos”), ao invés de incorporarem a Lei, rompem com ela e colocam uma lei pessoal no seu lugar. Os perversos, por sua vez, não adotam nem uma postura nem outra. Eles nem interiorizam a Lei e nem rompem com ela. O que fazem, então? Eles brincam com Lei, jogam com ela. Quando lhes é interessante, a Lei vale; quando não, eles a ignoram. Como você pôde ver, o nome “perversão” é forte mas ele não se relaciona necessariamente com algum tipo de patologia sexual ou moral. E também, uma estrutura clínica não é melhor nem pior do que a outra. São diferentes posições em relação ao outro e ao desejo.

Agora, se fôssemos interpretar as sociedades de Estados Unidos, Europa e Brasil com base nas estruturas clínicas, qual você diria que corresponde a qual cultura? Lembrando do nosso exemplo do jornal, poderíamos dizer que Estados Unidos e Europa fazem parte de uma cultura com fortes traços neuróticos, afinal, a Lei está tão profundamente interiorizada que ninguém precisa supervisionar se pago pelo meu jornal. No Brasil, por outro lado, a Lei vale para uns e não para outros, não é? Pense na famosa “lei de Gérson”, a lei de que se deve levar vantagem em tudo, e que com maestria revela partes da nossa personalidade enquanto nação que provavelmente gostaríamos de esconder. Isso significa que a cultura brasileira possui significativos traços perversos em sua história.

E o que isso tudo tem a ver com corrupção? Eu acho que a corrupção endêmica no Brasil não é fruto do mau caráter de um indivíduo, e nem de um determinado grupo de indivíduos, sejam eles quais forem: petistas, tucanos, pemedebistas, comunistas, fascistas, etc. A corrupção no Brasil tem a ver com o modo como nos enxergamos enquanto brasileiros. Recente pesquisa do Data Popular mostra que apenas 3% dos brasileiros se considera corrupto enquanto 70% admite já ter tomado “atitudes corruptas”. Mas nós somos o que fazemos, não é mesmo? Segundo o organizador da pesquisa, o brasileiro se acha isento das pequenas corrupções do dia a dia, mas critica as grandes, nas quais se acha lesado. Em outras palavras, ora a Lei vale (especialmente quando é para os outros), ora ela não vale (especialmente quando é para mim). Enquanto não conseguirmos transformar essas características perversas de nossa cultura nacional, não avançaremos contra a corrupção. E isso não se faz com mais punição e sim com mais transparência.

Como o assunto dá pano para a manga e eu deixei (de propósito!) um fio solto nesse final, prometo voltar ao tema em outras colunas.

 


mathias glens homeMathias Vaiano Glens é psicólogo graduado pela USP e possui mestrado em políticas públicas para a infância e adolescência pela mesma universidade. Sua dissertação, “Órfãos de Pais Vivos: uma análise da política pública de abrigamento no Brasil” está disponível para download. Realizador desde 2016 do podcast Psicologiacast. Atualmente, é psicólogo do Núcleo Especializado de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado de São Paulo. É palestrante nas áreas que envolvem Psicologia e Direitos Humanos e consultor/supervisor de instituições que trabalham na área social, inclusive realizando cursos e capacitações. Atua também na área clínica em consultório particular. Para acompanhar suas atualizações e publicações, siga-o no Twitter: @GlensMathias.