Usuário

A importância da frustração no desenvolvimento humano

A frustração é condição essencial para que o pensamento se desenvolva. Enquanto estamos seguros, confortáveis e ancorados nas experiências de prazer não ousamos novas soluções. Sabemos que é a necessidade que empurra o homem para as descobertas.

Com crianças também ocorre o mesmo. Elas desenvolverão capacidade de pensar se puderem colher o fruto de suas ações. O aprendizado com a experiência exige que a criança tenha vivências inteiras, com começo, meio e fim. Pais muito preocupados tendem a interromper esse processo sem perceber que promovem uma sensação de incompetência na criança. Muitas vezes encontramos crianças e pais com capacidade de cancelar determinadas situações frustrantes, apagando imediatamente o ocorrido. Quando a marca da frustração não permanece, o aprendizado com a experiência não ocorre.

Não deixar o filho cair e aprender com os tombos. Protegê-lo da sujeira antes que o mesmo se suje. Acalmar seus gritos furiosos atendendo imediatamente às exigências da criança. Esconder a morte de animais de estimação ou até de parentes. Os exemplos são os mais variados e corriqueiros, portanto quase imperceptíveis no cotidiano. Os pais movidos pela angústia e pela crença de que a criança é frágil e não aguenta a verdade, passam a superprotegê-la. A intolerância dos pais à dor e à frustração se torna a medida para lidarem com o filho.

Como os pequenos poderão crescer se seus pais não percebem que eles podem lidar com a verdade cotidiana, que estão aptos a conter angústias e são capazes de buscar soluções?

A superproteção não permite o desenvolvimento das capacidades da criança e funciona como privação de amor e segurança. A punição severa e os castigos corporais não ajudam a desenvolver a capacidade de pensar e sentir. No entanto, a frustração e o intervalo entre um desejo e sua realização colocam o homem em movimento, obrigam-no a criar saídas e o fortalecem para aguentar a dor do viver.

 


luciana-home

Luciana Saddi é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise (SP), mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e autora dos livros de ficção O amor leva a um liquidificador  (Ed. Casa do Psicólogo) e Perpétuo Socorro  (Ed. Jaboticaba).  Assinou por mais de dois anos a coluna Fale com Ela na "Revista da Folha", do jornal Folha de São Paulo. Representante do Endangered Bodies no Brasil.
Mais textos da autora