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A neurose

Os termos diagnósticos da Psicanálise, como a neurose, se popularizaram de tal forma que hoje são usados sem lastro científico, para criticar parentes, amigos e colegas. Diante de certos sintomas e atitudes ou mesmo quando há um conflito, utilizamos o termo neurótico de forma livre, como se fosse um xingamento.

O termo neurose foi introduzido na medicina no final do século XVIII, falava-se em doenças nervosas como palpitações, cólicas, hipocondria e histeria. No século XIX classificava-se sob o nome de neurose, tanto as enfermidades funcionais, sem lesão ou inflamação comprovadas, como as manifestações psíquicas que hoje sabemos corresponder a lesões do sistema nervoso. Portanto, tudo que alterasse o funcionamento psíquico era considerado neurose. Não se distinguiam os quadros de origem física dos de origem psicológica.

Os critérios para discriminar esses quadros foram desenvolvidos pela Psicanálise que adotou um sistema em que a vida mental é privilegiada. Para as neuroses não há base física nem disfunção de órgão a justificar os sintomas. A neurose é produto de conflitos inconscientes, ideias contraditórias e insuperáveis, desacerto de afetos. Pura expressão do sofrimento psíquico é criada em nível simbólico, compreende a forma de armazenar e viver experiências. Está ligada à infância, e também indica uma estrutura e organização da personalidade.

Neurótico é aquele que sofre de forma estéril, segundo Freud. Preso ao passado se repete e repete situações dolorosas sem perceber. Os sintomas são múltiplos: fobias, pânico, paralisias psíquicas, angústias generalizadas, dores e sinais de doença física sem correspondência orgânica, obsessões e compulsões, pensamentos circulares e expectativa constante de tragédia. Todos esses estados psíquicos são compreendidos pelos psicanalistas como sinais de sofrimento, que muitas vezes, justificam o medo de viver e o receio de se responsabilizar pelo próprio destino. Alguns chegam a extrair prazer da miséria de seus sintomas, outros, quanto mais lutam contra os sintomas, mais aprisionados ficam a eles. Uma característica bastante presente na vida dos neuróticos é desqualificar os próprios pensamentos, negar o mundo de fantasia e de sentimento que os habita, com isso deixam de se ver como protagonistas, mesmo que inconscientes, da sua história.

O tratamento analítico pode libertar o sujeito da tortura dos sintomas e do distanciamento alienado entre o sujeito e sua vida, mas não evita os sofrimentos do viver, apenas encontra melhores meios para expressá-los, formas diferentes de se ver e de ver o mundo.

 


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Luciana Saddi é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise (SP), mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e autora dos livros de ficção O amor leva a um liquidificador  (Ed. Casa do Psicólogo) e Perpétuo Socorro  (Ed. Jaboticaba).  Assinou por mais de dois anos a coluna Fale com Ela na "Revista da Folha", do jornal Folha de São Paulo. Representante do Endangered Bodies no Brasil.
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