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Sobre desejos...

Eu gosto dos que tem fome, dos que morrem de vontade,
dos que secam de desejo, dos que ardem
"Senhas"  Adriana Calcanhoto

 

Após os primeiros dias do ano, me pego pensando nas sensações que os rituais e resoluções tão comuns nessa época me suscitam: por um lado, um estranhamento um tanto quanto desconfortável diante de tantas listas que prescrevem e prometem ensinar “como realizar seus planos”, com técnicas e receitas passo-a-passo sobre quais metas devem ser estabelecidas e como devem ser buscadas; por outro, um certo carinho por reservarmos em nosso calendário um momento em que é dada uma atenção maior para procurarmos reconhecer o que desejamos. Desejos, está aí um tema que me mobiliza... Por que será? Penso em muitas motivações pessoais, talvez variadas e vagas demais para elencar aqui... Lembro que cresci em uma família com muitas pessoas místicas e/ou supersticiosas, de modo que a ideia da importância dos rituais e da “força dos desejos” foi muito presente enquanto eu estava aprendendo a me indagar sobre o que seria a tal da “vida”, o que seria o tal do “destino”. Desde que entrei no curso de Psicologia, a perspectiva esotérica foi gradativamente deixada de lado, a ponto de hoje me parecer bastante distante... Mas foi justamente no decorrer da formação em Psicologia, me deparando com as diversas abordagens teóricas, possibilidades de atuação profissional e modos de construir conhecimentos científicos, que o tema dos desejos se tornou um foco de especial atenção: como pensar sobre as subjetividades, sobre as relações, sobre as motivações, sobre a saúde psíquica, sobre as possibilidades de transformação, sem nos debruçarmos sobre os desejos? Isso sem falar do aprendizado sobre a Psicanálise, que nos define justamente como sujeitos desejantes, com todas as vicissitudes de sermos atravessados e constituídos por desejos que são, inevitavelmente, ambivalentes e conflitantes. No campo de estudos sobre sexualidade e gênero, então, as questões são inúmeras, principalmente no que se refere à importância do reconhecimento da multiplicidade de desejos e da busca pelo enfrentamento aos muitos preconceitos, padrões normativos e repressivos que negligenciam essa multiplicidade e podem ter uma incisiva influência restritiva sobre o desejar.

O que desejamos? Por que desejamos o que desejamos? O que nos leva a desejar, o que desperta e potencializa nossos desejos, o que os enfraquece ou os faz esvanecer? Nossos desejos são algo espontâneo, intrínseco, que brotam da nossa mais profunda essência ou nossos desejos são aprendidos, construídos de acordo com as influências da cultura, fortalecidos ou impedidos de acordo com os valores e ideais de cada contexto específico? É possível decidir desejar ou não desejar algo? É possível escolher ou mudar, voluntariamente, o que desejamos? O que faz com que alguns desejos sejam reconhecidos e valorizados, enquanto outros são reprovados e inferiorizados, como se devêssemos mobilizar esforços para sejam escondidos e inibidos? Qual é a relação entre o que somos e o que desejamos? Qual é a relação entre o que desejamos e o que somos? — Essas são algumas das questões com as quais quem estuda sexualidade e gênero pode se deparar com frequência. Desde para pensar nos caminhos e descaminhos das fantasias, dos afetos, das atrações, dos vínculos, que podem ser tão plurais e por isso tão interessantes, até para contestar propostas absurdas como as que chegam ao Congresso Nacional e à elaboração dos Planos de Educação, que defendem que formas de ser e desejar que não correspondem ao que determinadas crenças religiosas e ideológicas pregam deveriam ser “tratados” para serem “modificados” ou até mesmo “curados”. Ou seja, discutir sobre desejos é também discutir sobre princípios éticos e sobre direitos humanos, é também lutar contra a violência e contra a intolerância.

O Quereres” é uma música de Caetano Veloso que ouço como uma celebração da multiplicidade e também do inevitável (e estimulante!) movimento conflituoso dos desejos: “Onde queres revólver sou coqueiro; onde queres dinheiro, sou paixão; onde queres descanso, sou desejo; e onde sou só desejo, queres não”. É como se a música brincasse com algo que é, ao mesmo tempo, fonte de frustrações e perturbações e fonte de vitalidade e inspiração: “Onde queres o ato, eu sou o espírito; onde queres ternura, eu sou tesão; onde queres o livre, decassílabo; e onde buscas o anjo, sou mulher; onde queres prazer, sou o que dói; e onde queres tortura, mansidão; onde queres um lar, revolução; e onde queres bandido, sou herói”. Os deslizamentos e desencaixes são tão poeticamente transmitidos com a ideia de que, na busca por “encontrar a mais justa adequação, tudo métrica e rima e nunca dor”, nos deparamos com o fato de que “a vida é real e é de viés”.

Sim, é essa expressão do querer como “bruta flor”, como cantado por Caetano, que me causa o estranhamento diante das listas, ainda mais frequentes no início do ano, que prometem: “Descubra como conseguir tudo o que você quer”. A ideia de que poderíamos “conseguir tudo o que queremos” dá a impressão de que seria possível saber, de um modo coerente, definido e definitivo o que queremos, como se nossos quereres viessem assim, tão prontinhos e práticos, tão óbvios, evidentes e no ponto exato para serem cumpridos. Nesse sentido, gosto de como Contardo Calligaris se contrapõe à ideia de que é preciso definir bem o que desejamos para definir bem como realizaremos, questão abordada na crônica Considerações sobre os novos desejos, publicada no livro Todos os reis estão nus:

“o nosso desejo nunca é UM desejo, definido por UM objeto ou por UM projeto. Não existe, nem escrito lá no fundo de nossa mente, UM querer definido, que poderíamos descobrir e, em seguida, praticar com afinco e satisfação por estarmos fazendo aquela coisa, ou caçando aquele objeto ao qual éramos, por assim dizer, destinados”. ( p. 162)

Basta alguns minutos em um site de busca para identificar que, lado a lado com “Descubra como conseguir tudo o que você quer” estão outros manuais de instruções sobre assuntos como: “Guia para a felicidade”; “Entenda os segredos para realizar seus sonhos”; “Dicas para encontrar seu grande amor”; “A trilha do sucesso passo-a-passo”; “Aprenda estratégias para reacender sua vida sexual”. Há uma proliferação de ensinamentos que afirmam ser possível garantir a realização de metas e vontades, além de transmitirem a compreensão bastante distorcida de que nossos desejos poderiam ser traduzidos em generalizações (afinal, para ficar nas perguntas mais “simples”: o que é felicidade? o que é sucesso? o que é amor?), negligenciando o vasto campo das singularidades. Outro ponto problemático é como esses discursos alimentam ansiedades e sensações de insuficiência por darem a impressão de que haveria uma forma “certa” de realizar planos a ser seguida: se você não conquista o que almeja, é por alguma falha individual, por alguma falta de competência em se empenhar e buscar “direito”.

Foram muitos os exemplos com os quais me deparei ao realizar minha dissertação de mestrado, sobre como sexualidade, gênero e prazer são representados em revistas femininas e masculinas. Destaco um deles: uma matéria de uma revista feminina com “365 técnicas para enlouquecer de tesão!”. Posições, iluminação trilha sonora, movimentos, instruções para o sexo oral, instruções para o sexo anal, instruções para a masturbação, vibradores, géis, lingeries, fantasias e os mais diversos apetrechos foram a fonte para minuciosas prescrições, indicadas pela revista para cada dia do ano (se fosse em 2016, seriam necessárias 366 técnicas). Sim, são muito variadas as formas de buscar e sentir prazer, mas o que me surpreende — e me angustia — é que essas formas possam ser enquadradas como em um catálogo, como se nossos corpos e nossos desejos funcionassem de acordo com um “manual de instruções”, como se sentir excitação fosse questão de uma “manutenção” adequada que o domínio de “técnicas” garantiria. O que me surpreende — e angustia ainda mais — é a padronização, como se todas as pessoas, em todos os momentos, em todas as relações fossem buscar e sentir prazer das mesmas formas, pré-estabelecidas e acompanhadas da promessa que, se forem seguidas, renderão satisfação garantida (lembrando que há um “preço” em buscar cumpri-las, literalmente, já que são muitas as sugestões de consumo que recheiam as instruções para “enlouquecer de prazer”). Fora a contradição que é a proposta de ensinar a “enlouquecer”, já que agora até para a loucura, que supostamente se caracterizaria pelo contraste ao controle e à razão, são determinadas regras, técnicas e padrões. Isso me lembra o que diz o escritor francês Jean-Claude Guillebaud no livro A tirania do prazer:

“O prazer obrigatório está substituindo o prazer proibido. O gozo é enfrentado como se fosse uma prova, que leva à obrigação ou ao fracasso. (...)Todo discurso ou espetáculo se obstinam em solicitar o desejo, como que visando evitar que ele se perca. (...) Hoje, as fantasias são piedosamente convocadas, como órfãs necessitadas que merecem nossa solicitude, tesouros frágeis, companheiras famélicas e ameaçadas de inanição. (...) a verdadeira questão não é mais a da luta contra a repressão do desejo e sim a de prevenir sua falência”. (p. 131)

Por acreditar que os prazeres e desejos podem ser vividos para além das normatizações e prescrições, gostaria de concluir expressando alguns desejos:

  • Desejo que possamos reconhecer mais nossos desejos como múltiplos, como potentes e criativos, evitando a armadilha de aprisioná-los pelos vocabulários de “manuais de instruções”;

  • Desejo que os conflitos, as contradições e ambivalências não sejam compreendidos como “falhas” a serem corrigidas pelas estratégias técnicas mais eficazes, mas sim, que possam ser apreciados justamente como o que dá vida e movimento aos desejos;

  • Desejo que, especialmente nos campos da sexualidade e do gênero, tenhamos força e mobilização política para enfrentarmos qualquer tentativa de limitar, condenar, impedir, corrigir e “curar” desejos que, além de legítimos, são os que dão sentido e transformam muitas histórias que foram, são e serão vividas.

Por fim, cito mais uma música que diz tanto sobre os desejos, À Flor da Pele, do Chico Buarque, para dizer que desejo intensamente que possamos desejar com mais liberdade e inventividade, lembrando que, por mais tentativas que ocorram de cerceá-los, inibí-los e normatizá-los, nossos desejos são algo que “não tem receita nem nunca terá”.


marcela pastanaMarcela Pastana é psicóloga e mestre em Educação Escolar pela UNESP. Professora do curso de psicologia do IMES-São Manuel. Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisa em Sexualidade, Educação e Cultura- GEPESEC e coordenadora do Grupo de Discussões sobre Sexualidade e Mídia. Coordenadora do Núcleo de Sexualidade e Gênero do CRP/SP - subsede Bauru.
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