Psicólogos e psiquiatras sentem menos empatia pelos pacientes quando seus problemas são explicados biologicamente

empatiaA ideia de que os transtornos mentais estão relacionado a anomalias no cérebro ou outros fatores biológicos é popular entre os pacientes: eles acreditam que isto ajuda a desmistificar suas experiências e emprestar legitimidade aos seus sintomas. No entanto, pesquisas indicam que as explicações orgânicas podem aumentar o estigma, encorajando uma percepção pública de que pessoas com doenças mentais são fundamentalmente diferentes das outras e, ainda, de que seus problemas são permanentes. Agora, dois pesquisadores, Matthew Lebowitz (Yale University) e Woo-young Ahn (Virginia Commonwealth University), publicaram novas evidências sugerindo que as explicações biológicas do sofrimento psíquico reduzem a empatia que os profissionais de saúde mental sentem por seus pacientes.

No estudo, casos clínicos de pacientes sofrendo de fobia social, depressão ou esquizofrenia foram apresentados a mais de duzentos psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais. Alguns destes casos eram acompanhado de uma explicação puramente orgânica, de conteúdo genético ou cerebral, enquanto outros casos eram acompanhados de explicações psicossociais, como por exemplo histórias de abusos ou de privações. Em seguida os profissionais apontavam, em uma escala, em que grau certos sentimentos -- como "compaixão", "mal-estar" ou "consideração" -- descreviam seu estado no momento.  

Os casos acompanhados de explicações biológicas provocaram menos sentimentos de empatia nos clínicos, e independentemente de sua área de atuação profissional.

Tanto as explicações biológicas como as psicossociais evocaram níveis similares de desconforto entre os entrevistados, de modo que a diferença na empatia não pode ser atribuída à hipótese de que as explicações psicossociais sejam mais perturbadoras.

Outro resultado obtido no estudo foi que os profissionais tendiam a considerar as explicações biológicas clinicamente menos úteis; foi observado também que este tipo de explicação os deixou mais propensos a uma menor convicção nos resultados de uma psicoterapia e mais confiança em tratamentos medicamentosos.

Resultados similares foram encontrados em uma segunda etapa do estudo, onde os clínicos e assistentes sociais foram apresentados a casos que traziam uma combinação de fatores psicossociais e biológicos, mas onde uma das duas abordagens era predominante. A ideia dos pesquisadores era de que esta fórmula refletiria com mais fidelidade a vida real. Os resultados mostraram, em conformidade com a primeira etapa do estudo, que as explicações onde prevaleciam fatores orgânicos evocavam menor empatia da parte dos clínicos em relação aos casos onde predominavam explicações psicossociais.

Lebowitz e Ahn acreditam que o motivo de as explicações orgânicas suscitarem menor empatia é o fato de trazerem embitidas um efeito desumanizante, ao sugerir que os pacientes são meros "sistemas de interações de mecanismos", além de dar a impressão de que os distúrbios seriam mais permanentes.

Com as abordagens biológicas aos transtornos mentais ganhando, cada vez mais, proeminência tanto na psiquiatria como na psicologia, tais resultados podem ser considerados preocupantes.

Uma fragilidade da pesquisa, no entanto, é a falta de uma amostra de casos sem nenhuma explicação. Sem esta amostra de controle não podemos saber com certeza se as explicações biológicas reduziram a empatia ou se foram as explicações psicossociais que as intensificaram -- ou ambas as alternativas. Outro aspecto passível de crítica, que os próprios pesquisadores admitem, é o fato de os casos clínicos e explicações serem bastante simplificados. Não se pode negar, mesmo assim, que os resultados mereçam toda a atenção.

Lebowitz e Ahn sugerem que esta possível redução de empatia poderia ser evitada se os clínicos compreendessem que "mesmo quando a biologia tem um papel etiológico importante, ela está interagindo constantemente com outros fatores, e alterações biológicas não criam distinções entre membros da sociedade com ou sem transtornos mentais".

 

Christian Jarrett
Research Digest

Tradução: Eduardo Hegenberg para o PsiBr