Estudo avalia sucesso da a reforma psiquiátrica no Brasil

A reforma psiquiátrica brasileira tem se mostrado bem-sucedida, principalmente em relação à provisão de recursos extra-hospitalares e à redução da internação asilar. Esses fatores, por sua vez, vêm acarretando a diminuição da exclusão social de pacientes com transtorno mental, por minimizar o estigma da intervenção psiquiátrica.

Esse foi o principal resultado obtido pelo projeto de pesquisa intitulado “A reforma psiquiátrica no Brasil: o papel das redes sociais e os desafios nas novas práticas de cuidados”, coordenado pela professora Eliane da Fonte, do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco.

Outro resultado importante obtido pela pesquisa foi que os laços sociais podem ter um efeito terapêutico para quem sofre de transtornos mentais ou é dependente de drogas, porque fazem com que os sintomas capazes de aumentar o nível de isolamento social e o agravamento do transtorno diminuam. A conclusão se deu através da análise da hipótese da existência de uma associação entre a qualidade da sociabilidade e o nível de bem-estar das pessoas, e comprovado através dos resultados de testes estatísticos. O relatório da pesquisa, finalizado em outubro de 2012 e dividido em quatro capítulos, foi elaborado pelos professores Eliane da Fonte, Breno Fontes e Maria da Conceição Lafayette, incluindo a colaboração de vários alunos de graduação.

A pesquisa teve como objeto de investigação o processo de institucionalização e consolidação da reforma psiquiátrica no Brasil, enfatizando as práticas terapêuticas inovadoras de reabilitação psicossocial, particularmente as desenvolvidas nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), que têm como característica principal a defesa de que a atenção da saúde mental deve estar fundamentada nos vínculos familiares e comunitários, e a relação dessas com as várias redes sociais existentes, desde as instituições estatais à família. Essas análises foram feitas por meio de entrevistas realizadas com usuários dos Caps e também dos Capsad (que inclui tratamento com os usuários de álcool e outras drogas).

A intenção do projeto foi analisar as políticas de desinstitucionalização dos cuidados na saúde mental no Brasil, incluindo, também, usuários de entorpecentes, para identificar os resultados e avaliar a capacidade que a família possui no novo papel que ela assume: o de cuidar dos portadores de transtorno mental. Outro objetivo da pesquisa foi conhecer os efeitos de novos tipos de serviços e tratamento para os portadores de transtorno mental e desvendar estratégias que se contrapõem às de institucionalização ou às de grande dependência aos serviços de internação.

Papel Feminino

Durante a pesquisa, também foi observada a existência de um grande peso sobre o papel feminino em relação à rede social familiar com os cuidados que ela assume com os portadores de transtorno mental. Ou seja, com a evolução do processo de reforma psiquiátrica no Brasil, a responsabilidade das novas práticas de cuidados com esses pacientes ficou dividida entre o Estado e a família, fazendo com que passasse a existir uma carga de trabalho maior sobre a mulher, baseado na hipótese da visão tradicional delas na sociedade como a “cuidadora”.
 
Segundo Eliane da Fonte, esse projeto pode contribuir para uma melhoria nos serviços públicos direcionados aos portadores de transtorno mental. “Os resultados da pesquisa poderão se constituir em uma importante contribuição para os usuários e seus familiares, assim como para os profissionais que atuam na área da atenção à saúde mental, por refletir sobre as experiências dos serviços públicos destinos ao tratamento de portadores de transtorno mental e dependentes químicos”, comenta a professora.

Diario de Pernambuco