Miriam Debieux — Psicanalistas veem o Golpe

Miriam Debieux Rosa (brasileira, psicanalista, defensora da democracia, da recuperação econômica do país sem prejuízo dos direitos sociais e humanos, contrária ao golpe parlamentar e à corrupção)

Estamos sob o impacto do impeachment da presidenta Dilma em 31 de agosto, quando 61 senadores, amparados pela maioria dos deputados e pelo poder judiciário apoiados pela mídia, instauram o voto indireto e utilizam uma regra do sistema parlamentarista para impedir o legitimo direito de governar da presidenta eleita – um golpe parlamentar.

Nestas breves linhas aponto dois ângulos que me chamam atenção e me afetam: vem sendo travada uma luta pelo poder que põe em jogo uma guerra discursiva, de apropriação de símbolos, em torno de uma certa fantasia de país e, relacionado a este, uma profunda crise de representação e ruptura entre a população e as instancias do poder.

A guerra discursiva pretende impor a força uma versão dos fatos. Temer empossado presidente proíbe ser chamado de golpista. Por decreto quer impor um pacto social! Ora um pacto deve ser... pactuado levando em conta os conflitos, as diferentes posições... imposto só em processos ditatoriais.

Há duas interpretações sobre sua posse: de que houve um golpe parlamentar ou que houve um impeachment segundo os ritos institucionais. Uma parcela significativa da população não se considera representada na posição tomada pelos poderes políticos, jurídicos e midiáticos, percebida como antidemocrática na medida que impõe um projeto social e econômico de nação no qual, para além de uma perspectiva neoliberal, predomina a manutenção dos privilégios históricos de um pequeno grupo em detrimento dos direitos sociais e humanos da maioria da população.

As muitas posições da população são artificialmente reduzidas a duas. Uma delas construída com a apropriação indébita dos símbolos caros à população, tais como a bandeira brasileira, a ocupação das ruas, a recuperação econômica, a luta pela corrupção, entre outras. Querem fazer parecer que esta posição é a dos “homens de bem” que paradoxalmente, tomados pela cegueira e ignorância dos processos de massificação, apoiam o golpe parlamentar, políticos corruptos, discursos preconceituosos, o desmonte das conquistas sociais que garantem condições um pouco mais igualitárias para a população e ignoram a truculência da ação das polícias diante do legitimo protesto.

O grupo heterogêneo que reúne as posições contrarias é desqualificado, reduzido a petistas corruptos com suas bandeiras vermelhas, intelectuais e artistas alienados e aproveitadores, baderneiros e vagabundos que vivem a custa do bolsa família, que devem ser contidos quando não espancados e presos como temos visto na repressão policial aos protestos.

Considero fundamental retomar os debates e embates legítimos que permita construir democraticamente um pacto de governabilidade para o nosso país.