Elsa Cayat: A psicanalista assassinada no Charlie Hebdo

Eugénie Bastié
Le Figaro

Tradução: Mauro Hegenberg para o PsiBr

elsa cayat

A única mulher entre as 12 vítimas dos terroristas era um "furacão", sempre de sorriso nos lábios, a liberdade como escolha de vida. Ela escrevia uma crônica chamada ‘Charlie Divã’, duas vezes por mês, no Charlie Hebdo.

 


Doze mortos, apenas uma mulher; uma pessoa excepcional: Elsa Cayat, 54 anos, era psiquiatra e psicanalista. Sobre seus saltos altíssimos, a alegria no rosto, um riso possante, a irreverência como conquista, ela se juntou ao Charlie Hebdo apaixonada, como conta uma tia sua em uma carta aberta comovente.

tweet pour elsa cayat 0No Charlie, ela tinha uma crônica onde tratava de assuntos tão diversos como a gênese do holocausto ou a autoridade parental. Seu último texto, intitulado "Noël, ça fait vraiment chier", (em tradução livre, “Natal, uma verdadeira aporrinhação"), partiu de uma reflexão que um paciente fez durante as festas de fim de ano. Ela se indagava sobre o desejo e a sexualidade em suas obras, como “Les enjeux cachês de la sexualité masculine” (“Os desafios ocultos da sexualidade masculina”), seu último ensaio publicado pela editora Albin Michel. Esta espécie de guia sexual ia do objeto ao símbolo, abordando questões como “As palavras seriam objetos sexuais?”,ou “O dinheiro é afrodisíaco?”.

Mas todas estas questões, estas variações sobre o prazer e variados assuntos filosóficos, foram antes. Antes desta quarta-feira, quando ela se reuniu com seus amigos do Charlie Hebdo.

«Eu sei que os assassinos mandaram suas vítimas se levantarem e revelarem suas identidades. Como ela era judia, não posso evitar de pensar que ela foi morta por esta razão, e isso me faz sentir um calafrio de horror»,  declarou sua prima, a produtora Sophie Bramly, ao jornal Le Parisien.


«Uma mulher magnífica, livre, assassinada» 


tweet pour elsa cayatNa quinta-feira pela manhã, sua tia Jacqueline telefonou para Elsa. Queria consolá-la, imaginando que estaria muito triste pela perda de seus colegas do jornal satírico. Sem saber que ela tinha ido com eles. Em uma carta aberta, plena de amor, ela quis contar, pela última vez, sobre Elsa: «Uma mulher que amo infinitamente pela sua liberdade de espírito, sua exigência intelectual e sua extraordinária alegria. Ela ri permanentemente, mesmo quando diz verdades duras de se ouvir. É preciso dizer tudo, ela me repete sempre, não tenha medo de nada, liberte-se; liberte todas as suas forças».

Trabalhando como psiquiatra em hospitais de Paris há 22 anos, ela construiu desde cedo uma enorme clientela de intelectuais fascinados pela qualidade de sua escuta, seu poder de análise e sua perspicácia, como conta sua tia. Ela afirma se lembrar perfeitamente de que «Quando, pela primeira vez, me falou do Charlie, para o qual colaborava fazia alguns anos, soou como se me confiasse sobre um encontro amoroso. Pronunciando todos os superlativos possíveis, ela acendeu um outro cigarro e bebeu um gole de vinho antes de exaltar as qualidades de seu diretor, Charb, e de sua equipe: "Que talento, que coragem, nenhuma prudência freia sua vontade, sua impaciência em denunciar a imbecilidade, a intolerância, a exclusão".»

Este espírito, parece, tocou profundamente os seus pacientes, que leram este testemunho hoje pela internet.

 


 «Eu digo a ela obrigado pelo bem que me fez»  


"Era uma mulher extraordinária ", disse Valérie, que frequentava há sete anos o consultório situado na Avenida Mozart, no arondissement XVI de Paris. Ela nos deu permissão para reproduzir a mensagem que publicou pelo Facebook: «Ela era a liberdade de pensar, de se conduzir e de acreditar em si, e do engajamento para mudar o mundo. Em seu grande consultório, enterrada sobre livros cheios de anotações e papeis amassados, com um cigarro na boca e uma xícara de café na mão, e sempre sobre saltos altíssimos, ela me lançava em sessões sem concessões que invariavelmente se iniciavam por um 'Ennnnntããããão, me conta'.

Não poderei contar mais nada a ela, pois os fanáticos a mataram. Eu penso em seu marido, em sua filha adolescente, em seu grande cão que ia e vinha, em seus pacientes que ela deixa sem espelho, em sua família e seus amigos.

Eu digo a Elsa obrigado pelo bem que me fez, e digo que ela já me faz uma falta terrível, assim como todos os espíritos livres vítimas da barbárie desta semana».