E se tomássemos água enriquecida com lítio?

Anna Fels
New York Times

Tradução: Eduardo Hegenberg para o PsiBr

A ideia de se colocar uma substância psicoativa na água que bebemos pode soar como ficção científica, plano terrorista ou lembrar governos totalitários. Considerando os protestos que houve quando a possibilidade de colocar flúor na água foi anunciada pela primeira vez, é fácil imaginar o furor que  seguirá se algo do tipo for um dia sugerido.

O debate, no entanto, é inútil. O caso está encerrado. A mãe natureza já colocou uma droga psicotrópica em nossa água potável, e esta droga é o lítio. Apesar de ser um fato em grande parte ignorado por mais de meio século, tem implicações as mais relevantes.

O lítio é um elemento de ocorrência natural no ambiente, não é uma molécula como a maioria dos medicamentos. Está presente nos Estados Unidos, dependendo da localização, em concentrações que variam do indetectável aos 170 miligramas por litro. A quantia é menos de um milésimo da dose mínima prescrita em casos de transtornos bipolares e de depressão. Pode parecer estranho que as quantidades microscópicas encontradas nos lençóis freáticos possa ter qualquer impacto na saúde, mas quanto mais os cientistas pesquisam, mais se descobre. Aos poucos se acumulam evidências de que doses relativamente pequenas de lítio têm efeitos benéficos significativos. Elas parecem promover a saúde neuronal, reduzir sensivelmente as taxas de suicídio e melhorar o estado de humor em geral.

Mesmo assim, apesar dos estudos demonstrarem os benefícios de níveis razoáveis de lítio na água de certas comunidades, poucos parecem estar conscientes do seu potencial. De forma intermitente histórias aparecem em jornais científicos e na mídia, mas elas têm pouca influência na comunidade médica ou no público geral.

A história científica do lítio e seu papel na saúde começou nos anos 70. Estudos daquela época descobriram que animais que consumiam dietas com quantias mínimas de lítio tinham taxa de mortalidade mais alta, assim como anormalidades na reprodução e no comportamento.

Pesquisadores começaram a se perguntar se baixos níveis de lítio poderiam se correlacionar com problemas comportamentais em humanos. Em 1990, foi publicado um estudo analisando os efeitos de diferentes níveis da substância na água de 27 condados no Texas. Os autores descobriram que os grupos de pessoas que bebiam água com as menores concentrações do elemento tinham taxas de suicídio, homicídio e estupro maiores do que as que os grupos de pessoas com acesso a concentrações substanciais na água.

Quase vinte anos depois, um estudo japonês que comparou 18 cidades com mais de um milhão de habitantes por um período de cinco anos confirmou os achados da pesquisa anterior: as taxas de suicídio eram inversamente correlacionadas com a presença de lítio nos abastecimentos de água.

Mais recentemente, outras pesquisas, na Grécia e na Áustria, confirmaram mais uma vez a correlação.

Nem todos os estudos chegaram à mesma conclusão. Houve, por exemplo, uma pesquisa de resultado negativo na Inglaterra, embora seja difícil de avaliar a relevância, já que a ocorrência de lítio na região é muito menor do que a encontrada em outros países estudados.

Uma revisão recente de estudos epidemiológicos avaliou onze estudos que abordam a correlação e, do total, nove encontraram uma associação entre altos níveis de lítio e "efeitos clínicos, comportamentais, legais e medicinais positivos".

Outra pesquisa focou as altas doses terapêuticas usadas para tratar transtornos do humor e descobriu que mapeamentos cerebrais de pacientes bipolares tratados com lítio exibiam áreas de matéria cinzenta no cérebro maiores em comparação com pacientes bipolares que não foram tratados com lítio e com o grupo de controle em geral.

O Dr. Nassir Ghaemi, professor de psiquiatria na Tufts University School of Medicine e um dos mais ativos e esclarecidos proponentes do lítio da comunidade médica, afirma que "o lítio é, seguramente, a droga mais eficaz na promoção de saúde de neurônios, em animais e em humanos, consistentemente comprovada em numerosos estudos replicados". E acrescentou, "se o lítio é profilático em relação à demência, então talvez estejamos menosprezando uma maneira muito simples de se prevenir um grande problema de saúde.

Alguém poderia dizer que o lítio é a Cinderela das substâncias psicotrópicas: negligenciada e maltratada. Sugerido por um psiquiatra australiano, John Cade, em 1949, que seria um tratamento efetivo para o transtorno bipolar (seria aprovado como um medicamento pela Food and Drug Administration em 1970), sua eficácia contra distúrbios do humor e prevenção ao suicídio foram documentadas tão bem ou melhor do que virtualmente qualquer outro medicamento psicotrópico. Mas ele amarga uma reputação negra, talvez porque tenha sido originalmente associado na mente do público a doenças mentais severas e porque, como muitas medicações, o lítio pode ter sérios efeitos colaterais caso sua administração não seja monitorada adequadamente. Mas há sem sombra de dúvida outras razões para o desdém. As indústrias farmacêuticas não têm nada a lucrar com a presença desta substância barata e presente em todos os lugares.

O Dr. Peter D. Kramer, autor de Listening to Prozac (em português, "Ouvindo o Prozac") e professor de psiquiatria da Brown University, cogita que não tem havido pesquisa suficiente sobre prescrição de baixas dosagens de lítio porque "o establishment médico desqualifica suplementos de baixas dosagens como algo inefetivo ou similar à homeopatia. E a turma da medicina alternativa o abomina porque — embora seja apenas um sal encontrado nos lençois freáticos — o lítio já tem uma identidade como medicamento poderoso para a doença mental.

O lítio é conhecido por seu poder curativo a séculos, se não por milênios. A cidade de Lithia Springs (no estado da Georgia, Estados Unidos), por exemplo, com suas águas naturalmente enriquecidas com lítio, parece ter sido no passado um local sagrado para índios americanos. No final do século XIX, Lithia Springs era um famoso destino visitado por Mark Twain e pelos presidentes Grover Cleveland, William Howard Taft, William McKinley e Theodore Roosevelt.

Bebidas com lítio foram uma grande demanda pela reputação de suas propriedades promotoras de saúde. O refrigerante "7-Up" chamava-se originalmente Bib-Label Lithiated Lemon-Lime Soda e continha citrato de lítio até os anos cinquenta. Até cerveja preparada com água litiada era comercializada.

Em 1940, médicos começaram a receitar para pacientes com doenças cardíacas cloreto de lítio como um substituto ao sal comum, cloreto de sódio. As altas e desreguladas doses nesta população vulnerável tiveram efeitos tóxicos e até letais. Logo o lítio foi retirado das bebidas e outros produtos, e sua reputação jamais se recuperou.

Alguns cientistas propõem que o lítio seja reconhecido como um nutriente essencial. Quem pode imaginar o impacto que haveria em nossa sociedade se pequenas doses extra do elemento viessem novamente a fazer parte de nossa dieta?

Pesquisas sobre um elemento simples que está presente entre nós há milênios não parece ser uma alta prioridade, mas deveria.