Sobre mulheres e transformações

Trabalho em uma faculdade em que há três cursos: Psicologia, Pedagogia e Letras. Somos muitas mulheres. No último dia 08 de março, me peguei pensando, enquanto andava pelos corredores: na sala à minha direita, a aula era sobre como são construídos sentidos singulares em cada história vivida. Na sala à minha esquerda, sobre o corpo humano, sobre como há complexos processos fisiológicos acontecendo o tempo todo, simultaneamente, a cada vez respiramos. Um pouco mais adiante, a aula era sobre os dilemas envolvidos na escolha profissional. Em outra sala, que estava com a porta aberta, era possível ver algumas alunas sentadas no chão, brincando com blocos. O tema da aula era a importância do lúdico na infância. Subindo a rampa, de um lado as pessoas aprendiam libras, de outro, literatura espanhola, mais à frente, métodos de alfabetização. Apesar de ser um lugar onde estou sempre, foi só naquela noite de 08 de março que me deparei com aquela sensação de deslumbramento diante das tantas coisas que aprendemos e construímos por ali: que incrível! Continuei andando, inspirada, lembrando da atividade que faria sobre o dia internacional das mulheres na minha aula sobre assuntos que também considero tão importantes: sexualidade e gênero.

A atividade que faria é como uma linha do tempo: Quando, no Brasil, passou a ser permitido que meninas frequentassem a escola?1 Quando as mulheres passaram a poder ingressar nas universidades?2 Quando começaram a poder ser admitidas como funcionárias públicas?3 Quando conquistaram o direito ao voto?4 Quando puderam votar pela primeira vez?5 Quando passaram a ter acesso à pílula anticoncepcional?6 Quando conquistaram o direito ao divórcio?7 Quando foi criada a primeira delegacia da mulher, para a atenção especial às denúncias de violência?8 Quando o feminicídio passou a ser considerado um crime hediondo?9

Ao responderem sobre as datas que imaginam que essas conquistas aconteceram, a tendência é que as pessoas demorem para chegar ao ano exato porque têm a impressão de que teriam ocorrido há mais tempo. São conquistas historicamente recentes, frutos de muitas mobilizações, de muita luta política. Pensar sobre a história nos leva a pensar como ainda há muitas transformações que precisam ser buscadas, muitos direitos ainda a serem conquistados. As mulheres (principalmente as mulheres negras) são ainda hoje a maioria entre as pessoas adultas que vivem abaixo da linha da pobreza, muitas delas responsáveis sozinhas por suas famílias, pelos cuidados com crianças e idosos(as). A diferença salarial é ainda muito significativa, mesmo quando a escolaridade é maior. As atividades em que a maior parte das profissionais são mulheres são ainda as que recebem menor remuneração. São ainda poucas as mulheres em cargos políticos representativos. São ainda alarmantes as ocorrências, todos os dias, de espancamentos, estupros, assassinatos e outras formas de violência física, sexual e psicológica. Neste ano completamos dez anos da Lei Maria da Penha e ainda há tanto a avançar.

Diante de um quadro tão desigual, com tantas opressões e violências, é importante ressaltar o ainda, para que nada seja tomado como inquestionável como na frase que infelizmente escuto de vem em quando: “Mas não há o que fazer! Sempre foi assim, sempre será!”. Conhecer sobre as conquistas históricas pode ser um movimento fundamental para reconhecermos que transformações são, sim, possíveis (embora não sejam nem um pouco fáceis e também nunca sejam automáticas, exigem muito fôlego, muita mobilização política).

Lembro de como essa sensação de que transformações são possíveis foi forte pra mim quando li o livro Deslocamentos do feminino, de deslocamentos do femininoMaria Rita Kehl, em que a autora dedica um capítulo para abordar como no século XVIII, na Europa, foram muitas as resistências diante da alfabetização feminina, resistências respaldadas e alimentadas pelos discursos da medicina e da pedagogia da época. As oposições tinham como base a ideia de que a permissão para que as mulheres fossem alfabetizadas e tivessem acesso a livros teria consequências devastadoras para as famílias, para os casamentos, para a educação das crianças, enfim, para a sociedade, já que essa permissão corromperia a ingenuidade tão característica da suposta “essência feminina”. Sim, hoje lemos; hoje escrevemos; hoje frequentamos e ensinamos em escolas e universidades; hoje nos dedicamos para que outras pessoas aprendam a ler, a escrever, a pesquisar, a ensinar; hoje lutamos para que todas e todos possam ter acesso à educação, à alfabetização, às escolas e às universidades. Talvez a suposta “essência feminina” tenha sido mesmo corrompida, se considerarmos que ela seria sinônimo de passividade, de submissão, de invisibilidade política, de silêncio. Nas palavras da autora, a leitura e a escrita abriram caminhos para que as mulheres pudessem se reconhecer como “sujeitos de suas próprias vidas”.

A aventura de contar-se: Feminismos, escritas de si e invenções da subjetividade é o livro da historiadora Margareth Rago que também enfatiza os processos de construção em que as mulheres se veem como sujeitos das própriasaventura contar vidas e traz muito fôlego para a convicção de possibilidades de transformação. Nele a autora aborda as mudanças suscitadas pelas mobilizações feministas no Brasil nas últimas quatro décadas, partindo de narrativas sobre as histórias de vida de sete militantes feministas, envolvidas em questões sociais, acadêmicas e políticas: a luta pela reparação contra os danos causados pela ditadura militar (Amelinha, Crimélia); a luta pelo direito das prostitutas (Gabriela); o ativismo pelo diálogo entre Igreja Católica e as reivindicações feministas como o direito de decidir (Ivone); além de produções literárias e construções teóricas nos campos da Sociologia, da Filosofia e da Psicanálise (Maria, Norma e Tânia).

“Como as mulheres têm transformado o mundo e a si mesmas” é a questão norteadora do livro, em que Margareth Rago traz de forma sensível e inspiradora como:

o Brasil se tornou conhecido, dentre outras dimensões, por possuir um dos movimentos feministas mais importantes da atualidade. Desde os anos 1970, em meio à violenta ditadura militar que se estabeleceu no país entre 1964 e 1985, muitas mulheres se uniram e passaram progressivamente a criar novos modos de existir, ocupando os espaços públicos, desenvolvendo novas formas de sociabilidade, reivindicando direitos e transformando a vida social, política e cultural (...). Educadas, entre os anos de 1950 e 1960, para a virgindade, o casamento monogâmico indissolúvel, a maternidade e os cuidados com a família e para a passividade e o silêncio, abriram caminhos próprios, singulares (...). Com suas práticas concretas e com seus modos de pensar feministas produziram importantes rupturas e sucessivos deslocamentos no imaginário social, especialmente no que tange às questões da moral, da sexualidade e dos modelos de feminilidade e corporeidade que lhes deveriam ter servido de referência. Criticaram e desconstruíram os modos tradicionais de produção da subjetividade e propuseram outros.

“Como as mulheres tem transformado o mundo e a si mesmas” é também uma questão que me acompanha como professora de Psicologia, esta área em que a busca por potencializar as possibilidades para a “aventura de contar-se”, para a utilizar a expressão de Margareth Rago, é algo tão marcante. É a escuta, a sensibilidade e o preparo para o reconhecimento das singularidades que atravessa toda a formação. Reconhecer as singularidades implica compreender que não há nenhuma identidade pronta, que venha de uma essência, que pré-determine quem alguém é e pré-destine quem alguém poderá ser, ou seja, implica reconhecer como está sempre presente a possibilidade de transformações. Somos maioria mulheres, segundo o levantamento realizado por nosso Conselho Federal, 89%. Muitos dos homens que estão conosco enfrentaram resistências ao escolherem a profissão, já que, segundo essa visão de que haveria uma “essência”, Psicologia não seria apropriada para homens. Desde olhares de estranhamento a reações explícitas de reprovação, eles têm enfrentado a força dos estereótipos, preconceitos e padrões normativos para também expressarem, com suas histórias e realizações, que não há nenhuma identidade que pré-determine quem alguém é e pré-destine quem alguém poderá ser. O que é ser homem? O que é ser mulher? O que é sermos quem somos? O que significa, ao longo de nosso desenvolvimento, aprendermos a nos reconhecermos como mulheres ou como homens? Que limitações essa divisão traz? Que sofrimentos essa divisão traz? Que desigualdades são alimentadas por essa divisão? Como a Psicologia pode contribuir para que esses sofrimentos possam ser transformados? Como a Psicologia pode genero educacaocontribuir para que essas desigualdades possam ser enfrentadas? É justamente porque, em nossos cursos, temos espaços propícios para que esses questionamentos levem a tantas reflexões e discussões, que andar pelos corredores da faculdade no dia 08 de março me deu uma sensação tão inspiradora. Cotidianamente discutimos em nossas aulas questões como os processos de construção de subjetividades, as relações, as escolhas, as experiências íntimas, as emoções, os sofrimentos, as sociabilidades, as corporeidades, as sexualidades, as feminilidades, as masculinidades, os sonhos, os desejos, as fantasias, os prazeres, temas que, por muito tempo, como descreve Guacira Lopes Louro no livro Gênero, Sexualidade e Educação, foram considerados menores, invisibilizados, como se fossem fúteis demais para serem tema de investigações científicas, discussões públicas e mobilizações políticas. Nossa profissão, tão recente historicamente (no Brasil são pouco mais de 50 anos), é muito relacionada a essa ruptura da ideia de que o mundo se dividira em público (objetivo, profissional, sério, neutro, político, científico e masculino) e privado (subjetivo, pessoal, íntimo, maternal, sentimental, reservado e feminino). “O pessoal é político!”, afirmaram as feministas desde a segunda onda, lutando por direitos que abrangeram o direito de que essas questões deixassem de ser silenciadas e passassem a ser temas de investigações e produções de conhecimentos científicos. Como conta Guacira Louro:

Militantes feministas participantes do mundo acadêmico vão trazer para o interior das universidades e escolas questões que as mobilizavam, impregnando e “contaminando” o seu fazer intelectual- como estudiosas, docentes, pesquisadoras- com a paixão política.

Autoras como Guacira Louro, Margareth Rago e Maria Rita Kehl, entre muitas outras que foram tão marcantes para minha formação, sem dúvidas me “contaminaram” com a paixão política, uma paixão política que transformou como me vejo como psicóloga, como professora, como pesquisadora, como mulher, e por que não dizer, como psicólogas, como professoras, como pesquisadoras e como mulheres, já que também sou múltiplas, como a paixão política que me foi “impregnada” me ensinou. E é nesse sentido que o 08 de março mexeu comigo, ao ver as aulas acontecendo: pela força do cotidiano, pela potência com que as práticas cotidianas refletem e impulsionam transformações. Reconheço como mais do que comemorar conquistas, precisamos nos organizar e buscar meios de reivindicar para que as condições opressoras e desiguais que tanto persistem possam ser enfrentadas. Buscar romper com a ideia de que há atividades, profissões e cursos “de mulheres” e atividades, profissões e cursos “de homens” é um passo nesse caminho. Por isso escolho concluir com dois gifs divulgados no 08 de março que expressam essa busca por romper a divisão, produzidos pelos grupos Arquitetas Invisíveis e pelo Coletivo de Mulheres Sonja Ashauer.



1 Em 1827

2 Em 1879

3 Em 1917

4 Em 1932

5 Em 1946

6 Em 1960

7 Em 1977

8 Em 1985

9 Em 2015

 


marcela pastanaMarcela Pastana é psicóloga e mestre em Educação Escolar pela UNESP. Professora do curso de psicologia do IMES-São Manuel. Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisa em Sexualidade, Educação e Cultura- GEPESEC e coordenadora do Grupo de Discussões sobre Sexualidade e Mídia. Coordenadora do Núcleo de Sexualidade e Gênero do CRP/SP - subsede Bauru.
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