Sexualidade e Gênero em Seriados

Quando Renato chega para uma consulta médica, a recepcionista pede seu documento de identidade. Renato procura na carteira e lamenta ter esquecido o RG em casa. A recepcionista responde que sente muito, mas que não pode liberar o acesso sem que seja apresentado um documento com foto.

Psi Quero ser quem eu sou

Situações como a da cena descrita são relativamente comuns: há diferentes momentos em que estar sem o documento pode nos prejudicar, como consultas médicas; embarques para viagens de ônibus ou avião; cadastros em lojas e outros estabelecimentos; participação em provas, processos seletivos ou concursos.

Renato, no entanto, não havia esquecido a identidade. Disse não ter encontrado na carteira como uma tentativa de evitar uma situação constrangedora, já que o nome que está no documento com frequência desperta reações de estranhamento, desconfiança e inclusive reações que envolvem discriminação e exclusão. Renato é um homem trans que ainda não conquistou o direito da mudança de nome em seus documentos.

O episódio “Quero ser quem eu sou”, da série brasileira Psi, é sobre a busca de pessoas como Renato por serem identificadas e reconhecidas por quem são. No episódio são retratadas algumas dificuldades enfrentadas no processo pelo direito de mudança nos documentos, como as resistências da promotora, a personagem Taís, que compreende sexualidade e gênero como aspectos da identidade fixos e imutáveis. No decorrer do episódio, tal compreensão é colocada em questão à medida que, no contexto da própria análise, ela realiza o movimento de refletir sobre a própria história.

A série Psi é dirigida por Marcus Baldini, transmitida pelo canal HBO. Baseada nos livros do psicanalista Contardo Calligaris, tem como uma das características principais a complexidade dos(as) personagens e das histórias vividas por eles(as), assim como a densidade das relações.

Também no episódio “Quero ser quem eu sou”, há a narrativa sobre a produção de um documentário com a participação de travestis e transexuais, em que são entrevistadas as personagens vividas por Carol Marra, atriz trans, por Divina Núbia, atriz travesti e também por Leo Moreira Sá, ator trans que vive o personagem Renato.

Uma das questões interessantes trazidas pelo episódio é como conhecer as trajetórias dos(as) personagens contribui para esclarecer uma confusão frequente entre a identidade de gênero (como a pessoa se vê, se sente, se identifica e se reconhece, como homem e/ou como mulher) e a orientação sexual (como os desejos, os afetos, as fantasias e os vínculos da pessoa se dirigem predominantemente a homens e/ou a mulheres). A partir das diferentes narrativas, acompanhamos exemplos sobre como tanto as formas de ser e de se expressar, quanto as formas de desejar, sentir e se relacionar são múltiplas, plurais, não podem ser reduzidas a modelos únicos nem engessadas pelas expectativas do que é transmitido como “normalidade”.

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A multiplicidade das experiências relacionadas ao gênero, a como as pessoas se vêem e se constróem como mulheres e/ou como homens é também tema de outra série muito interessante: Transparent, produzida pela Amazon Studios, em que a protagonista vive o desafio de passar pelo processo de reconhecer-se e ser reconhecida como mulher, de expressar-se como sente ser. Os primeiros episódios contam principalmente sobre como é para a personagem Maura falar abertamente sobre o processo que está vivendo com suas filhas e seu filho.  

A ideia do gênero como algo fixo, estático e imutável passa por uma desconstrução não apenas nas experiências da personagem Maura, que vive a transição, mas também em situações diversas vividas por outros(as) personagens da série, situações que contribuem para desestabilizar a impressão de que os modos como as feminilidades e masculinidades são vividas e expressas seriam, supostamente, “naturais”. A abertura e a coragem para transformações é algo que torna a série muito instigante.

Na cena da imagem a seguir estão a protagonista Maura e a amiga Dadiva, que lhe dá apoio, incentivo e inspiração no processo de transição. Dadiva é interpretada por Alexandra Billings, atriz trans.

Transparent

O enredo de Transparent teve como referência a experiência da mãe trans do diretor Jill Solloway, que, no discurso de agradecimento pelo prêmio recebido no Golden Globe em 2014, disse:

“Eu quero agradecer à comunidade trans. Eles são nossa família e eles tornaram isso possível. Este prêmio é dedicado à memória de Leelah Alcorn, e às muitas pessoas trans que morreram muito novas. E é dedicado a você, minha ‘trans parent’, minha mapa, se você estiver assistindo em casa agora mesmo. Eu quero agradecer você por ter assumido ser uma mulher trans [coming out] porque, ao ter feito isso, você fez um movimento pela liberdade, você contou a verdade, você me ensinou como contar sobre minha verdade e fazer esse seriado, e talvez eu possa ser capaz de ensinar ao mundo algo sobre autenticidade, sobre verdade e sobre amor. Ao amor”.

A busca de Maura por enfrentar os preconceitos e a incompreensão é, nas palavras de Laerte Coutinho: “uma situação que está longe de ser excepcional; ao contrário, é frequente e secreta, lutando para se fazer reconhecer e derrotar o estigma social que a associa, na visão do fundamentalismo conservador, com a perversão e a doença”.

No trecho a seguir, do Manifesto publicado pelo Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, são elencados motivos sobre a importância de nos mobilizarmos pela despatologização das identidades trans:

“Os Estudos de Gênero e as próprias experiências vividas por pessoas trans demonstram que a concepção binária de gênero presente no ocidente e o alinhamento entre sexo, gênero e desejo não são algo "natural". A idéia da existência de dois gêneros opostos, feminino e masculino, baseada na diferença entre os sexos, é algo construído culturalmente. A realidade de sexo, de gênero e do corpo não pode ser imposta. (...) Portanto, numa concepção que desnaturalize o gênero, a pluralidade das identidades de gênero refere possibilidades de existência, manifestações da diversidade humana, e não transtornos mentais”.

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Para a compreensão sobre a importância do reconhecimento de como são múltiplas as formas de ser, sentir, se expressar, desejar e se relacionar, compreensão que é base para a busca por despatologização, outro seriado que pode suscitar reflexões sobre como os preconceitos e discriminações geram violências e sofrimentos é o seriado Masters of Sex, que retrata o início das pesquisas em sexologia, com a possibilidade de acompanharmos os desafios e resistências enfrentados por William Masters e Virgina Johnson na busca por defender o sexo como tema legítimo de estudo. O seriado foi criado por Michelle Ashford e começou a ser exibido em 2013.

Além da história dos experimentos realizados por Masters e Johnson nas décadas de 1950 e 1960, o seriado traz a história do personagem Barton Scully, reitor da universidade em que os estudos começaram a ser desenvolvidos. Barton pede ajuda porque vê o desejo que sente por homens como algo que precisa ser curado. Após tentativas de tratamentos que envolveram tomar remédios que supostamente gerariam aversão por homens e arriscados procedimentos com eletrochoques, os extenuantes esforços de Barton para se adaptar ao que era considerado socialmente como “normal” ilustram como tais tratamentos, ao invés de modificarem o sofrimento, geram mais dor e sofrimento.  

A cena da imagem a seguir refere-se a quando Barton é submetido aos procedimentos com eletrochoques:

  

Masters of Sex

Acompanhar a história de Barton, marcada pelos devastadores efeitos do preconceito, nos permite ampliar a compreensão sobre como o movimento de despatologização da homossexualidade foi imprescindível.

William Master e Virginia Johnson realizaram experimentos em laboratórios para o estudo da resposta sexual humana em que participaram mais de 600 voluntários(as) e foram observados mais de 10.000 orgasmos.

Apesar de muito ousados e inovadores no que diz respeito à defesa de que o sexo é um objeto legítimo de pesquisa científica, em relação à compreensão da diversidade de desejos, afetos e fantasias nas experiências e relações humanas, Master e Johnson ainda se apegavam a concepções muito normativas e restritivas, concepções que contribuíram para reforçar.

Tanto as investigações sobre a resposta sexual quanto os métodos de tratamento para disfunção desenvolvidos a partir delas tinham como premissa a importância de melhorar a vida sexual conjugal, já que a compreensão de “saúde” sexual se restringia ao relaiconamento entre o homem e a mulher no contexto do casamento.

Os mesmos estudos que permitiram identificar como, ao contrário do que se acreditava na época, as mulheres possuem amplo potencial para o orgasmo, especialmente pela estimulação do clitóris, foram estudos em que a valorização do prazer sexual foi circunscrita à importância da manutenção do que era considerado como “felicidade conjugal”.

No livro “Sociologia da Sexualidade”, Michel Bozon descreve:

“Para Master e Johnson, a união através do prazer é a própria base do casamento. O ato sexual bem realizado torna-se a forma suprema de comunicação entre os cônjuges e de bem-estar para ambos. É proposto um modelo único de realização sexual, estritamente inscrito no quadro de um casal heterossexual estabelecido e decidido a cooperar de acordo com as regras, modelo que foi o ponto de partida para uma abundante literatura de aconselhamento”.

As histórias vividas pelas personagens mulheres na série evidenciam a força dessas contradições. O texto O que aprendemos sobre feminismo com Masters of Sex discute alguns exemplos. A própria protagonista, Virginia, que ocupa um papel de destaque na busca pelo avanço dos conhecimentos científicos sobre a resposta sexual, de uma forma geral, e sobre o prazer sexual das mulheres, mais especificamente, vive muitos desafios diante da invisibilização de seu trabalho, inclusive na relação com o personagem William Master. O apagamento e a desvalorização eram dificuldades muito recorrentes para as mulheres do período, foram muitos os esforços que empreenderam para conseguirem a inserção e lutarem pelo reconhecimento na vida profissional e acadêmica.

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A árdua busca por superar exclusões e desvalorizações é também um traço frequente nas trajetórias profissionais das personagens mulheres da série Mad Man, como Peggy Olson e Joan Holloway.

Mad Man

Em Mad Men conhecemos o dia-a-dia de uma agência de publicidade em Nova York, a Sterling-Cooper, e nos deparamos com quão deslocadas as funcionárias mulheres se sentiam, tratadas com frequência com distanciamento, hostilidade e frieza, sendo também desrespeitadas, inferiorizadas e humilhadas em várias situações. Para as mulheres que se dedicavam aos cuidados domésticos e das crianças, como Betty Draper, esposa do protagonista, a inferiorização e a invisibilidade eram também muito significativas.

Enquanto anúncios, novelas e filmes da década de 1960 retratavam mulheres sorridentes e radiantes, que celebravam os prazeres de tornarem suas casas sempre aconchegantes e convidativas para que as crianças brincassem alegres e os maridos descansassem aliviados ao chegarem do trabalho, as experiências e sensações vividas por muitas mulheres referiam-se a uma realidade muito distante desse ideal tão propagado.

“A Mística Feminina” é o livro de Betty Friedan no qual a autora aborda sobre como esses modelos de conjugalidade, maternidade e domesticidade tão difundidos nos Estados Unidos na década de 1960 passavam longe de gerar todo o brilho e contentamento prometidos. Frustração, culpa e sensações de insuficiência diante do que era transmitido sobre como a feminilidade deveria ser eram bem mais constantes entre as mulheres que a aclamada satisfação em realizarem a suposta “natureza feminina”.

Convencer as mulheres de que a casa estava sim destinada a ser um paraíso e que os descontentamentos que sentiam eram infundados, como “um problema sem nome”, nas palavras de Friedam, era um esforço frequente dos meios de comunicação de massa, que se difundiam no período, assim como difundiam a ideia de que o acesso à vida pública seria algo exclusivamente masculino.

Ainda que o feminismo seja pouco mencionado em Mad Men, a série contribui para evidenciar a importância das reivindicações e mobilizações feministas, mesmo que o feminismo seja tão pouco mencionado, por como são explicitadas as absurdas consequências da naturalização das desigualdades. Hoje ainda temos muitas desigualdades nas condições de trabalho e de acesso a direitos, de modo que conhecermos as transformações históricas e conhecermos sobre um período em que invisibilidades e opressões eram vistas como algo inevitável e imutável pode dar contornos mais nítidos para a importância de problematizações e busca por mudanças.

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Desigualdades enfrentadas nas relações entre homens e mulheres em Mad Men; invisibilidade das mulheres e crença de que seria possível – e desejável – um tratamento para a cura da homossexualidade em Masters of Sex; coragem para viver transformações e enfrentar padrões que transmitem que gênero seria algo fixo e imutável em Transparent e valorização da multiplicidade das formas de ser, se expressar, desejar, fantasiar, sentir e se relacionar em Psi: diante de temas tão importantes quanto variados, o que me motivou a escrever este texto sobre sexualidade e gênero em seriados foi um fio condutor – o quanto as ficções podem dar vida e movimento a questões que tanto precisam ser discutidas.

Quando acompanhamos e nos emocionamos com uma história, quando conhecemos e nos envolvemos com os desafios vividos por um(a) personagem, quando sofremos com as dificuldades e vibramos com as conquistas que assistimos, há algo que acontece conosco que nos leva a uma dimensão diferente daquela das informações e argumentos.

Como diz Lúcia Facco no livro Era uma vez um casal diferente, explicar desde a infância sobre a diversidade, esclarecer sobre a igualdade de direitos e transmitir a importância do respeito e da valorização das diferenças é algo muito importante, a ser construído no dia-a-dia das relações educativas. A autora argumenta que, no entanto, por mais didática que seja uma explicação, o aprendizado que ocorre através de histórias, de narrativas, de ficções, traz um ingrediente diferente:

“A ficção, a literatura, fazem mais do que ampliar as nossas perspectivas, ao mapearem a realidade, anunciando territórios inexplorados e desconhecidos, a ficção e a literatura nos permitem viver o que de outro modo talvez não fosse possível”.

O ingrediente que as ficções nos trazem é o estímulo à fantasia, a inspiração para imaginar como as coisas poderiam ser diferentes do que são, o fôlego para a criatividade, a disposição de que é possível – e desejável – construir novas formas de ser, de sentir, de pensar, de se relacionar. Por isso as ficções podem ser fontes tão férteis de diálogo.



marcela pastanaMarcela Pastana é psicóloga e mestre em Educação Escolar pela UNESP. Professora do curso de psicologia do IMES-São Manuel. Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisa em Sexualidade, Educação e Cultura- GEPESEC e coordenadora do Grupo de Discussões sobre Sexualidade e Mídia. Coordenadora do Núcleo de Sexualidade e Gênero do CRP/SP - subsede Bauru.
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