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Quem eram as mulheres queimadas nas fogueiras da Inquisição?

            A vinda de Judith Butler ao Brasil para participar de um evento sobre os fins da democracia foi acompanhada pela receptividade de muitas pessoas que desejavam ouvir suas ideias, mas também por muitas resistências, ataques e acusações de grupos que a definiram como difusora da suposta “ideologia de gênero”, termo depreciativo usado em referência às teorias de gênero e às discussões sobre como os padrões de masculinidade e feminilidade, assim como as violências e desigualdades entre homens e mulheres não são naturais nem decorrentes de uma essência, de fatores biológicos, mas sim, construções que envolvem fatores sociais, culturais, históricos e políticos.

            Entre os ataques, houve um grupo de pessoas que construiu uma boneca com seu rosto, e, na frente do Sesc Pompéia, onde o evento sobre democracia aconteceria, atearam fogo, em referência às bruxas queimadas nas fogueiras da inquisição. Alexandre Frota, conhecido por defender ideias de grupos conservadores, como do Movimento Brasil Livre, publicou em uma rede social: “Nosso grupo queimou a cara dessa vadia”, com a imagem de um cartaz com o rosto de Butler entre chamas, acompanhado da frase: “Vá para o inferno”.

            A referência às fogueiras da Inquisição evidencia a gravidade de como os ataques se organizam, das ideias que defendem. Por isso, torna-se importante nos perguntarmos: quem eram as chamadas bruxas, perseguidas e queimadas nas fogueiras?

A Inquisição teve início no século IV e durou até o século XVIII, com a perseguição das pessoas suspeitas de crenças e práticas opostas às pregadas pela Igreja Católica. O “Martelo das bruxas”, publicado em 1487, consiste no principal registro sobre quais eram as características utilizadas para a identificação das mulheres que seriam condenadas.

Pessoas que colhiam, cultivavam e tinham conhecimentos sobre como preparar receitas a partir de plantas (em sua maioria, mulheres) foram perseguidas porque tais saberes e práticas populares eram condenados como maléficos, satânicos. A execução pública na fogueira era um dos possíveis castigos. Outras sentenças possíveis eram o enforcamento e o estrangulamento, antecedidos por diferentes formas de tortura. O fogo foi defendido como melhor recurso por eliminar o sangue e, assim, a ameaça de contaminação.

            As principais acusações eram referentes às práticas sexuais e reprodutivas: usos de plantas como contraceptivas, para interromper a gestação, para aliviar as dores do parto e como afrodisíacas. Os desejos e prazeres sexuais das mulheres eram considerados como demoníacos. Parteiras e curandeiras, que exerciam o importante papel de cuidados com a saúde no período, foram perseguidas como praticantes de feitiçaria. Preciado (2008, p. 116) discute:

Na época medieval, as mulheres se ocupam o cuidado e da cura do corpo graças a um saber tradicional baseado na utilização de ervas e na prática de ritos. Essas mulheres que curam, mulheres sábias e parteiras, conhecidas também como bruxas, vão representar uma ameaça para as novas sociedades profissionais em torno das quais se registram os novos saberes especializados que logo serão validados como científicos, como a medicina, que começa a organizar-se como categoria no século XVI.

            Trata-se da transição do regime feudal para o regime capitalista, em que a consolidação do poder atribuído às formas científicas de produção e transmissão do saber foi acompanhada da condenação de pessoas que possuíam conheceimentos sobre plantas e seus potenciais efeitos. A perseguição das bruxas no final da Idade Média pode ser compreendida, assim, como expressão da disputa entre os saberes especializados e os saberes populares não profissionalizados, considerando como os últimos foram exercidos tradicionalmente por mulheres.

No capítulo A grande caça às bruxas na Europa, Silvia Federici (2004) discute como a Inquisição exerceu um papel fundamental para o início de uma organização social em que a submissão dos corpos das mulheres e de suas capacidades sexuais e reprodutivas fosse explorada economicamente, a serviço do Estado. Embora algumas mulheres fossem acusadas por crimes específicos, a maior parte das acusações remetia a motivos que não eram facilmente identificáveis ou compreensíveis:

Um obstáculo fundamental no caminho para encontrar uma explicação reside no fato de que as acusações contra as bruxas foram tão grotescas e inacreditáveis que não podem ser comparadas com nenhuma outra motivação ou crime. Como dar conta do fato de que, durante mais de dois séculos, em distintos países europeus, centenas de milhares de mulheres foram julgadas, torturadas, queimadas vidas ou enforcadas, acusadas de ter vendido seu corpo e alma ao demônio e, por meios mágicos, assassinado inúmeras crianças, sugado seu sangue, fabricado poções com sua carne, causado a morte de seus vizinhos, destruindo gado e cultivos, provocado tempestades e realizado muitas outras abominações? (De todo modo, ainda hoje alguns historiadores nos pedem que acreditemos que a caça às bruxas foi completamente razoável no contexto da estrutura de crenças da época!) (Federici, 2004, p. 308).

            Em um período que os índices de mortalidade infantil eram altos por muitos motivos como falta de alimentos, falta de condições de saúde, miséria e epidemias, as mulheres eram acusadas e perseguidas por supostamente terem poderes infanticidas. Propagava-se, assim, um modelo de maternidade em que as mulheres eram incubidas de uma dedicação total, sacrificando e renunciando a outros interesses, em nome de um destino único de proteção às crianças.

A condenação do desejo sexual chegava a tal ponto que uma das supostas evidências afirmada para que as mulheres fossem queimadas era possuir um clitóris grande, como se um clitóris grande fosse uma marca do demônio.

            A caça às bruxas correspondeu, literalmente, à demonização de qualquer prática sexual não reprodutiva e de qualquer recurso de controle da natalidade. As mulheres eram descritas como seres selvagens com desejos insaciáveis, rebeldes, descontroladas e incontroláveis, em oposição ao modelo defendido: de mulheres passivas, dóceis, obedientes, submissas e subordinadas ao controle dos homens.

A caça às bruxas foi, portanto, uma guerra contra as mulheres; foi uma tentativa coordenada de degradá-las, demonizá-las e destruir seu poder social. Ao mesmo tempo, foi precisamente nas câmaras de tortura e nas fogueiras, nas quais as bruxas morreram, onde se forjaram os ideais burgueses de feminilidade e domesticidade (Federici, 2004, p. 337-338).

Enquanto antes as mulheres eram dotadas de saberes e poderes sobre os próprios corpos, sendo as responsáveis pela realização dos partos, pelo controle contraceptivo, pelo tratamento da dor e por outros procedimentos relacionados ao nascimento, à vida, à reprodução e à morte, compartilhando entre si conhecimentos sobre as propriedades de plantas de aliviar a dor e proporcionar prazeres, a perseguição da Inquisição às mulheres que tinham esses conhecimentos e práticas, consideradas como “bruxas”, foi fundamental para que o controle sobre os corpos fosse concentrado na categoria emergente de médicos.

No texto que escreveu sobre os ataques sofridos no Brasil, publicado na Folha de São Paulo, Judith Butler comenta sobre a importância da reflexão acerca do significado de um dos ataques ter envolvido uma fogueira:

(. . .) a tortura e o assassinato dessas mulheres por séculos como bruxas representaram um esforço para reprimir vozes dissidentes, aquelas que questionavam certos dogmas da religião. (. . .) Embora apenas minha efígie tenha sido queimada, e eu mesma tenha saído ilesa, fiquei horrorizada com a ação. Nem tanto por interesse próprio, mas em solidariedade às corajosas feministas e pessoas queer no Brasil que estão batalhando por maior liberdade e igualdade, que buscam defender e realizar uma democracia na qual os direitos sexuais sejam afirmados e a violência contra minorias sexuais e de gênero seja abominada.