Psicologia, sexualidade, gênero... e interrogações

Descubra seu verdadeiro eu!”; “Resgate sua essência feminina!”; “Desvende os segredos do universo masculino!”; “Enigma decifrado: saiba tudo sobre o que homens e mulheres desejam!”; “Mapa da felicidade!”; “Faça o amor dar certo!”.

Quando me apresento contando sobre os temas com os quais trabalho: psicologia, sexualidade e gênero, penso no quanto promessas como as que foram listadas acima estão difundidas... Alguns exemplos são como as matérias de jornais, revistas, sites e programas televisivos abordam diferentes questões oferecendo dicas em forma de “receitas”, muitas vezes procurando psicólogas e psicólogos para ajudarem nessa tarefa. Reconheço que, para nós, profissionais da Psicologia, não é nada simples lidar com a posição em que somos colocadas(os) e com as expectativas que nos são dirigidas. Identidades, desejos, fantasias, afetos, relacionamentos, são temas que muito inquietam e, com frequência, é esperado que caiba a nós, psicólogas(os), apresentar explicações que aplaquem essas inquietações.

Mais do que explicações apaziguadoras, muitas vezes a demanda é de um “manual de instruções”, que didaticamente ensine como são as “engrenagens” da “máquina” humana; como “funcionam” as mulheres e os homens; como “consertar” relações “com defeito”. Quando o assunto abordado é sexualidade e/ou gênero, são muitas as angústias expressas em questões como: “O que sinto não é normal...”, “Meus desejos não são normais...”, “Eu só queria ser uma pessoa normal... Como faço?”.

A ideia de que há uma “normalidade” a ser alcançada é muito forte, como se houvesse um modelo único ao qual todas e todos devam se encaixar. Caberia à Psicologia fornecer as técnicas para o enquadramento. Nada mais distante do que buscamos, nada mais difícil de ser desconstruído. Ainda mais em um momento em que mesmo conquistas históricas, como a defesa da igualdade e do enfrentamento ao preconceito e à violência nas escolas, são chamadas de “ideologias” por grupos que exigem a retirada da palavra “gênero” dos Planos de Educação. É defendida a noção de que haveria uma família “natural”, constituída por um homem “natural” e uma mulher “natural” em uma relação heterossexual “natural”, com acusações e ataques contra aqueles e aquelas que buscam desvendar o quanto essa pretensa “naturalidade”, geradora de tantas discriminações e exclusões, é construída e atravessada por fatores históricos, sociais, culturais e políticos.

“Desnaturalizar” o que alimenta a violência e o preconceito é um compromisso ético e político para a Psicologia hoje, com a desconstrução de modelos de normalidade que tanto limitam e geram sofrimento. Para isso, um primeiro passo é investirmos na busca por desmistificar nossa profissão como aquela que atuaria como “guardiã da normalidade”, que ensinaria às pessoas sobre como se encaixarem e corresponderem aos padrões. As formas de ser, viver, desejar, fantasiar, construir relações se expressam de formas tão diversas, tão múltiplas, e é justamente essa multiplicidade que torna nossa profissão tão fascinante. Não nos cabe, e não nos caberia se conseguíssemos, apresentar explicações fixas sobre quem as pessoas são ou devam ser. Aliás, muito mais do que afirmar e explicar, nossa prática consiste em colocar indagações, em promover possibilidades de questionamentos, em estimular interrogações.

É a partir da importância da desnaturalização, da valorização das multiplicidades e das interrogações que gostaria de aproveitar a oportunidade de escrever nesta coluna...

Como começar? Gosto da sensação de estar diante de algo novo que, ao mesmo tempo, é a continuação de uma proposta de construir um espaço no qual os temas psicologia, sexualidade e gênero podem ser entrelaçados e pensados a partir de uma perspectiva questionadora. Por aqui, Daniela Smid propôs pensarmos a feminilidade e a masculinidade para além das questões anatômicas, analisando os efeitos políticos da forma como as diferenças corporais foram significadas; problematizou sobre as definições dadas de antemão que tantas vezes engessam ao invés de expressarem as múltiplas possibilidades de sermos e vivermos os gêneros e as sexualidades; abordou como as formas tão diversas de nos relacionarmos são marcadas por um processo histórico em que determinadas configurações foram transmitidas como “normais” e “naturais” enquanto outras foram inferiorizadas, relegadas à marginalidade e invisibilizadas, o que torna a busca por visibilidade tão relevante politicamente; apontou ainda os muitos desafios que enfrentamos no combate à desigualdade e à violência. Também ilustrou como a psicanálise pode contribuir no processo tão necessário de desmistificação, desconstrução de padrões cristalizados e em questionamentos que nos permitam criar meios de lidar com os conflitos que vivemos de forma mais livre e inventiva. Prosseguir com o movimento que Daniela tem feito com sensibilidade e disposição política é um desafio muito interessante, e acredito que se torna ainda mais fértil com a possibilidade de ser um espaço aberto, com a participação de diferentes vozes e olhares construindo juntos(as), um diálogo em busca da desnaturalização e da “desideologização” tão necessárias.

 


marcela pastanaMarcela Pastana é psicóloga e mestre em Educação Escolar pela UNESP. Professora do curso de psicologia do IMES-São Manuel. Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisa em Sexualidade, Educação e Cultura- GEPESEC e coordenadora do Grupo de Discussões sobre Sexualidade e Mídia. Coordenadora do Núcleo de Sexualidade e Gênero do CRP/SP - subsede Bauru.
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