Por que dialogar sobre gênero e violência é fundamental?

Há 9 anos, no dia 7 de agosto de 2006, foi publicada a Lei Maria da Penha, elaborada com o objetivo de coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra as mulheres, por meio da promoção de medidas de assistência e proteção.

São muitos os desafios para que o objetivo seja alcançado. O quadro da violência atualmente é alarmante. Em uma pesquisa publicada em 2013 pelo Data Senado, foi apresentada a estimativa de que mais de 13 milhões e 500 mil mulheres no Brasil já sofreram algum tipo de agressão no ambiente doméstico. Entre as mulheres vítimas de violência que participaram da pesquisa, 78% foram agredidas por parceiros ou ex-parceiros.

A gravidade das agressões torna-se ainda mais evidente se considerarmos, como mostra o Mapa da Violência, publicado em 2012, que 68% dos assassinatos de mulheres aconteceram no contexto domiciliar, em 42,5% das vezes mortas por parceiros ou ex-parceiros.

Os números nos auxiliam a visualizar a dimensão do problema a ser enfrentado. Entretanto, é fundamental buscarmos ir além das estatísticas para pensarmos sobre os muitos fatores que podem estar envolvidos na experiência de cada mulher que tem seus direitos violados, em uma cultura na qual, infelizmente, a violência e o silenciamento ainda são muito naturalizados.

Para a prevenção e o enfrentamento da violência e da naturalização, o trabalho de profissionais da psicologia pode ser muito importante, tanto em relação à conscientização em diferentes espaços de atuação, como por exemplo em diálogos sobre igualdade de gênero nas escolas, quanto no que se refere à escuta atenta e sensível, com confidencialidade e cuidado, das mulheres que buscam ajuda por terem sido agredidas.

Desde que comecei a trabalhar com o tema, algo que me chama muito a atenção é a facilidade com que o relato das mulheres que sofrem violência é desacreditado. “Será que ela não provocou?” é uma das perguntas que ouço com muita frequência, que expressa a constante culpabilização das vítimas e a minimização das agressões sofridas. Muitas pessoas me contam sobre mulheres conhecidas que, mesmo apanhando, sofrendo humilhações e ameaças, inclusive em público, continuam no relacionamento com os agressores. Me surpreende como a indignação com o fato de a mulher permanecer na relação costuma se expressar muito mais incisivamente do que a preocupação sobre o que leva tantos maridos, namorados e parceiros a agredirem.

"Por que elas não conseguem entender que quando há agressões não há amor?”, é um questionamento que também ouço bastante. Diante do incômodo e da perplexidade que geralmente acompanham as tentativas de identificar quais são as motivações para que o relacionamento continue, procuro ressaltar como, para ouvirmos com acolhimento, sensibilidade e respeito um relato sobre violência, não podemos ignorar a voz da mulher e o que o relacionamento significa para ela, já que toda experiência vivida é muito mais complexa do que as propostas de soluções imediatas que ditam como seria certo ou errado agir, por mais bem-intencionados que tais palpites sejam.

Medo das possíveis reações do agressor; medo de que os direitos previstos em lei não sejam cumpridos com a realização da denúncia; medo da reprovação social pela decisão de denunciar e/ou de romper o relacionamento; medo das possíveis dificuldades relacionadas à separação; dependência econômica; dependência afetiva; desejo e esperança de que a situação mude: muitos fatores podem estar presentes nas experiências de cada mulher que permanece em um contexto no qual sofreu e pode continuar a sofrer agressões. Seria importante falar com mais abrangência sobre cada um deles, mas, neste momento, gostaria de me focar em como o relacionamento amoroso em nossa cultura e, mais especificamente, o casamento, são muito idealizados, representados como fonte de felicidade e realização. A idealização é especialmente intensa para as mulheres, que muitas vezes incorporam a compreensão de que, se estiverem solteiras, estarão infelizes e incompletas. É também maior a cobrança social para que se esforcem para manter o relacionamento, assim como a reprovação que sofrem caso as dificuldades culminem em uma separação. Muitas mulheres sentem culpa, vergonha e se condenam por considerarem como um fracasso o fim de uma relação, o que se torna ainda mais difícil quando a vida a dois foi o foco privilegiado de muitos de seus sonhos e de sua dedicação.

Refletir sobre como aprendemos sobre o amor e sobre que formas de amar são incentivadas e idealizadas em nossa cultura, é um movimento importante para compreendermos como, muitas vezes, justamente o que é transmitido como “amor ideal” pode contribuir para a naturalização da violência. As frases apresentadas a seguir ilustram ideias muito difundidas, que merecem nosso cuidado e nossa atenção:

O amor é mais forte que tudo...”; “Sem amor não somos nada...”; “Com amor, é possível vencer qualquer obstáculo”; “Eu não existo longe de você...”; “Sem você eu não respiro...”; “Eu abriria mão de tudo por você...”; “Por você eu enfrentaria qualquer coisa...”; “Nada na vida faz sentido sem você...”; “É impossível ser feliz na solidão”.

As representações sobre o amor listadas acima poderiam ser ouvidas facilmente em conversas cotidianas, em músicas, em conselhos de revistas, em anúncios publicitários, em falas de personagens de novelas e filmes. São representações que refletem o idealdo amorcomo principal responsável por dotar a existência de sentido, como capaz de superar qualquer dificuldade e como sinônimo de sacrificar-se, de colocar-se em segundo plano, de renunciar ao que for preciso em nome da realização amorosa almejada.

"Quando há amor, qualquer obstáculo pode ser vencido”: é importante reconhecermos como representações como essa podem contribuir para a naturalização do silenciamento diante de situações de violência. É também muito necessário considerarmos a influência dos padrões de gênero nessa naturalização. Desde pequenas, as meninas escutam como o encontro amoroso é imprescindível para que possam ser “felizes para sempre”. Lado a lado com a idealização do amor está a construção da feminilidade como sinônimo de fragilidade e dependência. Enquanto isso, para os meninos é ensinada a valorização das múltiplas conquistas: quanto mais “pegador”, mais “homem”. A essa assimetria no aprendizado sobre o amor, soma-se a transmissão da força, da dominação e do poder como sinônimos de virilidade, o que é muitas vezes utilizado como justificativa para o ciúme masculino e como legitimação de que as parceiras sejam tratadas como “posses”. Quantas vezes a violência é representada como resposta para o que quer que possa abalar o orgulho e a “honra”?

Se nosso desejo é prevenirmos e enfrentarmos a violência, questionar a naturalidade das representações é um processo muito necessário: a agressividade masculina não é natural; a submissão feminina não é natural; o amor como sinônimo de posse não é natural e o amor não será, naturalmente, capaz de solucionar todos os problemas e superar todas as dificuldades. As relações podem e precisam ser diferentes!

Para concluir, gostaria de recomendar o vídeo “Rosas”, do grupo de Hip Hop “Atitude Feminina”, que, com o relato de uma mulher que narra sobre agressões intensas e contínuas, pode contribuir para a sensibilização sobre como precisamos falar sobre gênero, precisamos falar sobre amor, precisamos falar sobre violência.

 


marcela pastanaMarcela Pastana é psicóloga e mestre em Educação Escolar pela UNESP. Professora do curso de psicologia do IMES-São Manuel. Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisa em Sexualidade, Educação e Cultura- GEPESEC e coordenadora do Grupo de Discussões sobre Sexualidade e Mídia. Coordenadora do Núcleo de Sexualidade e Gênero do CRP/SP - subsede Bauru.
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