Gênero e documentários

O que é ser mulher? O que é ser homem? O que faz com que alguém se sinta uma mulher? O que faz com que alguém se sinta um homem? O que faz com que alguém seja vista e reconhecida como uma mulher? O que faz com que alguém seja visto e reconhecido como um homem? Que aparências, gestos, atitudes, preferências, desejos, emoções e escolhas são considerados femininas? Que aparências, gestos, atitudes, preferências, desejos, emoções e escolhas são considerados como masculinos? O que faz com que a divisão entre feminilidade e masculinidade seja vivida como algo tão influente na construção das identidades? Como a divisão entre feminilidade e masculinidade participa na construção e na transmissão de possibilidades e de impossibilidades, de incentivos e de impedimentos, de direções e limites em relação a quem as pessoas são e a quem podem ser?

Elenco abaixo algumas sugestões de documentários que podem contribuir para pensarmos sobre essas questões.

The Mask You Live In

(Lançamento: 2015. Direção: Jeniffer Siebel Newson)

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Imagens do Documentário “The Mask You Live In”. Legendas: “- Seja homem. – Seja homem. – Pare de chorar. – Não chore. – Seja homem. – Tenha culhão. – Seja homem. – Seja homem”.

 

Seja homem!” – que significados essa frase carrega? O que faz com que seja tantas vezes formulada em tom imperativo, como uma ordem, uma exigência? Quais são as marcas, nas experiências de meninos e homens, que a busca por corresponder a esse imperativo pode deixar?

“Seja homem!” – que formas de sentir e se expressar espera-se que meninos e homens inibam quando essa frase é enunciada? Que atitudes e expressões são esperadas para que os padrões condensados no “Seja homem!” sejam correspondidos?

Como o modelo de masculinidade vigente participa na construção e na transmissão de possibilidades e impossibilidades, de incentivos e impedimentos, de direções e limites em relação a quem as pessoas são e a quem podem ser?

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Imagens do documentário “The Mask You Live In”. Legendas: “Meninos são encorajados a não falar sobre qualquer tipo de dor com ninguém. Estão aprendendo como é possível para eles como meninos existir no mundo e formar relações”.

Que formas de preconceito, discriminação, exclusão e violência são alimentadas pela rigidez do modelo de masculinidade? Que formas de ser, sentir, desejar e agir são inferiorizadas, depreciadas, estigmatizadas por não serem vistas como masculinas? De que formas o incentivo da agressividade, do distanciamento emocional e da dominação como sinônimos de virilidade participa em como as identidades e relações são vividas hoje? Como as representações sobre a masculinidade nos meios de comunicação estão relacionadas à produção e à reprodução desses padrões?

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Imagens do documentário “The Mask You Live In”. Legendas: “São o cara forte e calado, que está sempre em controle e não demonstra emoções, que usa níveis elevados de violência para manter o controle, para conseguir atingir o objetivo à sua frente. Quando aparece uma emoção de um personagem masculino, quase sempre é raiva. As crianças passam a admirar este personagem. E o que elas acabam idolatrando é alguém que não sabe se expressar emocionalmente. Porque você se habitua ao que é repetitivo”.

 

A produção de The Mask You Live In foi realizada a partir de depoimentos e análises de pesquisadores e pesquisadoras sobre as construções das masculinidades, como parte do The Representation Project, projeto que tem como objetivo questionar e superar estereótipos que são difundidos culturalmente, especialmente por meio da problematização das representações nos meios de comunicação.  

“O que é muito inspirador para mim, ao fazer este filme, é que garotos e homens de fato sentem que as mensagens e narrativas com que tem sido alimentados são limitantes, e eles desejam rompê-las”, diz Jeniffer Siebel Newson, diretora do documentário, em uma entrevista em que discute os padrões de masculinidade que predominam hoje nos Estados Unidos.

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Miss Representation

(Lançamento: 2012. Direção: Jeniffer Siebel Newson)

Como os padrões de feminilidade são transmitidos no decorrer da educação? Como as meninas e mulheres aprendem sobre quem são, sobre quem podem ser, sobre quem devem ser? Quais são os aspectos que recebem maior destaque, maior visibilidade, em como meninas e mulheres são representadas? De que formas as expectativas e ideais aprendidos influenciam em como as meninas e mulheres se veem, em como se sentem em relação a si mesmas, em como constroem a própria identidade? Como o modelo de feminilidade vigente participa na construção e na transmissão de possibilidades e impossibilidades, de incentivos e impedimentos, de direções e limites em relação a quem as pessoas são e a quem podem ser?

 

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Imagens do documentário “Miss Representation”. Legendas: “Garotas recebem desde muito cedo a mensagem de que o mais importante é a aparência, que o seu valor depende disso”.

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Imagens do documentário “Miss Representation”. Legendas: “As mulheres nunca são as protagonistas. E se forem, então é um drama sobre conquistar um cara ou algo assim. Esperando por aquele momento em que um cavaleiro a salvará e a sustentará”.

De que formas é transmitido que a valorização das meninas e mulheres depende da aparência? De que formas é transmitido que a realização pessoal só acontecerá quando as mulheres encontrarem um parceiro amoroso idealizado?

Como os padrões de beleza têm se tornado cada vez mais restritos, rígidos e inatingíveis? Como a transmissão de padrões de beleza inalcançáveis influencia para que meninas e mulheres sintam-se inseguras, inferiores e insuficientes?

Como a associação entre feminilidade e romantismo influencia para que sejam incentivadas e transmitidas como naturais e submissão e a passividade? Como a transmissão de ideais de amor inalcançáveis influencia para que meninas e mulheres sintam-se inseguras, inferiores e insuficientes?

Como a ausência de representações de mulheres ativas, que buscam as próprias conquistas, que participam politicamente e que têm as próprias ideias valorizadas faz com que as meninas e mulheres tenham dificuldades em reconhecer a importância das próprias ações, das próprias escolhas, dos próprios desejos e da própria voz? Como reduzir as representações das mulheres à beleza e ao amor alimenta o silenciamento, o apagamento das mulheres e contribuiu para a manutenção de padrões desiguais e inclusive influencia para que sejam naturalizadas opressões e violências?

 

 
   

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Imagens do documentário “Miss Representation”. Legendas: “Nós vemos isto em anúncios, vemos em filmes, programas de televisão, videogames, em qualquer lugar, e muitas vezes eles recorrem a imagens violentas. Essas imagens são parte de um clima cultural no qual mulheres são vistas como coisas, como objetos”.

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Miss Representation, documentário que também faz parte do Representation Project, traz no título o trocadilho entre “Miss”, em referência aos concursos de beleza, e “mis”, como em “misrepresentation”, representação distorcida. É uma grande distorção que as muitas formas de ser mulher, as muitas histórias, as muitas conquistas, as trajetórias e experiências tão singulares e tão diversificadas, sejam reduzidas em um processo de coisificação, de anulação, de apagamento. Como afirma a diretora Jeniffer Siebel Newson em uma entrevista:

“Me senti compelida a fazer esse documentário porque eu estava horrorizada pela ideia de criar uma filha em uma cultura que continuamente deprecia, degrada e desrespeita as mulheres. (...) As mulheres não podem mais ser retratadas como cidadãs de segunda categoria, mas como iguais aos homens, com oportunidades iguais de terem sucesso na vida”.

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A vovozinha e o feminismo

(Lançamento: 2012. Direção: Renata Druck),

She is beautiful when she is angry

(Lançamento: 2014. Direção: Mary Dore),

Eu, você e todas nós

(Lançamento: 2017. Direção: Ellen Paes).

Como as mulheres têm se mobilizado para transformar as desigualdades que enfrentam? Quais foram as conquistas históricas relacionadas à busca por igualdade na participação política, no acesso ao estudo e ao mercado de trabalho, aos direitos sobre o próprio corpo, à igualdade nos relacionamentos afetivos, conjugais e familiares, ao enfrentamento à violência? Quais são os principais desafios para que novos avanços aconteçam, para que outros direitos fundamentais sejam conquistados? Como o feminismo enquanto movimento político estimula a problematização de como os modelos de feminilidade e masculinidade participam na construção e na transmissão de possibilidades e impossibilidades, de incentivos e impedimentos, de direções e limites em relação a quem as pessoas são e a quem podem ser?

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Imagens do documentário “A vovozinha e o feminismo” com capas dos periódicos brasileiros “Nós Mulheres” e “Mulherio”.

“Nós Mulheres” e “Mulherio” foram dois periódicos brasileiros produzidos por mulheres, fundados em 1976 e 1981, que tiveram importância influência para a difusão das ideias e reivindicações feministas. A contestação de que o destino das mulheres seria necessariamente o casamento, a maternidade e a domesticidade com a mobilização e a defesa da igualdade de direitos por grupos feministas brasileiros trouxe muitas transformações, com significativos efeitos em como as vidas das mulheres são vividas hoje. Com a participação de diferentes feministas brasileiras, o documentário A vovozinha e o feminismo traz muitas informações interessantes sobre o percurso histórico dessas transformações e conquistas.

A história sobre como foram formados grupos feministas de segunda onda nos Estados Unidos, sobre as reivindicações diversas, as transformações que ocorreram e os direitos conquistados é abordada no documentário She is beautiful when she is angry. As especificidades e os pontos em comum entre diferentes grupos feministas, a diversidade de ideias, perspectivas e reivindicações e como conflitos surgiram e foram manejados são alguns dos temas trazidos, com elementos importante para a compreensão da busca feminista por igualdade.

As lutas por direitos sexuais e reprodutivos, pelos direitos de mulheres negras, pelos direitos de mulheres lésbicas e pelos direitos no enfrentamento à violência doméstica, à violência sexual e outras formas de violência são contextualizadas historicamente, com depoimentos de diferentes militantes sobre a importância da construção de espaços de diálogo, reflexão crítica, apoio recíproco e busca por transformação entre as mulheres.

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Imagens do documentário “She is beautiful when she is angry”. Legendas: “Nós nem sequer percebíamos o que se passava até que nos sentamos e comparamos com outras mulheres. E ouvimos umas às outras. Ouvimos o que as outras tinham a dizer. De repente, tudo foi questionado. A grande visão do movimento de mulheres foi que o pessoal é político”.

            A adoção do lema “O pessoal é político!” corresponde à compreensão de que as experiências privadas, ao invés de menores e sem importância, são um eixo fundamental para que as transformações em relações desiguais e opressoras possam acontecer. Os corpos, as sexualidades, as intimidades, as conjugalidades, os afetos, os desejos, os prazeres, as subjetividades, passam a ser temas de reflexão, de questionamento e de construção de novos significados, compreensões e possibilidades.

            Espaços de diálogo, de compartilhamento de experiências, de valorização das vozes das mulheres para expressarem essas múltiplas experiências e se posicionarem contra as desigualdades que enfrentam foi, como A vovozinha e o feminismo e She is beautiful when she is angry mostram, fundamentais para a construção histórica dos movimentos feministas. Hoje, há mais um campo em que as vozes ganham força e as mulheres se aproximam, dando fôlego, inspirando mobilizações e transformações: a internet. No documentário Eu, você e todas nós, lançado no último 08 de março, a militância feminista online é abordada a partir dos depoimentos de diferentes ativistas, como Lola Aronovich do Escreva Lola, Escreva, Jéssica Ipólito, do Gorda e Sapatão, Lorena Oliveira, do Sapa à Tona, Rosa Luz do Barraco da Rosa e Luíse Bello do Think Olga.

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Imagens do documentário “Eu, você e todas nós”.

 

            Lutas feministas contra o assédio e a violência sexual, lutas feministas contra o racismo, lutas feministas contra a lesbofobia, lutas feministas contra a transfobia, lutas feministas contra a gordofobia, lutas feministas pelos direitos maternos são alguns dos temas de luta abordados.

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25 de julho – Feminismo negro contado em primeira pessoa

(lançamento: 2013. direção: Avelino Regicida)

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Imagens do documentário “25 de julho: Feminismo negro contado em primeira pessoa”.

Como machismo e racismo se inter-relacionam? Como as desigualdades, opressões e violências se intensificam com essa inter-relação? Quais são as especificidades das experiências vividas pelas mulheres negras, dos processos de construção de identidades, dos modos como são vistas e aprendem a ver a si mesmas? Por que reconhecer essas especificidades é um importante passo na busca por direitos? Como conhecer sobre as muitas expressões da cultura afro, a como foi a história de mulheres e homens negros no Brasil, a como mulheres participaram na luta pelo fim da escravidão e em outras lutas por dignidade e igualdade, da participação de mulheres negras hoje em movimentos culturais, artísticos, intelectuais e políticos é fundamental para questionarmos o silenciamento e a invisibilização que têm sido tão intensos historicamente e para ampliarmos a compreensão sobre como as relações se organizam de forma assimétrica e sobre como podem ser transformadas? Como o feminismo negro enquanto movimento político estimula a problematização de como o machismo e o racismo participam na construção e na transmissão de possibilidades e impossibilidades, de incentivos e impedimentos, de direções e limites em relação a quem as pessoas são e a quem podem ser?

            No documentário 25 de julho: Feminismo negro contado em primeira pessoa, são trazidos depoimentos de 13 mulheres negras sobre os desafios de viver em uma sociedade racista e machista e sobre a importância da interseccionalidade nos movimentos feministas, nos movimentos contra a discriminação racial e em outros movimentos sociais, como nos movimentos pelos direitos de pessoas gays, lésbicas, transexuais, travestis e transgêneros e nos movimentos pela superação da sociedade capitalista. Nos depoimentos é abordado também sobre como é pouco conhecido o Dia da Mulher Afro-Latina-Americana e Caribenha, criado em 25 de julho de 1992 no Primeiro Encontro de Mulheres Afro-Latino Americanas e Afro-Caribenhas. Como afirma Luciana Reis no texto publicado no site Blogueiras Negras: “O 25 de julho internacionaliza o feminismo negro via aglutinação da resistência das mulheres negras à cidadania nas regiões em que vivem, principalmente as opressões de gênero e étnico-raciais”

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De gravata e unha vermelha

(lançamento: 2015. direção: Mirian Chnaiderman.)

           

Quão múltiplas podem ser as formas de ser, de viver, de desejar, de agir, de se relacionar, de se inventar e de reinventar? Quão múltiplas podem ser as expressões das feminilidades e das masculinidades? Quão restritivos e engessantes podem ser os padrões que delimitam quais identidades podem ou não podem ser reconhecidas, podem ou não podem ser aceitas? Como a concepção de que haveria um modelo único de feminilidade, um modelo único de masculinidade e os esforços para a imposição desses modelos trazem sofrimento, alimentam discriminações e exclusões, prejudicam as potencialidades e os direitos de cada pessoa de ser, de viver, de se expressar de forma singular? Como a ideia de que é ter vagina que torna alguém mulher e a ideia de que é ter pênis que torna alguém homem negligencia como são muito mais complexas (e interessantes) as relações entre os corpos e as identidades, as construções das subjetividades e das histórias de vida, tanto em pessoas trans quanto em todas as pessoas? Como o reconhecimento e a valorização das multiplicidades de expressões de gênero podem contribuir para a desestabilização e a transformação da ideia de que ser homem ou ser mulher, ter sido nomeado como menino ou como menina ao nascer (ou mesmo antes, nos exames de ultrassom) é o que delimitará possibilidades e impossibilidades, incentivos e impedimentos, direções e limites em relação a quem as pessoas são e a quem podem ser?

 

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Imagem de Letícia Lanz do documentário “De gravata e unha vermelha”

 

“Letícia Lanz é o nome com o qual eu me batizei na pia da vida. Do momento que eu descobri que era Letícia, aos quatro anos de idade, até que eu me assumi como Letícia, se passaram 50 anos. Não são 50 dias nem 50 meses, são 50 anos. E eu repetiria essa trajetória. Porque, se houve muito sofrimento, ela foi, também, de muito aprendizado”.

Letícia Lanz foi uma das pessoas entrevistadas no documentário De gravata e unha vermelha, dirigido por Mirian Chnaiderman, psicanalista e documentarista. No trecho a seguir de uma entrevista, Mirian conta sobre algumas de suas motivações:

“O filme chama ‘De gravata e unha vermelha’ e o título já traz dois emblemas do que é o feminino e do que é o masculino, e é um filme que foi concebido para gerar uma bagunça nisso tudo, para bagunçar o que na nossa cultura estipulou-se, convencionou-se chamar de homem ou mulher (...). O que me orientou foi pessoas que bancam seu desejo, seja ele como for (...) Eu acho que a questão é poder bancar o desejo e enfrentar um mundo que não suporta isso, um mundo que o tempo todo aprisiona o desejo (...)”.

Na imagem a seguir, as duas primeiras fotos são de Mirian e Dudu Bertolini, que foram responsáveis pela curadoria do filme e em seguida algumas pessoas que contaram sobre suas histórias, sobre as múltiplas formas de ser e sobre diferentes experiências em relação aos gêneros:

 

De gravata e unha vermelha II

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Porque sou feminista (1975)

Para finalizar este texto sobre gênero e documentários, repito a questão que acompanhou os diferentes filmes comentados: Como a divisão entre feminilidade e masculinidade participa na construção e na transmissão de possibilidades e de impossibilidades, de incentivos e de impedimentos, de direções e limites em relação a quem as pessoas são e a quem podem ser?

Diante da questão, concluo com uma última indicação, não de um documentário, mas de uma entrevista, em que, ao falar sobre “porque sou feminista”, Simone de Beauvoir comenta sobre a ideia que transformou como pensamos sobre essa pergunta desde então, que contestou que haveria uma essência, uma determinação, um destino em ser mulher, que inspirou tantas pessoas a pensarem sobre as feminilidades e as masculinidades como construções.

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Imagens da entrevista “Porque sou feminista”. Legenda: “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher. É que ser mulher não é um dado natural... mas o resultado de uma

história. Não há um destino biológico ou psicológico que defina a mulher como tal”.