"Fica caladinha!?" — Gênero, violência e prazer

Foi um domingo inspirador. Quando, por meio das redes sociais, soube que mais de 7 milhões de estudantes refletiam, naquele momento, sobre “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2015, considerei de imensa importância como, no mesmo ano em que tantos esforços foram mobilizados para silenciar as questões de gênero na educação, para negar o quanto é fundamental abordar o processo de construção social das feminilidades e das masculinidades no espaço da escola, a elaboração da prova pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) contribuiu para trazer à tona como a gravidade de uma questão tão presente — e persistente — na sociedade brasileira como a violência contra as mulheres precisa ser refletida, precisa ser debatida, precisa ser combatida, precisa ser alvo de atenção para a construção de estratégias de enfrentamento, e a educação escolar é um campo de extrema relevância para que transformações possam ocorrer.

Ao refletir sobre o tema da redação (e eu acredito, motivada, que muitas pessoas também refletiram, já que foi radiante a multiplicação do debate), passei um tempo recordando como a persistência da violência contra as mulheres tornou-se uma questão presente e também persistente em meus estudos. Meu campo de atuação é a educação sexual nas escolas, o que contribui para me aproximar da importância da prevenção e do enfrentamento às diversas formas de violência. Entretanto, o momento em que mais precisei me debruçar sobre a questão da violência de gênero foi quando, em minha pesquisa de mestrado, tive como proposta estudar sobre o prazer. Sim, cheguei na questão da violência estudando sobre o prazer. A pergunta que me motivava era se o aprendizado sobre o que é compreendido ou não como prazeroso sofria influências do processo de construção das feminilidades e das masculinidades no decorrer da educação. Para isso, busquei estudar o que era valorizado como prazeroso em materiais midiáticos, escolhendo, para a análise, revistas femininas e masculinas.

Analisando os conteúdos publicados nas revistas, sobre os prazeres de ser mulher, os prazeres de ser homem, os prazeres do sexo, os prazeres dos relacionamentos, os prazeres dos cuidados com o corpo e com a beleza, os prazeres das atividades de lazer e diversão, os prazeres do consumo, me deparei com elementos, muitas vezes sutis e por vezes explícitos, de naturalização da violência. Gostaria, para exemplificar, de mencionar uma piada publicada na seção “Gozadas”, seção de humor de uma das revistas masculinas que analisei. Gostaria de lembrar também como o humor, as piadas, o riso e as gozações são também um campo ligado ao prazer. Muitas vezes, foi em abordagens construídas em linguagem irônica e descontraída que notei a violência sendo reforçada e naturalizada das formas mais incisivas. Segue a piada que escolhi para ilustrar:

caladinha1A mulher vai ao médico:
- Doutor, eu não sei o que fazer. Toda vez que meu marido chega em casa bêbado, ele me enche de porrada.
- Eu tenho um remédio muito bom para isso. Quando seu marido chegar em casa embriagado, basta que você o espere com um copo de chá de camomila, fazendo bochecho com o chá. Apenas faça bochecho e gargareje, sem parar.
Duas semanas depois, ela retorna ao médico e parece ter nascido de novo:
- Doutor, sua ideia foi brilhante! Sempre que meu marido chega em casa bêbado, eu gargarejo e faço bochechos com o chá de camomila e as agressões não aconteceram mais!
Viu como manter a boca fechada ajuda?  (Revista Vip, fevereiro de 2012, p. 12)

Uma situação tão grave quanto frequente, a das agressões físicas por parceiros conjugais após ingerirem bebidas alcoólicas é apresentada pela revista como motivo não de preocupação, mas de piada. A naturalização da violência é evidente. O marido, ao chegar em casa embriagado e agredir a esposa teria uma justificativa legítima: a culpa é da mulher agredida, afinal, ela insiste em “abrir a boca”.

caladinha3“Viu como manter a boca fechada ajuda?” é uma ideia muito presente nos materiais midiáticos. Como em uma música funk cujo refrão é “Fica caladinha!”, o silenciamento feminino é transmitido como desejável, já que mulheres que se expressam, que demonstram o que pensam e o que sentem, que aprendem a reconhecer a importância da própria voz, são com frequência representadas como inconvenientes, excessivas e inadequadas. O silenciamento é transmitido como desejável por muitos meios, desde os conselhos das revistas femininas para adolescentes, que ensinam que as garotas, para serem valorizadas, devem esconder e dissimular o que desejam, deixando para os garotos o campo da expressão dos desejos e da iniciativa, com base na ideia de que eles supostamente preferem as “meninas difíceis”; passando pelos inúmeros materiais voltados aos meninos e homens, como algumas imagens e vídeos da pornografia e da publicidade que posicionam as mulheres exclusivamente como objetos da excitação e do desejo masculino, nunca como desejantes; até em situações como os trotes universitários, que muitas vezes envolvem a humilhação das calouras, como no exemplo de um trote realizado na USP de São Carlos em 2014 em que foram levadas bonecas infláveis, com simulações de estupro, em uma tentativa supostamente “irônica” de mostrar às mulheres que lugar lhes cabe.

caladinha5“Manter a boca fechada” seria, assim, algo valorizado como uma habilidade feminina, de discrição, meiguice, delicadeza. É também o ideal de “manter a boca fechada”, como associado à feminilidade, que faz com que tantos casos de violência doméstica, violência sexual e outras formas de violência não sejam denunciados, com o silenciamento sobre as agressões sofridas. Ainda que a idealização do silenciamento seja intensa, é comum que as mulheres, que tantas vezes sentem-se amedrontadas e ameaçadas, sejam culpabilizadas por permanecerem em relações violentas. “Se elas não fazem nada, se não dizem nada, é porque gostam de apanhar”, infelizmente, ainda é uma ideia muito difundida.

Como o prazer pode estar envolvido na naturalização da violência? Desde pequenas, as meninas e mulheres aprendem sobre a importância de agradar, de corresponder às expectativas, já que o que é transmitido como prazeroso é receber atenção, aprovação, valorização, principalmente do olhar masculino. Os discursos sobre beleza e sobre o amor, tão difundidos culturalmente na construção da feminilidade, têm nessa centralidade dada ao agradar um elemento principal. Enquanto isso, desde crianças meninos e homens aprendem que “homem que é homem” é aquele que tem controle, que tem domínio, que não se deixa enfraquecer por questões relacionadas às emoções e à sensibilidade, que é ativo e sabe se impor, sabe fazer valer suas vontades. As duas imagens a seguir, utilizadas para a divulgação das revistas Atrevida e Playboy, ilustram como “Agrade-o!”  é uma mensagem muito presente na socialização feminina, enquanto “O prazer em suas mãos” é uma noção que vincula o prazer masculino ao controle. Enquanto nas mulheres é estimulado o desejo de ser desejada, nos homens é estimulado o desejo como ligado ao domínio, de ter nas mulheres um objeto do prazer, sem valorizá-las como também desejantes.

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As duas últimas imagens acima, retiradas de um dos vídeos da campanha equatoriana contra o machismo Reacciona Ecuador, podem ser ilustrativas sobre como o processo de construção dos padrões de gênero envolve a transmissão da submissão como prazerosa, para as meninas e mulheres, enquanto o domínio e a agressividade são transmitidos como prazersosos para meninos e homens. Gostaria de concluir o texto assinalando como a desnaturalização desses padrões é fundamental para que o quadro da persistência da violência contra as mulheres possa ser transformado. Gostaria também de destacar como nós, profissionais da Psicologia e também da Educação, podemos contribuir, e muito, para que isso aconteça. Uma das principais ações é questionar e combater o silenciamento, com a valorização das vozes e das muitas formas de expressão. Por isso que a possibilidade de que tantas pessoas se expressassem na redação sobre violência no Enem, por exemplo, foi um passo muito positivo. Considerando a importância da expressividade, finalizo, então, com um trecho de uma questão também do Enem de 2015, em que Glória Anzaldúa, teórica feminista mexicana, fala sobre o que a leva a escrever.

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(Tradução livre: Por que sou compelida a escrever? Porque a escrita me salva desta complacência que temo. Porque eu não tenho escolha. Porque eu devo manter vivos o espírito da minha revolta e a mim mesma. Porque o mundo que crio na escrita compensa o que o mundo real não me dá. Escrevendo eu coloco o mundo em ordem, dou um jeito de lidar com ele para que eu possa dominá-lo).

 


marcela pastanaMarcela Pastana é psicóloga e mestre em Educação Escolar pela UNESP. Professora do curso de psicologia do IMES-São Manuel. Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisa em Sexualidade, Educação e Cultura- GEPESEC e coordenadora do Grupo de Discussões sobre Sexualidade e Mídia. Coordenadora do Núcleo de Sexualidade e Gênero do CRP/SP - subsede Bauru.
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