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É preciso definir?

Vamos pensar o seguinte: o que será que está definido e determinado de antemão em termos de sexualidade e gênero em nossa vida?

Voltemos a um fato utilizado por reflexão no texto anterior a respeito de uma mãe que está grávida e pode saber o sexo de seu bebê...

Um exame pode determinar se este pequeno ser possui uma anatomia com pênis ou com vagina e, então, no momento em que o médico diz “é menino”, ou “é menina”, ele, com a linguagem, parece inscrever um destino para este pequeno ser, e só o faz porque, ao dizer, aciona na mãe e nos responsáveis pela criança um processo de repetição daquilo que eles aprenderam que significa criar um menino ou uma menina.

Este campo discursivo entra em colapso em diversas situações: ainda no útero, às vezes o médico não consegue afirmar se o bebê é menino ou menina, pois há uma genitália ambígua e então uma grande discussão se inicia sobre o que se fará; depois deste momento, na primeira infância, a criança não cumpre com o que é supostamente esperado de um menino ou de uma menina, tendo comportamentos dos mais variados, e não cumpre porque não é a genética que determina um comportamento, quem pretende modelar o que é um “comportamento de menino” ou “comportamento de menina” é quem cuidará desta criança.

A partir da rede de interação, identificação e introjeção de inúmeros modelos, a criança vai construindo seu jeito de ser, e muitas vezes seu jeito não se insere lá muito bem naquilo que a sociedade convencionou chamar de jeito de menina ou jeito de menino, exatamente pelo fato de isto não estar determinado, de ser construído, e poder se dar de diversas formas.

Desde a mais tenra idade iniciamos um processo de identificação com as pessoas ao nosso redor. Nossas primeiras identificações se dão pelas pessoas que nos alimentam, que estão presentes, cuidando da nossa sobrevivência. Portanto a pessoa que nos amamenta é a primeira de nossas figuras de identificação e de desejo. E aos poucos vamos tendo outras.

Quaisquer outras pessoas se inserem na vida dessa dupla mãe-bebê e servem de modelo para novas identificações e novos objetos de desejo. A criança vai sendo marcada com inúmeros elementos que farão com que ela se comporte de uma ou outra maneira em sua sexualidade. A gama de possibilidades se torna muito ampla e aos poucos vai se construindo o campo da sexualidade. Neste campo, se fala em identidade de gênero e em orientação sexual.

Quando se fala em identidade de gênero, significa que há um gênero com o qual a pessoa se identifica e que nem sempre é aquele relativo ao seu sexo, ou seja, pode-se ter nascido com uma vagina e se identificar com o gênero masculino, assumindo comportamentos, condutas, modos de se vestir tidos como masculinos, pode ocorrer o oposto, e pode ocorrer de uma pessoa desejar mudar sua anatomia genital para que esta corresponda ao gênero pelo qual ela se identificou.

Já a orientação sexual indica por quais gêneros a pessoa se sente atraída física e/ou emocionalmente, o que também pode se dar de forma variada e nem sempre fixa ao longo da vida.

A sexualidade é construída.

Se temos algo que costumamos chamar de norma, é, por um lado, porque há uma força muito grande nos discursos que circunscrevem e modelam comportamentos e que instalam uma norma, mas, por outro lado, também é porque muitos se forçam a entrar na norma e muito se oculta por recalque, sublimação, mentiras, disfarces, omissões, envolvendo muito sofrimento.

O que convencionamos chamar de masculinidade, feminilidade, fetichismo, travestismo, homossexualidade, bissexualidade, transexualidade, são nomes, palavras, discursos que tentam circunscrever e definir algo que é da ordem do processual, do dinâmico e portanto indefinível. Só se tenta definir exatamente pela ansiedade e angústia gerada por algo que é da ordem do indefinível.

Uma pessoa pode, ao longo de sua vida, definir seu desejo e sua identidade e permanecer mais ou menos estável a partir desta espécie de definição. O que não é possível é definir que uma pessoa que nasce com um pênis deve agir de forma sempre potente e deve sentir atração física e emocional por uma mulher, e a mesma relação vale para quem nasce com uma vagina. Não é possível determinar isto de antemão.

 


dani-homeDaniela Smid é psicóloga graduada pela USP e especialista em sexualidade pela Faculdade de Medicina da USP. Psicanalista em formação pelo Instituto Sedes Sapientiae e interessada em pesquisas sobre gênero, feminismo, corpo, psicopatologias do social e medicalização da vida.
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