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Subliminar

Leonard Mlodinow é doutor em física, leciona na Califórnia e colaborou para séries de TV como MacGyver e Jornada nas Estrelas. Além de ter escrito outro livro de sucesso, o Andar de bêbado, sobre o acaso, é companheiro de Stephen Hawking em diversos textos e livros. Em Subliminar, publicado em 2012, ele se aventura a nos escrever sobre como o inconsciente influencia nossas vidas.

O termo subliminar refere-se ao que está abaixo do limite da consciência e o texto parte do princípio de que dispomos de uma vida inconsciente rica e ativa, com poderoso efeito sobre nossa atividade consciente. O inconsciente a que ele se refere não é o mesmo da Psicanálise, nem tem relação com as noções de sexualidade de Freud. As novas tecnologias da neurociência hoje possibilitam, segundo Mlodinow, que os cientistas exponham uma realidade mental mais profunda, que esteve escondida durante a história prévia da humanidade. A ciência da mente foi reformulada, continua o autor, por uma nova metodologia surgida nos anos 1990, que é a fMRI, ou ressonância magnética funcional por imagem, uma ressonância magnética que mapeia a atividade de diferentes estruturas do cérebro e alimenta pesquisas sobre o comportamento humano.

Considerando que o primeiro congresso dedicado a esse campo, a neurociência, teve lugar em 2001, esta abordagem pode ser considerada nova. O livro aponta, então, para um novo inconsciente; partindo da constatação de que a interação entre a mente consciente e inconsciente é muito complexa, a neurociência afirma que esta complexidade tem raiz na fisiologia do nosso cérebro. Temos um cérebro primitivo, reptiliano, e outras camadas de córtex por cima; em outros termos, uma mente inconsciente e superposta a ela, um cérebro consciente. Nossos sentimentos, juízos e comportamentos dependem destas estruturas e alternam-se entre elas o tempo todo.

A maioria de nós ajusta para 0,5 metro a distância em uma conversa com amigos; sem perceber nos sentimos desconfortáveis quando esta regra é violada. Este é um dos inúmeros exemplos oferecidos pelo livro para pensar em nossos comportamentos inconscientes, nosso ?piloto automático?.

As ideias de Freud como o desejo dos garotos de matar o pai para ficar com a mãe, ou a inveja do pênis pelas mulheres, são desconsideradas. Na nova visão, os processos mentais são considerados inconscientes porque há parcelas da mente inacessíveis ao consciente por causa da arquitetura do cérebro e não por estarem sujeitas a forças motivacionais, como a repressão da Psicanálise; a inacessibilidade do novo inconsciente não é vista como um mecanismo de defesa, mas como algo normal. O novo inconsciente, de acordo com Mlodinow, tem um papel muito mais importante do que nos proteger de desejos sexuais impróprios ou de memórias dolorosas, mas é visto como um legado da evolução, crucial para a nossa sobrevivência como espécie. Em outras palavras, para garantir nosso perfeito funcionamento, tanto no mundo físico como no social, a natureza determinou que muitos processos de percepção, memória, atenção, aprendizado e julgamento fossem delegados a estruturas cerebrais separadas da percepção consciente.

É sobre estes assuntos que o livro vai se debruçar. Segundo ele, a maioria de nós está satisfeita com suas próprias teorias sobre si mesma e as aceita com confiança, mas raras vezes vemos estas teorias testadas; agora os cientistas, através do fMRI, conseguem verificar essas teorias no laboratório. E elas são, em sua maior parte, surpreendentemente imprecisas.

Para aquelas pessoas que acreditam controlar seu modo de ser e pensam que o comportamento observável é o único parâmetro científico confiável da Psicologia, ofereça este livro para eles colocarem em questão suas inabaláveis crenças. Conheço médicos maravilhosos, mas sabe aquele psiquiatra chato que acha que a terapia comportamental cognitiva é a única forma científica de avaliação? Você vai gostar dele receber este livro de presente.

De volta ao texto, quando você come pipoca o que mais tem influência: o sabor ou a quantidade? A maioria de nós resiste à ideia de que somos manipulados, mas dobrar o tamanho da embalagem da pipoca aumenta em 30 a 40% o seu consumo, independente do sabor. Você paga mais e considera mais saborosos pratos em um restaurante quando no cardápio está escrito ?purê de batatas aveludado? ou ?beterrabas grelhadas sobre leito de rúcula?.

Nas pesquisas, observa-se que as pessoas são fortemente influenciadas por fatores irrelevantes, que falam aos nossos desejos e motivações inconscientes. Em um estudo sobre dois vinhos idênticos, o vinho com o preço maior estimulou uma área do cérebro chamada córtex orbitofrontal que tem sido associada à experiência do prazer; observe que nesse caso, o prazer foi maior mesmo, a sensação do sabor foi verdadeira: o aumento subjetivo de prazer com o sabor foi influenciado pelo valor maior do vinho, embora os sabores fossem idênticos. Isso quer dizer que, mesmo sem saber, quando você experimenta um vinho com a língua, não sente só o sabor de sua composição química, mas sente também o gosto do preço. Quantas vezes fazemos algo parecido? A ressonância magnética que o diga.

Partes do cérebro como o córtex orbitofrontal, córtex pré-frontal ventromedial, sistema límbico, hipocampo, amígdala, córtex cingulado dorsal anterior, hipocampo, por exemplo, aparecem ao longo do livro para explicar como o cérebro inconsciente funciona e nos influencia, como há uma mente inconsciente ativa, independente e com propósitos que ignoramos.

O capítulo 5 salienta a importância da comunicação não verbal, iniciando com uma anedota sobre o cavalo Hans. Em 1904, um professor de matemática, todos os dias, na frente de todos, ensinava operações aritméticas para um cavalo, que chegou até o nível de uma terceira série atual. O professor Von Osten passou a se exibir publicamente na Alemanha, apontava para um quadro negro e Hans batia com o casco direito até acertar a conta; acertava o dia e mês do ano, somava, multiplicava. Ele nunca cobrou ingresso, pois estava tentando convencer o público sobre o potencial de inteligência dos animais. Ninguém entendia, nem o professor, o que de fato ocorria, até que um psicólogo chamado Oskar Pfungst investigou e resolveu a questão. Leia e entenda como foi elucidado o caso. Será que Freud escolheu o nome para o caso do pequeno Hans por causa desse episódio?

A comunicação não verbal revela mais do que palavras bem escolhidas; experiências com ratos e outras com alunos, ilustram a afirmação. Considerando que a linguagem verbal é recente (em termos sofisticados, há 50 mil anos), a comunicação não verbal deve ser um remanescente inato e automático de fases anteriores da evolução. E poderosa: um sorriso que o diga, inclusive entre os chimpanzés. Qual a semelhança entre um humano e um babuíno hamádria na hora em que a namorada se aproxima de outro homem? Por que é tão comum se dizer: ?olhe para mim quando estou falando com você?? A conferir.

A evolução do cérebro acontece no decorrer de milhares de anos, mas nós vivemos em uma sociedade civilizada há menos de 1% desse tempo. Isto significa que, embora possamos estar com a mente lotada de conhecimentos do século XXI, o órgão dentro do crânio ainda é um cérebro da Idade da Pedra. Isto nos leva a um comportamento semelhante a de um chupim quando escutamos uma voz pré-gravada em um computador, conforme pesquisa analisada no capítulo 6. Duvida?

Mulheres em período fértil preferem homens com vozes mais graves, assim como mulheres na fase da ovulação têm vozes mais sensuais, na opinião dos humanos entrevistados em pesquisas. A correlação entre estas escolhas é: ahhh..., leia o livro, uai! Tocar no braço de alguém enquanto conversa; a velocidade da fala; a famosa diferença, entre o rádio e a televisão, na avaliação das pesquisas de opinião na disputa eleitoral entre Kennedy e Nixon, em Chicago em 1960; a importância da fotografia na escolha de candidatos a eleições; uma explicação do final de O mágico de Oz, quando Totó puxa a cortina e revela o terrível mago, são assuntos a descortinar ao longo do texto.

Será que somos sempre os mesmos? Os mesmos aos 30 e aos 50 anos, ou ao longo de um mesmo dia, dependendo do ambiente social ou dos hormônios? Será possível que na mesma pessoa habite um ser consciente que abomine preconceitos e um ser inconsciente que nutra sentimentos negativos em relação a pessoas mais velhas, negros, gays, pessoas gordas, fumantes?

Classificamos pessoas e coisas, precisamos dos estereótipos (termo cunhado em 1794 pelo gráfico francês Didot e utilizado no sentido atual pelo jornalista americano Lippmann em 1922): profissão, etnia, idade, cor, aparência, automóvel que dirige, cor do cabelo, são categorias que utilizamos, queiramos ou não, para classificar pessoas e coisas, alimentando preconceitos, para nos proteger do desconhecido. O ?meu grupo? e o ?grupo deles?, gera hostilidades tão comuns em nós humanos, infelizmente.

Para Mlodinow, alguns sentimentos mais recônditos não revelarão seus segredos mesmo com a mais profunda introspecção. Seguindo Wundt e William James, ele aponta para a base fisiológica das emoções: nos sentimos tristes porque choramos e não o contrário, considerado comumente; pesquisas sobre ?ilusão emocional? ilustram a afirmação. Inventamos nossos sentimentos, acreditamos saber explicá-los, justificamos, a partir de diferenças percebidas pelo cérebro direito e pelo esquerdo, que têm sentidos e ordens bem diferentes sobre a percepção do mundo que nos cerca; confabulamos, encontramos explicações plausíveis, parcialmente precisas ou completamente falsas, e acreditamos nelas. Em 1959, o psicólogo social Rokeack reuniu três pacientes que se achavam Jesus Cristo. No século XVII isso já havia acontecido com um sujeito chamado Simon Morin, que foi mandado para um manicômio por conta disso. A conferir o que aconteceu com eles, é divertido.

Estas explicações têm suas bases em um repositório de informações sociais, emocionais e culturais de que todos participamos. Exemplificando, uma das pesquisas interessantes do livro transita sobre uma seleção de pessoal para emprego. A escolha recaiu sobre aspectos emocionais, previsíveis para os pesquisadores, embora os selecionadores tenham avaliado seus critérios como objetivos, tais como fator acadêmico ou experiência profissional. Outra pesquisa: ser entrevistado, em cima de um rio, em uma ponte instável e perigosa e em outra firme e segura, altera a sua avaliação do entrevistador? Confira.

Segundo Mlodinow a evolução não projetou o cérebro humano para entender a si mesmo, mas para nos ajudar a sobreviver. Neste sentido, qual a importância do autoconhecimento? A psicoterapia, em geral, baseia-se na ideia de que, após reflexão intensa, podemos conhecer nossos verdadeiros sentimentos, atitudes e motivações. A visão dele será pessimista ou otimista em relação a este quesito? E a sua?

Finalmente chegamos ao décimo e último capítulo, sobre o ?Eu?. Ele parte do principio de que ?quanto mais forte a ameaça ao fato de alguém se sentir bem consigo mesmo, maior a tendência a enxergar a realidade através de uma lente distorcida? (p.233).

Temos a tendência a nos considerar mais capazes do que realmente somos. Em pesquisas, 60% das pessoas se consideraram entre os 10% melhores e 25% entre os 1% melhores. Tem como? E você, se considera entre os 30% piores? Ironicamente, as pessoas tendem a reconhecer que a autoavaliação e autoconfiança infladas podem ser um problema ? mas, só para os outros.

Mlodinow nos conta que, segundo o psicólogo J.Haidt, há duas maneiras de se chegar à verdade: a maneira do cientista e a do advogado. Os cientistas reúnem evidências, buscam regularidades, formam teorias que expliquem suas observações e as verificam. Os advogados partem de uma conclusão acerca da qual querem convencer os outros, e depois buscam evidências que a apoiem, ao mesmo tempo em que tentam desacreditar as evidências em desacordo. A mente humana foi projetada para ser tanto cientista quanto advogado, tanto um buscador consciente da verdade objetiva quanto um advogado inconsciente e apaixonado por aquilo em que quer acreditar. Estas duas abordagens juntas competem para criar nossa visão de mundo.

Ao mesmo tempo, considerando que a mente em geral parece optar pela felicidade, o mais provável é que a escolha irracional o torne mais feliz. A ?seta causal? nos processos de pensamento humano tende de forma consistente da crença para a evidência, e não vice-versa. Pode-se dizer que o cérebro é um bom cientista, mas é um advogado absolutamente brilhante.

Os psicólogos chamam a abordagem feita pelo nosso advogado interior de ?raciocínio motivado?. O quanto é fácil recortar a realidade para se encaixar em nossos desejos? A discussão acalorada sobre a avaliação de uma jogada de futebol, mesmo depois de ver o vídeo várias vezes, demonstra claramente, a cada domingo, o que torcedores dos times envolvidos observam de formas diferentes. Como o raciocínio motivado é inconsciente, os humanos podem ser sinceros ao afirmar que não são afetados por vieses ou interesses pessoais, mesmo quando tomam decisões que na verdade atendem a seus próprios interesses. Aceitar presentes da indústria farmacêutica tem um efeito subliminar importante nas decisões de atendimento ao paciente? O profissional acredita que não, as evidências demonstram que sim.

Na Grã-Bretanha, metade da população acredita no Céu, mas apenas ¼ acredita no Inferno; ao acessar dados emocionalmente relevantes, nosso cérebro, de modo automático, inclui nossos desejos, sonhos e vontades. O raciocínio motivado envolve partes do cérebro como o córtex orbitofrontal e córtex cingulado anterior, do sistema límbico, e o córtex cingulado posterior e pré-cúneo, que são ativadas quando fazemos julgamentos morais carregados de emoção. Para manter um equilíbrio entre um ego inflado e a objetividade, é preciso que a distorção resultante mantenha uma ?ilusão de objetividade?, que nos auxilie a sobreviver.

Acreditar em políticos ou religiosos notoriamente corruptos, escolher um específico partido político para votar, negligenciar o aquecimento global, acreditar que não descendemos dos macacos, pena de morte, ciclo-faixa, maioridade penal, são questões onde o raciocínio motivado faz com que cada lado encontre formas de justificar sua conclusão preferida e de desacreditar o outro, sempre se mantendo convicto quanto à própria objetividade. No fundo, cada um acredita sinceramente que sua interpretação é a única racional. Pobres humanos somos nós, frequentemente tão indelicados nas redes sociais ao defender este ou aquele ponto de vista, de forma tão apaixonada!!

Em relação a estudos científicos ou teses, críticas tão comuns como ?havia variáveis demais?, ou ?os dados coletados não são suficientes?, ou ?as provas apresentadas são relativamente insignificantes? parecem demonstrar objetividade. Será mesmo? Ou o raciocínio motivado está também presente nestes casos?

Acreditar em si mesmo, de forma ilusória, é apenas complicado, ou pode ser positivo? O raciocínio motivado é útil na relação com a felicidade?

O livro passeia por estes assuntos de forma a nos fazer pensar. Como sou psicanalista, o meu raciocínio motivado me afirma, peremptoriamente, que quanto mais acesso eu tenho ao meu inconsciente, às minhas motivações, aos meus desejos, independentemente de suas origens cerebrais, familiares ou sociais, mais eu me torno humano, mais tenho possibilidades de lidar com minhas angústias e melhores condições tenho eu de entender, escutar e ajudar o outro.

O equilíbrio entre uma abordagem psicanalítica, da neurociência, filosófica, social e política é desejável na hora de atender pacientes, segundo meu raciocínio motivado. E para você?

 


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Mauro Hegenberg é médico pela FM-USP e doutor em psicologia pelo IP-USP. Especialista em psicoterapia breve pela Universidade de Lausanne. Coordenador do Curso de Psicoterapia Breve do Instituto Sedes Sapientiae. Autor dos livros "Borderline" e "Psicoterapia breve" (Casa do Psicólogo).
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