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Sincronicidade e réveillon

Para você que não gosta de Réveillon, eu desejo sincronicidade.

Se você é uma daquelas pessoas que gosta de pular sete ondinhas, coloca calcinha vermelha para atrair o amor no ano vindouro, vai à festa vestindo branco e enche a cara de espumante, nem continue a ler pra saber o que a virada de ano tem a ver com o Jung.

Mas se você, sorumbático companheiro, é daqueles que considera tudo isso uma bobagem, que a mudança de ano é apenas uma variação convencional do calendário, que a festa de Réveillon é apenas uma obrigação contratual imposta pela mídia ensandecida, saiba que o dia primeiro de janeiro é muito mais do que apenas uma convenção ignominiosa.

Porque a pesquisa das populações, vide Lévi-Strauss, ou o estudo de psicanálise das famílias, nos mostra que os rituais são elementos importantes da nossa cultura. Rituais simples do cotidiano, como a hora de dormir, como o ancestral almoço de domingo na casa da nona, ou as festas de aniversários; o ritual do casamento como uma festa simbólica que apresenta o casal para a sociedade; os rituais religiosos de toda espécie com sua força simbólica que atravessa gerações; os rituais de magia negra ou branca; os rituais no esporte, enfim, rituais e seus profundos e às vezes enigmáticos significados, são fundamentais para nossa constituição enquanto humanos.

E o Réveillon é um ritual com sentidos vários. E uma de suas forças está justamente na sincronicidade. Como assim?

O ser humano é capaz de se comunicar para além das palavras e dos gestos; existem ondas cerebrais que se espalham e se encontram no espaço, vibrando em frequências similares. Se as ondas de rádio, TV ou internet, passeiam pelo ar, como nosso cérebro, muito mais complexo do que o computador mais sofisticado, não iria fazer melhor? O que um “vidente” charlatão tenta e não consegue fazer, um sensitivo competente capta com facilidade; desde o leitor de tarô ou de bola de cristal (este, fora de moda) até aquele que apenas te olha ou pega na tua mão, quem já foi a um deles se surpreende com a capacidade desta pessoa de falar sobre a tua vida passada inteira, desvendar segredos que ninguém além de você conhecia, tecer comentários precisos sobre pessoas próximas, e outras coisinhas mais.

Pouco importa se essa comunicação se dá entre vivos ou entre mortos, como acreditam os espíritas; o que se verifica é que a experiência se repete. Bifo (ou Franco Berardi, no livro Neuromagma) ilustra o tema sob o ponto de vista social, a partir da difusão cada vez maior da internet, enquanto alguns livros exploram o assunto “revelando” segredos.

Mas, uma coisa é a comunicação intercerebral neuromagmática, comum aos humanos, quaisquer que sejam eles, outra coisa é a sincronicidade. Bem, a comunicação existe e qualquer pessoa pode desenvolver a sua capacidade para captar impressões alheias; outra situação é você conseguir se comunicar e influenciar o universo com seu pensamento ou desejo. Dentro de um espectro de razoabilidade (e o que é razoável para um, é diferente para outros), conseguimos enviar para o mundo influências e informações sobre as quais temos maior ou menor controle.

Quem nunca experimentou pensar em alguém e esta pessoa telefonar, ou encontrar a pessoa na rua em seguida? Quem nunca foi despedido de um trabalho ou de um namoro, porque lá no fundo não queria mais estar ali? Quem é psicólogo e tem consultório sabe: quando a gente está mal, com algum problema, o número de pacientes cai e quando a gente quer muito trabalhar e está animado e feliz, o número de pacientes aumenta; ou, em outro exemplo, o número de clientes do escritório de advocacia aumenta.

Isso ocorre justamente em função da sincronicidade de que Jung nos falava; conseguimos influenciar o nosso mundo ao redor (se mais ou se menos, depende de cada um), de forma sistemática e às vezes surpreendente. E o segredo desta ligação com o outro não está, como querem alguns, na força do pensamento positivo; o segredo está no fundo da alma, no desejo em toda sua potência e força. Se você pensa positivo em uma direção e seu desejo vai em outra, pode crer, o desejo é mais forte. Exemplifico: você precisa ganhar mais dinheiro em 2015, mas você está sinceramente cansado e precisa de repouso; sua saúde, seu profundo e desejante cérebro quer e precisa de mais sossego e menos estresse no ano vindouro. Pode acreditar: você pode até precisar de mais dinheiro, mas ele não virá. E o barato da psicoterapia nestes casos, é justamente fazer uma análise aprofundada entre aquilo que pensamos que queremos e o que desejamos de fato; na maioria dos casos, não é tão simples assim entender tudo o que está em jogo dentro de nós, até poder encontrar algum equilíbrio satisfatório.

Tá bem, esse papo tá esquisito, mas o que isso tem a ver com o Réveillon?

Na onda da sincronicidade, nos dias 31/12 e 1/1, quase todo o planeta (mesmo os povos que contam seu calendário de forma diferente) está voltado para a mudança simbólica de ano. Então, não é apenas uma alteração banal de um dia para outro, porque se todos estão no clima, isso vai te influenciar também, querendo você ou não. A comunicação intercerebral neuromagmática, neste dia especial, vai te pegar e é melhor estar atento para ser influenciado positivamente. É momento de confluência de intenções, promessas, propósitos, ideias e ideais voltados para o ano que vai nascer. Vai daí, entre na onda, que ela pode ser benéfica; ficar de mau humor e achar que tudo é besteira, só vai te deixar mais distante da tal energia positiva que estará envolvendo o planeta nestes dias e horas.

Isso não quer dizer que é necessário ir a festas e girar reco-reco para ser feliz; não mesmo. É possível se conectar com o universo da forma que for mais plausível para cada um: meditar em um monastério, deitar sozinho em uma praia deserta, jantar à luz de velas com a pessoa amada, tecer reflexões sobre a existência e sobre o ano vindouro sentado na varanda, tomar sorvete de groselha olhando o interminável horizonte, ver todos os canais de TV do mundo para olhar os fogos de artifício de cada país, ficar na internet enviando votos de bom ano a todos os desconhecidos, ficar no whatsapp verificando se ele entrou em contato; enfim, maneiras mil de estar em conexão com os outros humanos.

Não se obrigue a ser feliz; mas, também, note que é um dia especial sim: aproveite-o. E, se possível, envie boas energias, que o planeta agradece.


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Mauro Hegenberg é médico pela FM-USP e doutor em psicologia pelo IP-USP. Especialista em psicoterapia breve pela Universidade de Lausanne. Coordenador do Curso de Psicoterapia Breve do Instituto Sedes Sapientiae. Autor dos livros "Borderline" e "Psicoterapia breve" (Casa do Psicólogo).
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