Os cachorros e o peixe

No início de janeiro, chegamos a Santo André, Bahia, na tarde de uma bela quinta-feira (é onde o time da Alemanha, o do 7x1 no Brasil, ficou hospedado na Copa do Mundo de 2014).
Na manhã seguinte, fomos até a ponta da praia, no encontro do rio João de Tiba com o oceano. Com céu azul, nós cinco passeávamos por uma praia semi-deserta, ladeada por coqueiros abarrotados.

A certa altura, um cachorro aparece ao longe, descendo a pequena encosta em direção à praia. Solto, sozinho, abandonado? Caí na bobagem de fazer uma perguntinha banal para uma amiga que caminhava ao lado.

O cão chegou mais perto do olhar; magro, porém forte e com pelo em bom estado: sinal de saúde.

A perguntinha pegou e o grupinho se aproximou:

- Eu prefiro ser cachorrinho de madame. É melhor ter sua caminha perfumada, ser levado para tosar o pelo, ter comidinha balanceada -, disse um.

- ...com brinquedinhos de pelúcia, ossinho próprio para roer, passeios e viagens com o dono...-, acrescentou outro.

- Ei, vocês estão idealizando a vida desse bicho. Até parece que cachorro de madame viaja todo dia de Ferrari, com os pelos ao vento na janela aberta, vai toda hora pro SPA ser frufrunado e ganhar banho de ofurô...

- A questão não é essa, atinou mais uma do grupo. Cachorro de madame só faz xixi na hora em que o dono decide, passeia quando a empregada tá a fim, come a ração sem gosto que tá na moda, brinca quando o adolescente se cansou do computador, é tosado e fica com cara de idiota mesmo que se envergonhe disso todo verão. Nunca faz sexo, vai ser castrado quando perturbar a ordem da casa e...

- Ahhh, mas a idéia é ser bem tratado, ser um verdadeiro cachorrinho de madame, não é?

- Esse cão feliz e satisfeito não existe!

Viramos a esquina do mar com o rio. Outro cenário apareceu, com vários barcos estacionados e algumas casas ladeando as margens do riozinho de águas geladas e despoluídas. Paisagem tranqüila, merecedora de diversos comentários sobre a vida na capital, sobre a necessidade de se viajar mais vezes, do estresse que é a vida adulta, com tantos aborrecimentos e responsabilidades.
- Levante a mão quem suportaria largar tudo lá em São Paulo e abrir uma pousadinha aqui?

Outro cachorro, dessa vez um boxer com três cores, corria pra lá e pra cá pela areia, todo satisfeito; deitado à sombra, uma boxer filhote descansava.

Um grupo com catorze argentinos pulava em uníssono dentro do rio, comandado pela voz impositiva da professora de hidroginástica: hop hilalá, pula, hop hilalá, mexe a perna, hop, hop hilalá...

A cadelinha saiu da sombra, correndo em zigue-zague, aos pulos; pegou a roupa de uma das mulheres que estava na aula de hidro, e mordendo com gosto, balançava a cabeça pra lá e pra cá. Ficou com cara de tacho quando a dona veio resgatar sua saída de banho, mas não ofereceu resistência enquanto ela pendurava seus pertences em uma árvore. O pai se aproximou e acompanhou a banhista até o rio, alerta e disposto para brincadeiras; frustrado, observou a moça voltar para a água. Dois segundos depois, os dois cães pulavam e corriam atrás de um resto de peixe que a filhote pegou com a boca. Essa brincadeira de pega, larga, corre, tira um da boca do outro a tal espinha de peixe, durou além do tempo que lá ficamos a observar pai e filha naquela farra.

- Pelo visto, essa dupla ainda vai ter filhos. Incesto canino.
- A conversa trata justamente disso: vale a pena ser cachorrinho de madame e perder toda essa vida; ter filhos, correr solto, pular, brincar?
- Mas você viu como o grande se coçava a toda hora? O pelo estava irritado, bem vermelho.

- Não há herói sem uma causa; todo filho protegido é um moleirão.

O rio estava convidativo para um mergulho, mas a dúvida sobre os perigos da travessia venceu e ninguém se atreveu a chegar até a razoavelmente distante ilha mais próxima.

- Não tem dor maior do que a saída da casa paterna. Lar, doce lar da infância protegida, quando pai e mãe resolvem tudo.

- Mas essa proteção se paga: tem que obedecer pai e mãe. Eu ganho o meu dinheiro, faço o que bem entendo e não tenho que dar satisfações para marido.
- Grande coisa, mas tem que dar satisfação para o chefe, para o relógio, para as contas e para os seus próprios fantasmas. Ninguém é livre de verdade.
No retorno para o hotel a tropa filosofava, enquanto a maré subia e o banco de areia desaparecia debaixo das águas do encontro do mar com o rio. Um tentando tirar o peixe da boca do outro, os boxers corriam e pulavam. Entraram na água saltando pela areia submersa; conhecedores da região, sabiam que ali havia terra firme para chapinhar nas águas refrescantes do oceano.
- Gente, que tédio; ainda essa brincadeira de peixe!


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Mauro Hegenberg é médico pela FM-USP e doutor em psicologia pelo IP-USP. Especialista em psicoterapia breve pela Universidade de Lausanne. Coordenador do Curso de Psicoterapia Breve do Instituto Sedes Sapientiae.  Autor dos livros "Borderline" e "Psicoterapia breve" (Casa do Psicólogo).
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