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Crianças francesas não fazem manha

Pamela Druckerman é uma jornalista americana que mora em Paris, com seu marido britânico e três filhos. Quando a primeira filha tinha um ano e meio, eles saíram em férias para uma cidade no litoral francês, perto de Paris. Ao voltar para o hotel, depois da primeira refeição, eles juraram nunca mais viajar ou ter outros filhos, tamanho o desgaste com a filha que não parava quieta.

Nos dias seguintes, ela notou que as crianças francesas comiam sossegadamente nos restaurantes. Não só nos restaurantes valia a comparação; mas também, por que as crianças francesas não fazem birra nos parquinhos, por que os amigos franceses não precisam largar o telefone correndo quando os filhos exigem alguma coisa, por que os bebês franceses dormem a noite toda a partir dos três meses de idade, por que eles vão satisfeitos à creche, das 8h às 18h, com 9 meses de vida?

Além disso, outras questões intrigaram a autora, como: o que ocorre com as mães francesas que recuperam a silhueta pré-gravidez em poucos meses? Como as crianças comem de tudo e gostam de verduras, frutas e legumes? Como elas brincam sozinhas sem perturbar os pais e os amigos? Como elas vão dormir cedo e não reclamam?

A partir daí, Pamela vai tentar entender o porquê das crianças francesas serem educadas e respeitosas e ainda assim, parecerem alegres, falantes e curiosas. Então, qual ou quais são os segredos da educação francesa?

Durante o livro todo, ela compara o estilo de educação francês com o norte-americano, mais parecido com o nosso brasileiro. A autora vai atrás de livros especializados, realiza entrevistas com educadores, psicólogos e médicos, conversa com várias mães francesas, participa de reuniões da escola da filha, compara pesquisas francesas e americanas sobre o assunto, demonstrando que suas opiniões serão baseadas em estudos e vários pontos de vista diferentes.

Em um primeiro momento, ao perguntar às mães francesas o que elas fazem para seus filhos serem como são, a resposta era sempre a mesma: "nada de mais", ou "não sei". Na sequência do livro, depois de suas pesquisas e leituras, ela entende que algumas regras básicas são seguidas, naturalmente, pela grande maioria das mães.

Algumas atitudes, esmiuçadas no decorrer dos capítulos do livro, são generalizadas entre os pais e educadores franceses, como o "attend" (espere), "sois sage" (seja sábio, ou comporte-se), o "cadre" (limites), a obrigação de dizer "bonjour - au revoir - merci" (bom dia - tchau - obrigado), a educação culinária (alimentação levada a sério), por exemplo. A importância dos direitos das crianças e dos pais está explicitada nesta afirmação de Marcelli, um dos muitos autores citados ao longo do livro: "A submissão deprecia; já a obediência permite que uma criança cresça". Com o respeito devido, dentro do "cadre", a criança tem liberdade total, aí incluída a ideia de que ela é responsável pelos seus atos e que ela deve viver a sua vida, com autonomia (o "attend" ensina isso desde o início da vida do bebê).

Nestes pontos, o interessante do livro é que ele não se coloca em posição normativa/auto-ajuda, mas de reflexão, a partir da comparação entre as educações americana e francesa. Ao leitor ficam as decisões do que é melhor para seus próprios filhos, embora o livro possa ser lido pelo viés da orientação, se absorvido de forma apressada e ansiosa.

Alguns detalhes são relevantes na hora de comparar a realidade francesa com a nossa. As creches e as escolas públicas na França são disputadas pelas camadas de renda média por conta de sua qualidade; os profissionais que ali trabalham são submetidos a uma disputada seleção, sendo continuamente treinados e fiscalizados. O estilo de educação francês segue um padrão semelhante tanto no interior das famílias quanto nas escolas públicas; os pais sabem que seus filhos serão educados de acordo com normas e regras equivalentes às suas. No Brasil, cada pai/mãe faz um esforço hercúleo para decifrar as escolas existentes nas suas cidades, a fim de tentar escolher um colégio que tenha alguns valores parecidos com os de sua família, tarefa nada simples.

Na França, no ensino médio, os alunos leem o livro "Emílio, ou da Educação" de Jean Jacques Rousseau, escrito em 1762 (segundo Kant, a importância do livro pode ser comparada a da Revolução Francesa). Na mesma linha de raciocínio, os franceses, comumente, são influenciados pela psicanalista François Dolto, que na década de 1970 tinha um programa diário de 12 minutos em uma rádio francesa, onde respondia perguntas dos ouvintes; estas gravações são ainda escutadas pelos pais e educadores franceses. Por exemplo, conversar com bebês logo que nascem é uma prática difundida entre os pais franceses, influenciados que foram pela Dolto: o bebê entende tudo, desde que nasce; ou mesmo antes de nascer? E nós, no Brasil, temos uma linha comum a seguir? Concordamos em quais pontos? Amparados por quais critérios?

Por falar em diferenças culturais, através das comparações tecidas pelo livro, é possível se compreender o modo como se trata um turista na França ou nos USA, em relação à segurança, por exemplo. Assim como é comum nas cidades francesas, em Étretat, uma linda cidade praiana na Normandia, me surpreendi (julho 2014) com lugares perigosos, verdadeiros precipícios sem proteção alguma; apenas uma placa escrita com algo parecido com: cuide-se, o lugar é perigoso e o problema é seu se cair. Bem francês, de acordo com o livro de Pamela: autonomia, liberdade, responsabilidade -- você sabe o que faz. Nos USA, se alguém cair em um lugar destes, haja processo em cima de processo; ou seja, a responsabilidade é do Estado e não do cidadão; algo ensinado desde que a criança nasce, segundo Dolto.

Para todos os efeitos, o livro é bem escrito, instigante, divertido e informativo sem ser chato. Pamela foi considerada uma das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2012 pela Revista Time; escreve ou escreveu em jornais importantes dos USA, como o New York Times e já foi repórter do Wall Street Journal em São Paulo, Brasil, cidade que ela diz gostar bastante. Vale a leitura.


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Mauro Hegenberg é médico pela FM-USP e doutor em psicologia pelo IP-USP. Especialista em psicoterapia breve pela Universidade de Lausanne. Coordenador do Curso de Psicoterapia Breve do Instituto Sedes Sapientiae.  Autor dos livros "Borderline" e "Psicoterapia breve" (Casa do Psicólogo).
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